Artigo nº 1 A perfeição do Amor por São Pedro Julião Eymard Fundador da Congregação do Santíssimo Sacramento
Suspectus est mihi amor cui aliud quid adipiscendi spes suffragari videtur.
Amor liabet praemium, sed id quod amatur. Praeter se non requirit causam, non fructum: amo quia amo: amo ut amem.
É me suspeito todo amor que espera obter outra recompensa que o próprio amor
O prêmio do amor é o objecto mado. Não precisa de outra causa, nem outro fruto do que si mesmo. Amo porque amo, amo para amar. (São Bernardo de Claravau)
Capítulo I
Ha duas espécies de amor divino. A primeira ama a Deus por si, pelos seus benefícios e pela recompensa que espera obter no Céu. Ama-se a si mesmo em Deus. É o amor da lei. É bom, muito bom. É o primeiro mandamento, único que impõe a todos, e não se pode, estritamente falando, exigir mais. Quem o possui, está salvo. Esse amor glorifica a bondade, a liberalidade e a munificência de Deus para conosco. Muito bem.
O segundo, porém, resulta do reconhecimento pelos benefícios insignes concedidos por Deus a certas almas. É mais exigente. Deus vos prodigalizou suas graças. Não vos quiz dar o nessário, mas, sim, o supérfluo. Não deveis, portanto, tão pouco, contentar-vos em proceder qual jornaleiro, se tendes os direitos de filho de família, pelas graças recebidas. Ora, o filho não trabalha somente pelo salário, mas por amor, que é sua lei. E o amor não tem limites. « A medida amor, disse São Bernardo, é amar sem medida » Modum esse diligendi Deum sine modo diligere. Se Deus, na verdade, a tanto não nos obriga, é para nos proporcionar o gozo de lhe dar mais do que pede. Que vergonha para nós, impôr-nos Deus o seu amor, dizer-nos a nós, criaturas racionais, a quem dispensou fartamente os dons que lhe conhecemos o amor immenso que nos tem: « Amar-me-eis mais do que as creaturas, ao ouro, ao prazer, e, em troca desse amor, dar-vos-ei meu paraiso ». E, ai de nós, nem sequer recebe Deus do homem semelhante amor.
Mas, quanto a nós, seus amigos, poderemos nos contentar com tão pouco? Não, nunca! Deus é generoso para conosco. Sejamos generoso para com Elle. Deixa-vos Elle o campo livre - liberdade que leva ao heroísmo do amor, pois querendo agradar e causar surpresa, ultrapassa se à simples obrigação. A nós, amá-lo tanto quanto possível. Ora, Deus nos disse: Sponsabo te mihi in sempiternum: Desposar-te-ei para todo o sempre. A esposa se deve dar toda ao esposo, e tudo perder, tudo deixar, pátria, pais, família, o próprio nome e personalidade, por amor a elle. Erunt duo in carne una.
Ora, tal é o puro amor de Deus, que no leva a exclamar: « Meu Deus, amo-Vos por Vós e só para Vós! » Amor que, sem excluir a esperança: ou a idéa do céu, todavia não descansa nesses sentimentos, habitualmente, como motivo dominante. Sientes de que Deus será bom e genero para conosco, se o formos para com Elle, dizmos, no entanto: « Mesmo — o que é impossível - se não houvesse paraíso para recompensar meu amor, eu vos havia de amar, ó meu Deus, da mesma forma, porque mereceis, por Vós mesmo todo meu amor. Seja minha recompensa amar-Vos: Fructus ejus, usus ejus. Tudo que fizer, fá-lo-ei para amar-Vos e provar-Vos meu amor ».
E, que é isto para um Deus que tanto ama? Pouca coisa! Assim procedemos na vida natural. Vede as crianças pobres das cidades que desde pequeninas, trabalham nas fabricas o dia todo, para sustentar os pais, paupérrimos, sacrificando-se por elles. E isto lhes parece simples e natural, pois não pensam no que lhes custa, mas só consideram o amor, que lhes é toda recompensa. Amor habet praemium, sed id quod amatur. Faremos, por acaso, menos por Deus? Mostraremos maior dedicação ao pai terrestre do que ao Pai Celeste? Ah! pais e mães, vós destes o exemplo, sacrificando-vos pelo bem dos vossos filhos e unicamente por elles! E todos procedem da mesma forma. Se, ao passardes pela rua, presenciardes algum desastre, correreis em auxílio do ferido, embora desconhecido, sem esperar remuneração alguma em troca. Pois bem. Deus é blasfemado, Jesus Cristo renova constantemente sua Paixão. Por que não haveis então de soffrer por Ele e vos dedicar à sua gloria?
E que se não diga: « É elevado demais para mim ». A primeira necessidade do coração é dar mais do que deve. O demônio vos insinuará continuamente que não deveis aspirar a esse amor de dedicação, bom para os grandes santos, mas presunção e orgulho em se tratando da vossa pessoa! Ah! não se trata aqui de orgulho! Amai sem conta e, à medida que crescerdes no amor, haveis de vos compenetrar cada vez mais do vosso nada e da santidade e majestade de Deus.
É freqüente ouvir-se dizer: « Quero permanecer aos pés de Nosso Senhor. Sou indigno de me elevar mais alto». Mas, que inconsequência! Aos pés de Nosso Senhor! É o lugar da Santíssima Virgem! Julgais, por acaso, merecê-lo? Sem considerar o que vos cabe, o que mereceis, dizei, pelo contrario: « Não fiz bastante, devo amar mais e sempre mais ». Na terra, ninguém merece ser amado por si e para si mesmo, e sim pelo reflexo que traz em si. Deus, porém, é o fim supremo que unicamente merece ser amado pelo que é: santidade e amor increados e infinitos. Embora aprofundardes seu conherimento e crescerdes no seu amor, jamais conseguireis amá-Lo plenamente. A alma interior, amando sempre mais, porque melhor compreende quem é Deus, chegará a amá-Lo pelo próprio Jesus Christo, que lhe inspira o amor, e a reveste dos seus méritos infinitos; chegará a amá-Lo de um amor, por assim dizer, infinito e cuja recompensa só poderá ser infinita e eterna. É Jesus quem ama nela.
Amai, pois, e dai sempre, sem receio de jamais dar bastante. Nosso Senhor não põe limites ao amor que dita aos seus amigos. « Amai-me como meu Pai me amou e como Eu vos amo, e vivei e permanecei no infinito amor com que amo a meu Pai». Amemos, pois, a Deus, por Ele mesmo, por sua excelência, e porque o merece. Seja este o motivo dirigente e dominante de nossa vida.
Capítulo II
Para conseguir isto, deveis, em primeiro lugar, fazer tudo pela sua glória, restando-lhe a homenagem, tanto do bem que está em vós, como daquele que resulta dos vossos atos. E por que tal sacrifício? Para agradecer a divinal Bondade e glorificar o amor de Deus. Pensai a miudo, cheio de gratidão, na sua bondade. Agradecei-lhe freqüentemente, louvai-O e exaltai-O, não tanto pelo que vos há de dar um dia, mas porque é bom e santo, feliz em si mesmo, e porque vos dá a conhecer sua bondade e sua felicidade, e se digna manifestar-se a vós.
Em segundo lugar, a regra soberana de todas as vossas ações deve ser sua vontade. Em todo e qualquer acontecimento, dizei, sem hesitação e sem dó: « Se Deus assim quer, eu também quero, pois sua vontade é a expressão de sua bondade para comigo ». Que esse espírito vos inspire no cumprimento dos vossos deveres.
Por que quererá Deus antes isso que aquilo? Não sei, nem me preocupo. Perguntar a Ele, seria falta de respeito, de confiança. Não é Ele a Bondade e a Sabedoria mesmas? Meu Bem e minha glória? Haverá imprevistos para Ele? Querer sondar os motivos da vontade divina, é querer obedecer à vontade própria.
Deus quer tal coisa. Vós o sabeis, é quanto basta. O mais, não vos deve interessar. « Mas é difícil ». Que importa? É a parte de Deus. « Deus o quer », é o bastante; o resto vae por si. É a obediência cega e passiva, em virtude da qual obedecemos unicamente porque Deus é nosso Mestre; foi a obediência constante de Nosso Senhor em vida: « A tarefa que me confiastes está feita ». Tendo sido enviado á terra pelo Pai, para cumprir com sua santa vontade, nada pode fazer ou dizer a não ser por ordem sua.
E como nos será dado conhecer a vontade divina? Em primeiro lugar, pelos deveres, deveres de estado, sejam quais forem, e quando esses se calam, no tempo livre, si amardes de fato a Deus, fareis ainda o que for do seu agrado. « Quero amar a Deus mais que a mim mesmo », exclama a alma amante e si, entre duas coisas que a Ele me levam, uma, embora mais penosa, agrada mais a Nosso Senhor, escolhê-la-ei ». Escolha livre, sem luta nem hesitação. Tal alma quer em tudo e de antemão, o bel prazer de Deus. Quem olha ao que dá, não tem espírito de família. Hilaren datorem diligit Deus. É amor próprio escolher de preferência o que mais agrada e menos custa, é o satisfazer-se a si mesmo. Ao coração amoroso, nada custa. Se, porém, vos custar dar tal coisa a Deus, mais vale não dar, do que dar a contra gosto. Não falo do homem carnal, que está sempre — é natural — a se queixar. Se lhe tirardes tudo, si o crucificardes, é justo que grite. Não lho proibais. Mas o homem espiritual, a vontade superior, deve dar sem pesar. Quantos sacrifícios árduos não nos impõe a vida de todo o dia! E fazemo-los de bom grado, sem culpar a ninguém. Deus merece igual generosidade da nossa parte.
Finalmente — e nisto reside a perfeição do amor — a alma amante chegará a colocar os actos de amor unicamente naquillo que custa. Até então, embora não se procurasse, sempre se encontrava, pois anima e consola trabalhar pela glória divina e colocar sua vontade na de Deus; beatífica, porque a alma, firme no andar, goza de uma paz divinal, que nenhum acontecimento poderá perturbar. A vontade de Deus, cumprida exactamente, apazigua as curiosidades do espírito, o afeto do coração, os próprios sentidos. Pode-se, é verdade, passageiramente, sofrer isso ou aquilo, mas no fundo reina uma paz soberana, porquanto a guerra só está onde Deus não manda com absolutismo. E então o amor puro se exercerá naquilo que imola, partindo do princípio de que o verdadeiro amor nasce do sacrifício inteiro de si mesmo em tudo. A essência do puro amor está nos sacrifícios e nos sofrimentos escolhidos. Não nos disse Nosso Senhor: « Não há maior amor do que dar sua vida pelo objeto amado »?
Ele fará sofrer e sofrer incessantemente a alma que se entregou a Ele, para entrar em plena posse, e a aniquilará e tomará seu lugar. Será bem penoso! Será, mas como renasce a todo momento a tentação de voltar a ser o que era, Deus a combaterá e fará sofrer. Anula o espírito, abafa o coração.
Mergulha o espírito que hesita em se dar inteiro, nas trevas e nas tentações, quer contra a fé, ou a esperança, quer perturbando sua confiança em Deus, quer até lançando-a no desespero. Não gozará mais da paz, enquanto o espírito não se entregar plenamente a si mesmo, renunciando totalmente às suas próprias luzes. Os diretores nada podem contra semelhante estado. Raciocinam e falam da bondade de Deus, mas esta se encobre, enquanto o passado nos apavora e o presente nos faz
tremer. Que fazer? Tudo aceitar. Deus, que vos quer neste estado, não vos dará satisfação alguma, enquanto não vos ouvir dizer: « Eu nada sou senão peccado. Submetto-me e peço-Vos fazer tudo quanto vos aprouver. Quereis que me provoquem, me atormentem? Também eu o quero. Tudo vai bem. Em vez de vos oferecer as boas ações, visíveis aos meus olhos, levo-Vos minhas misérias, que me dais a conhecer, e, embora não a ame, por ela vos ei de glorificar ». E Deus, satisfeito, permanece convosco. Que importa o resto? O importante é não descer a minúcias. Se exclamardes: « Deus me abandona, que me vai acontecer? » será de enlouquecer. O que interessa a Deus é saber si vós O amais mais que a vossa vontade, mesmo sobrenatural. Tranquilizai-vos, pois, até no interno O haveis de glorificar. Quereis acrescentar ainda à sua glória?...
O coração, afetuoso por natureza, depois do gozo do paraíso, encontra-se agora no gelo e nas angústias, ao ponto de um ato de amor parecer-lhe uma blasfêmia. Que fazer? Levar o coração pelo raciocínio, entrar em luta com ele? Isso só agravará o caso. Melhor será exclamar: « Amando-Vos na doçura, ó meu Deus, eu era bem feliz; agora, porém, estou numa terra árida e sem água. Pois bem, amar-Vos-ei mais do que a doçura do vosso amor. Meu coração quer negar meu amor, mas eu vos amarei apesar do coração, apesar da vontade ».
Deus, ao querer apoderar-se da alma, entrega-a a essas lutas terríveis. Não para se satisfazer a si mesmo, mas sim para aumentar nossos merecimentos. Atormenta-nos para multiplicar o mérito e a glória. Se esse estado perdurar, apesar de todos os esforços empregados em contrário, sabereis que provém de Deus. Dizei, então: « Quereis que eu vos ame mais que a toda minha vida espiritual? Eu também o quero e, vivo, coloco-me no túmulo ». Si quizerdes unir-vos a Deus, é preciso chegar a tal ponto. Ele quer ouro e não terra nem amalgama. A união com Deus solda-se no fogo, e a alma que enreda nesse caminho adquire uma extraordinária liberdade interior, que se não prende a nenhuma prática, a nenhum estado particular. O estado em que se encontra é toda sua vida, pois Deus ali a colocou, e ninguém a poderá afastar.
Alegareis, talvez, que isto estupidifica. Equivale a privar-se de toda ação, de toda iniciativa. É verdade, mas esse é o caminho pelo qual Deus leva as almas de escol. Não lhes tem Ele um amor imenso? Contentai-vos em vos amar como Deus vos ama, entregando-vos a Ele e dizendo-lhe com São Boaventura: « Já que me amais mais do que eu a mim mesmo, não mais me ocuparei com minha pessoa, abandonando-Vos esse cuidado, para só de Vós me occupar ». Scio quia plus quam ego me diligis. De me igitur amplius non curabo, sed solum tuis deliciis inoerebo: et tu mei curam habeto. (Stimulus Amores p. 11, C.2.).
Fonte: Dos sermões e escritos do santo.
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