Papa São Leão Magno Doutor da Igreja
Sermão Sobre a
Ressurreição do Senhor
Com a observância dos quarenta dias procuramos conformar-nos de algum modo à cruz do tempo da paixão do Senhor. A devoção ensinou-vos quão proveitosos são para a alma e para o corpo os jejuns mais prolongados, as preces mais freqüentes, as esmolas mais generosas. Quase não se encontra quem não tenha aproveitado desses exercícios e não haja depositado no íntimo de sua consciência alguma coisa que justamente o regozije. Seja, porém, conservados, com cuidado e perseverança, os resultados obtidos.
Cessado o esforço, não se volte à inércia, e a inveja do diabo não roube o que a graça de Deus concedeu.
Esforcemo-nos também para sermos participantes da ressurreição de Cristo e, enquanto estivermos neste corpo passarmos da morte à vida.
Em qualquer conversão há um término do que era e um início do que não era. Importa saber para quem se vive, ou para quem se morre, porque há morte que é causa de vida e vida que é causa de morte. Tanto uma como outra realiza-se apenas no tempo que passa, e da qualidade das ações temporais é que dependem as diferentes retribuições na eternidade.
Trata-se, pois, de morrer para o demônio e de viver para Deus; de abandonar a iniqüidade e de ressurgir para a justiça. Pereça o que é velho, surja a novidade. E tendo dito a Verdade:
« Ninguém pode servir a dois senhores » (Mt 6,24; Lc 16,13), seja Senhor nosso não aquele que impele os que estão de pé à ruína, e sim, aquele que eleva os prostrados à glória.
Muitas provas se seguiram dando autoridade à fé que havia de ser pregado no mundo inteiro. Além da pedra rolada, do sepulcro vazio, dos lençóis posto de lado, dos anjos a narrarem com por menores o fato, provando suficientemente a realidade da ressurreição do Senhor, ele em pessoa apareceu visivelmente às mulheres e amiúde aos Apóstolos (At 1,3). Não somente falou com eles, mas também entrou em casa tomou a refeição, admitiu que o tocassem e apalpassem com cuidado e curiosidade os que ainda eram presa da dúvida. Entrou com as portas fechadas no recinto onde estavam os discípulos (Jo 20,19). Com um sopro comunicou-lhes o Espírito Santo e, depois de dar-lhes a luz da inteligência, revelou o sentido oculto das Escrituras (Lc 24,27). Mostrou ainda a ferida do lado, as chagas dos cravos e todos os sinais da paixão recente
(Jo 20,27).
Tiveram de reconhecer que nele as propriedades das naturezas divina e humana permaneciam indivisas. Assim ficamos sabendo que o Verbo não se identifica com a carne e, confessamos que o Filho único de Deus é Verbo e carne.
Reconheça, pois, o povo de Deus ser em Cristo nova criatura, e vigilante compreenda quem a assumiu em si e a quem ela acolheu. Renovada não volte à decrepitude instável. Não abandone o trabalho quem pôs a mão ao arado (Lc 9,62). Mas veja o que semeou, sem voltar-se para olhar o que deixou. Ninguém reincida no mal do qual surgiu; embora por fraqueza corpórea ainda esteja prostrado por algumas doenças, deseje
instantemente ser aliviado e curado. Eis o caminho da salvação e a imitação da ressurreição iniciada em Cristo.
Como não falta quedas em tombos no terreno escorregadio desta vida, os caminhantes deixem o fluido e pisem terra firme, porque está escrito: « Do Senhor procedem os passos do homem, que ele guia e cujo caminho aprova. Se cair, o justo não fica prostrado, porque o Senhor o ampara pela mão » (Sl 36,23-24).
Seja mantido, caríssimos, este empenho não somente na solenidade pascal, mas por toda a vida, santificando-a. Tendam a tornar-se um hábito os exercícios e permaneçam intangíveis, uma vez que a sua curta experiência deleitou os espíritos dos fiéis. Se alguma falta penetrar sorrateiramente, seja apagada por um imediato arrependimento. E como é difícil e lenta a cura de doenças inveteradas, tanto mais depressa se empreguem os remédios, quanto mais recentes as feridas.
Sempre e integralmente nos reerguemos de todos os tropeços, mereçamos chegar aquela incorruptível
ressurreição da carne que há de ser glorificada, em Cristo Jesus, Senhor Nosso, o qual vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.
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