Biografia de São Pedro Crisólogo (../../340 † 02/12/450) Arcebispo de Ravena Doutor da Igreja
São Pedro, cognominado Crisólogo, ou palavra de ouro, dada a eloquência, nasceu em Ímola, nos listados Romanos, de família honesta. Levado à piedade desde a infância, foi instruído nas santas Letras e ordenado diácono por Cornélio, bispo daquela cidade. Fala São Pedro daquele prelado com veneração e com os mais vivos sentimentos de reconhecimento.
Chama-o pai, e diz que todas as virtudes lhe brilhavam na conduta.
Foi sob a direção do grande mestre que o Santo aprendeu, desde a juventude, a matar as paixões, dirigindc-se às perfeições por exercícios da vida interior, revestindo-se do espírito de Jesus Cristo. Abraçou, então, o estado monástico, e não deixou o retiro em que jazia senão quando foi encarregado da igreja de Ravena.
Morrendo João, arcebispo daquela cidade, os bispos da província reuniram-se para eleger-lhe o sucessor, de concerto com o clero e o povo.
Entre eles, estava Cornélio de Ímola e Pedro, o diácono. Elegeu-se, então, um eclesiástico da cidade, que foi para Roma imediatamente, com os deputados do clero e o bispo Cornélio, para obter do Papa a confirmação. Sentava-se, na Cátedra de Pedro, Sixto, o terceiro do nome. Pelo meio da noite, tivera ele uma visão: o apóstolo São Pedro e o mártir Apolinário, o discípulo, primeiro bispo de Ravena, apareceram-lhe, vindo entre eles um jovem que, ordenaram, devia ser o arcebispo de Ravena, e não outro.
No dia seguinte, vendo o diácono Pedro em companhia do bispo Cornélio, nele reconheceu o jovem que São Pedro e o discípulo haviam indicado para o arcebispado. Era pelo ano de 433 de Jesus Cristo, e todos ficaram surpresos com a indicação do Papa, mais ainda São Pedro Crisólogo. Houve murmúrios, e o Papa, para que tudo serenasse, falou da visão que tivera.
Pedro, ordenado padre em Roma, visitou as principais igrejas, a fim de obter, pela intercessão dos santos apóstolos, as graças necessárias para ser um bom pastor.
Chegado que foi a Ravena, recepcionaram-no alegremente o imperador Valentiniano, sua mãe Gala Placídia e todo o povo.
Ordenado arcebispo no domingo seguinte, em presença de toda a corte e de todo o povo fiel, endereçou-lhe São Pedro uma inflamada alocução, onde se revelava a jóia que a igreja ganhara.
Tudo aquilo que prometeu no dia da consagração, São Pedro Crisólogo cumpriu durante toda a vida. Conservaram-se dele cerca de cento e oitenta discursos ao povo. São curtos, muito curtos, mas duma elegância sem-par. Muitos há que versam sobre o mesmo assunto: sete sobre o símbolo dos apóstolos, seis sobre a oração dominical, sete que discorrem sobre o nascimento de São João Batista, três em que fala da conversão da Madalena, cinco a respeito da Anunciação da santa Virgem.
O objetivo de todos os sermões é aumentar a fé e a piedade no coração dos fiéis, a fim de poderem, mais eficazmente, suplantar o mal e revestir-se do bem.
Os pagãos celebravam então o lº de janeiro com festejos vergonhosos, como que para trazer esquecidas as festas do Natal. Faziam desfilar pelas ruas, ruidosamente, os mesmos ídolos que adoravam pelo ano em fora. E representavam, acobertados pelos falsos deuses, publicamente, as mais infames ações.
Pedro verberou eloquentemente contra os escândalos, para deles desviar os cristãos e conjurar os pagãos a fazer o mesmo. Às vezes, tão inflamado era, que a palavra lhe faltava, desaparecia. Reconheceu, duma feita, como era querido do povo, pela palidez dos rostos, pelo clamor que se alevantou, pelas lágrimas e pelas orações que a Deus dirigiram, temerosos que estavam da voz que se lhe fora.
Pedro consolou-os assim:
"Os discursos ordinários, tendo a razão humana por princípio, obedecem a esta razão e o espírito está no ministro. Mas os de piedade são a mão de Deus que lhes dão vida, e não aquele que os pronuncia. A palavra é divina e, pois, não a controlams, porque é Deus mesmo. Assim, aquele que a propala, não a propala ele, mas Deus, por isso que não governa a boca. Não sabeis, porventura, o que aconteceu a Zacarias, privado da voz porque duvidou?."
Sobre a oração, o jejum e a esmola, São Pedro Crisólogo diz:
"Quando a Deus solicitamos graças, há que solicitá-las com instância, com muita instância. É bater na porta com orações reiteradas, suportando a demora com humildade e paciência. Aquele que se irrita e se indispõe, porque não é atendido logo às primeiras súplicas, não é digno de receber de Deus o que quer que seja, porque não é um suplicante, um humilde que pede, mas um soberbo que exige com império aquilo que crê que lhe é devido. Um modelo de oração é aquela que fez, no meio da noite, o homem que tinha necessidade de três pães para dar a um amigo. Obteve-os pelas importunidades. A oração é uma das três coisas que sustentam a fé. As outras duas são o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum obtém e a misericórdia recebe. Unidos, a oração, o jejum e a misericórdia, tudo podem. O jejum é a alma da oração, e a misericórdia a vida do jejum. Não os separeis jamais. Quem um não tiver, nenhum dos três terá; donde se segue que quem ora deve jejuar, e quem jejua deve exercer obras de misericórdia".
Era, então, pela época duma revolução. O império romano ia sucumbir no Ocidente. Os povos bárbaros — os godos, os vândalos, os hunos — chegavam, uns após outros, à Europa, a maior parte herética e todos pagãos.
O vigilante pastor de Ravena teve todo o cuidado de alertar as ovelhas do rebanho contra os erros que as hordas traziam consigo. Uma nova heresia vinha eclodir. Um monge de Constantinopla, o heresiarca Eutiques, pretendia que em Jesus Cristo a natureza divina e a natureza humana não eram mais distintas, que se confundiam numa. Condenado por São Flaviano, arcebispo de Constantinopla, Eutiques apelou ao Papa São Leão, e escreveu, em particular, a São Pedro Crisólogo, o santo arcebispo de Ravena, para recomendar-lhe a causa.
São Pedro respondeu-lhe no mês de fevereiro de 449, nestes termos:
"Li tristemente tua triste carta, e percorri com grande aflição teus escritos torturantes. Porque, como a paz das igrejas, a concórdia dos sacerdotes, a tranquilidade do povo nos enchem de satisfação, duma alegria toda celeste, assim a divisão dos irmãos nos aflige e nos acabrunha, sobretudo quando com semelhantes causas".
"As leis humanas, por um lapso de trinta anos, extinguiram todas as disputas dos homens, e, após tantos séculos, disputa-se temerariamente sobre a geração do Cristo, que a lei divina nos propôs como inexplicável. Tu não ignoras a que desvairamentos foi atirado Orígenes procurando os princípios, e Nestório disputando naturezas. Os magos reconheceram Jesus como Deus no berço, e sacerdotes, com um procedimento em que se não pensa senão com tristeza e dor, perguntam hoje em dia: 'Quem é aquele que nasceu da Virgem e do Espírito Santo?'"
"Quando Jesus deixava ouvir os primeiros vagidos, estendido nas santas palhas do presépio, o exército cantava: Glória a Deus nas altutas, e agora que, ao nome de Jesus todos es joelhos se flexionam, no céu, na terra e nos infernos, discutem-lhe a questão da origem?"
"Nós, meu irmão, nós não podemos escrutar de maneira injuriosa aquele que nos espera e que nos há de julgar. Respondi em poucas palavras à tua carta, meu irmão, porque nosso coepiscopo Flaviano já o havia feito. Nós te exortamos, irmão honorável, a que te submetas ao que foi escrito pelo bem-aventurado Papa de Roma: porque São Pedro, que vive e preside na Cátedra, dá a verdade de fé aos que a procuram. Quanto a nós, afeiçoados que somos pela paz e pela fé, não podemos interpretar as causas da fé sem o consentimento do bispo de Roma".
Quando São Crisólogo exortou Eutiques a se submeter em tudo às ordens do Papa, falava, sem dúvida, da famosa carta de São Leão, que expunha de maneira admirável a doutrina da Igreja sobre a Encarnação do Verbo. Conhecia-a, provavelmente, uma vez que era um dos principais bispos da Itália, e o Papa tinha o costume de consultar os bispos. E há mais. Escritores asseguram positivamente, e o breviário romano insinua-o, que o Papa São Leão lhe conhecia a eloquência, que o chamou particularmente e lhe deu a conhecer toda a heresia de Eutiques, encarregando-o de redigir a célebre encíclica que foi lida no concílio da Calcedõnia, e que começava: "Pedro a falar por Leão".
Quando São Germano esteve em Ravena, em 448, São Pedro Crisólogo hospedou-o da maneira mais honrosa.
Pedro fundou o mosteiro de Classe, pequena cidade situada na costa, a três milhas de Ravena. Em Ravena mesma, erigiu duas igrejas: uma em honra de Santo André, e outra em honra de São Pedro, ao qual tinha como padrinho.
Sentindo aproximar-se a última hora, desejou regressar a Imola, a fim de deixar a vida no lugar mesmo onde havia recebido a consagração na qualidade de diácono.
Foi recebido com grande afeição e muito honrado pelos compatriotas, principalmente pelo bispo Projeto, ao qual consagrara.
No dia seguinte ao da chegada, na igreja de São Cassiano, mártir, celebrou a santa missa. Pediu ao bispo e ao clero, pelo amor de Deus, lhe dessem sepultura ao lado do altar. Depois de ter dado a bênção episcopal ao povo, retirou-se. E, ao meio-dia, faleceu. Era o dia 2 de dezembro de 450.
Foi, como rogou, enterrado na igreja de São Cassiano, onde ainda se encontra grande parte de suas relíquias. Um dos braços está guardado em Ravena, num belíssimo relicário.
São Pedro Crisólogo está entre os Doutores da Igreja, dignificado que foi por Leão XII.
.Fonte: Padre Rohrbacher, Vida dos Santos XXI
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