São Pedro Damião Cardeal-bispo de Óstia
Doutor da Igreja (../../1007 - ../../368)
Nasceu Pedro Damião em Ravena, em 1007. Sendo o último de um grande número de filhos, queixou-se um dos mais velhos a sua mãe de lhe dar tantos co-herdeiros; e era tão sensível a pobre mãe que, torcendo as mãos, se pôs a gritar que era uma miserável indigna de viver. Deixou de nutrir o pobre filhinho, que em breve se tornou lívido de fome e de frio, e já quase não tinha voz, quando uma mulher, espécie de criada na casa, sobrevindo, disse à mãe: "Será proceder como mãe cristã, senhora, fazer pior que os tigres e os leões, que não abandonam os filhotes? Talvez que esta criança não seja a menor da família". Disse, sentou-se ao pé do fogo e, após ungir e esfregar o filho com boa quantidade de gordura, o
fez recobrar o calor e as cores. A mãe, recobrando a lucidez, tornou a se apoderar do filho e terminou de alimentá-lo.
Pedro Damião era ainda pequenino quando perdeu pai e mãe. Um dos irmãos, casado,
incumbiu-se de educá-lo; mas tanto ele como sua esposa eram avarentos, duros, e tratavam o menino como se fosse um escravo. Só o olhavam de soslaio, davam-lhe a pior alimentação, deixavam-no descalço e mal vestido, cobriam-no de pancadas. Finalmente, quando Pedro cresceu mais um pouco, mandaram que guardasse os porcos. Naquele estado, achou, um dia, uma moeda de prata; e, julgando-se rico, ficou sem saber o que compraria que mais lhe causasse prazer. Finalmente, murmurou entre si: "Esse prazer passará imediatamente; é melhor dar o dinheiro a um sacerdote, para que ofereça o santo sacrifício a meu pai". Se bem o disse, bem o
fez.
Outro de seus irmãos, chamado Damião, tirou-o da miséria, abrigou-o em sua casa e tratou-o com ternura e afeto paternais. esse Damião foi arcipreste de Ravena e em seguida monge, e ao que se crê foi dele que Pedro tomou o apelido que o distingue. Pelos cuidados do irmão, Pedro estudou primeiramente em Faiença, depois em Parma, onde teve por mestre a Yves; e foi tão grande o seu progresso nas letras humanas, que não tardou em ser capaz de ensiná-las, atraindo-lhe a reputação, de todos os lados, grande número de discípulos. Vendo-se rico e honrado no vigor da mocidade, não sucumbiu absolutamente às tentações da vaidade e do prazer; pelo contrário fez salutares reflexões: "Irei apegar-me a esses bens que devem perecer? E se a eles devo renunciar por outros maiores, não será mais agradável a Deus fazê-lo eu desde agora?". Começou, pois, a dedicar-se aos jejuns, às vigílias e às preces. De noite, se experimentava excessivos impulsos de sensualidade, levantava-se e mergulhava no rio, depois, visitava as igrejas e recitava o saltério antes do ofício. Dava muitas esmolas, nutria
freqüentemente os pobres e servia-os com as suas próprias mãos.
Resolveu, finalmente, abandonar de vez o mundo e abraçar a vida monástica, mas fora da sua terra, de medo de que de tal idéia tratassem de afastá-lo parentes e amigos. Estava pensando nisso, quando encontrou dois ermitães do deserto de Fonte Avellana, dos quais ouvira falar; abrindo-se com eles, fortificaram-no ambos no plano, e, dando o jovem sinais de pretender retirar-se com eles, prometeram-lhe que o abade o acolheria. Pedro ofereceu-lhes um vaso de prata para que o levassem ao abade, mas os dois responderam que era demasiadamente grande e que os embaraçaria no caminho... Pedro admirou-se do desapego daqueles homens. Para submeter-se a uma prova, passou quarenta dias numa cela semelhante à dos ermitães; depois, tendo resolvido, fugiu aos seus e rumou para Fonte Avellana, onde, segundo o uso, o confiaram a um dos irmãos, incumbido de o instruir. este irmão, depois de o conduzir à cela, mandou que despisse a roupa, revestiu-o de um cilício e tornou a levá-lo à presença do abade, o qual imediatamente mandou o revestissem de uma cogula. admirou-se Pedro de lhe darem sem perda de tempo o hábito, independentemente de qualquer prova; mas submeteu-se à vontade do superior, embora; naquele tempo, não estivesse separado da profissão o recebimento do hábito.
O deserto de Fonte Avellana, dedicado à Santa Cruz, encontrava-se na Úmbria, na diocese de Eugubio, e nele passara algum tempo São Romualdo. Os ermitães que o habitavam viviam aos pares, em celas separadas, constantemente entretidos na salmodia, na oração e na leitura. viviam de pão e água em quatro dias da semana; nas terças e quintas, comiam um pouco de legumes, por eles próprios cozidos nas celas. Nos dias de jejum, recebiam um pouco de pão, e só tinham vinho para o santo sacrifício, ou para os doentes. Caminhavam sempre descalços, submetiam-se à disciplina, faziam genuflexões, batiam no peito, ficavam de braços estendidos, cada um segundo as suas forças e devoção. Depois do ofício da noite, recitavam todo o saltério antes do amanhecer. Pedro velava muito antes que fossem tocadas as matinas, e não deixava de velar ainda, depois, como os outros, persuadindo de que as devoções particulares devem ser praticadas sem prejuízo da observância geral.
Aquelas vigílias excessivas lhe causaram uma insônia da qual se curou a muito custo; depois, todavia, passou a comportar-se com mais sensatez e, concedendo considerável tempo ao estudo, tornou-se tão sábio nas Sagradas Escrituras como o fora nos livros profanos. Começou, portanto, por ordem do superior, a dirigir exortações aos confrades; alastrando-se-lhe a reputação, o santo abade Guido de Pomposa, perto de Ferrara, rogou ao abade de fonte Avellana que lho enviasse para ensinar durante algum tempo na sua comunidade, que se constituía de cem monges. Pedro Damião lá ficou dois anos, pregando com excelentes frutos; tendo-o chamado de volta o seu abade, não tardou a ser enviado para a mesma função ao mosteiro de São Vicente, perto de Pedro Pertusa, também bastante numeroso. finalmente, o abade de Avellana o declarou o seu sucessor, com o consentimento dos irmãos, porém contra a vontade de Pedro; depois da morte desse abade, não somente governou Pedro, e aumentou a comunidade, como também fundou mais cinco semelhantes. Assim era Pedro Damião, quando soube em 1045 da ascensão do papa Gregório VI, e deu mostras de grande júbilo nas suas cartas. Rejubilava-se pela restauração dos costumes e da disciplina eclesiástica, e iria ajudar poderosamente os sucessores do pontífice no grande empreendimento, sobretudo São Leão IX e o seu arquidiácono Hildebrando, o qual, mais tarde, se tornou Gregório VII.
Para tanto compôs vários escritos. Entre outros, escreveu a vida de São Rodolfo, bispo de Eugubio; a vida e as terríveis penitência de São Domingos o Escudado, que ainda vivia.
Conhecendo o papa Estêvão IX, antes cardeal Frederico da Lorena, o mérito de São Pedro Damião, tirou-o da solidão e fê-lo bispo de Óstia e primeiro dos cardeais, como digníssimo do episcopado e necessaríssimo aos assuntos da
Igreja. O papa, os bispos e todos os que amavam a Igreja assim acreditavam; mas Pedro não conseguia resolver-se a abandonar o retiro e resistia com todas as forças de que dispunha. Foi preciso ameaçá-lo de excomunhão, no caso de continuar a se obstinar, e o papa, pegando-lhe a mão, lhe deu o anel e o bordão pastoral para significar que desposava a igreja de Óstia. Contudo, Pedro queixou-se sempre da violência de que fora vítima, fazendo tudo para desincumbir-se do bispado.
O novo cardeal-bispo de Óstia dirigiu aos demais cardeais-bispos uma belíssima carta, cuja substância damos a seguir: "As sentinelas colocadas em redor do campo ou nas torres da cidade, no meio de profunda noite, dirigem a palavra, de vez em quando uma à outra, para se manterem acordadas e alerta. Chamado, contra a minha vontade, para o meio das sentinelas colocadas diante do campo da Igreja, eu vos escrevo, veneráveis
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