Biografia de São João Damasceno (../../675 - 04/12/749)
« Doutor da Igreja »
Com a vida de São Brás que ele resume em seus hinos.
Os maometanos haviam conquistado a Caldéia, a Pérsia, a Palestina, a Síria, a Mesopotâmia e o Egito, quando João nasceu pelo fim do sétimo século em Damasco, cidade que lhe emprestou o sobrenome de Damasceno. Sua família era ilustre e cristã. Conquanto os cristãos tivessem que sofrer, de tempos em tempos, perseguições e afrontas, sobretudo quando os muçulmanos foram batidos pêlos gregos, seu pai ocupava um cargo de conselheiro de estado junto do califa desses infiéis. Em lugar de dissipar os grandes bens em gastos inúteis, empregava-os em obras de caridade, principalmente em comprar cativos que levavam a Damasco para serem vendidos e decapitados. Um dia, entre um grupo destes infelizes expostos em praça pública, foram vistos os que eram destinados à morte lançar-se aos pés de um deles recomendando-se humildemente às suas preces. Era um religioso italiano, chamado Cosme aprisionado no mar com os outros. Os bárbaros notando o respeito que lhe testemunhavam seus companheiros de desgraça, perguntaram-lhe de que dignidade se achava revestido entre os cristãos. Respondeu-lhes que não possuía outra dignidade além de sacerdote. « Sou, ajuntou, um monge inútil que não estudou somente a filosofia cristã, mas também a estranha » e, dizendo estas palavras os olhos se lhe inundaram de lágrima-. O pai de João, tendo presenciado a cena, indagou da causa de sua tristeza. Cosme confessou-lhe ingenuamente que o afligia ter de morrer sem poder transmitir aos outros as ciências que havia aprendido. Ora, havia muito tempo o pai procurava para o filho um homem que lhe pudesse dar educação conveniente. Contente por encontrar esse tesouro num cativo que iam degolar, correu a pedi-lo ao califa, que lho concedeu sem dificuldade. Cosme não somente recebeu a liberdade, mas tornou-se o amigo do pai, o mestre do filho, que sob sua direção, aprendeu com êxito prodigioso a gramática, a dialética, a aritmética de Diofante ou a álgebra, a geometria, a música, a poesia, a astronomia, mas sobretudo a teologia ou a ciência da religião. Seus progressos não foram menores na virtude do que nas ciências. Tinha por companheiro de estudos um órfão de Jerusalém, que seu pai havia adotado. Quando sua educação chegou ao término, Cosme retirou-se para a Palestina, no mosteiro de São Sabas, donde o buscaram para ser bispo de Majume. O mérito de João chegou em breve aos ouvidos do príncipe dos sarracenos, que o fez chefe de seu conselho após a morte do pai.
Circunstância notável! É um pobre monge da Itália, cativo, votado à morte, que introduz as ciências da Grécia e de Roma na corte dos califas em Damasco, que as ensina ao filho do grão-vizir; e este filho, tornado grão-vizir por sua vez, depois monge, sob o nome de São João Damasceno, veio a naturalizar por certo tempo, as ciências estrangeiras entre os próprios muçulmanos, entre os árabes, que as haviam proscrito e queimado com a biblioteca de Alexandria. Após estes fatos, constatados pelos sábios da França, não foram os cristãos que aprenderam essas ciências humanas dos muçulmanos, como certos homens se comprazem em afirmar, mas os muçulmanos que as aprenderam dos cristãos.
Viu-se mais de um imperador grego de Constantinopla proteger a heresia: houve um que forjou ele próprio uma heresia nova: condenar e quebrar as imagens dos santos como uma idolatria. Foi o imperador Leão, com o sobrenome de Isauriano, porque era nativo da Isauria, país e povo pelo menos tão bárbaro como o eram os hunos e os vândalos. Sendo muito ignorante, meteu na cabeça que, honrando as santas imagens, os católicos honravam não os santos que representavam, mas a matéria e a cor, de que as imagens eram feitas. Aprestou-se em aboli-las, arrancá-las das igrejas e queimá-las em praça pública. Os católicos que se opuseram foram torturados e levados à morte. Seu filho Constantino Coprônimo mostrou-se ainda mais furioso. Constantinopla tornou-se um teatro de suplícios: arrancavam-se olhos, cortavam-se narizes aos católicos; dilaceravam-lhes os corpos a golpes de azorragues e lançavam-se ao mar. O imperador queria sobretudo os monges: não havia ultrajes nem tormentos que não os obrigasse a padecer: queimavam-lhes as barbas embebidas em
piche; quebravam-lhes sobre a cabeça as imagens dos santos pintadas em madeira. Seu maior prazer era presidir aos suplícios. Houve ainda quatro ou cinco imperadores semelhantes. Assim, enquanto os reis bárbaros se abrandavam no Ocidente, os imperadores de Constantinopla barbarizavam-se.
Deus não abandonou os seus nesses tempos difíceis: suscitou muitos santos para amparar a multidão dos fiéis. São João Damasceno, conquanto vivesse entre os muçulmanos, compôs em favor das santas imagens excelentes escritos, que se conservaram até hoje e nos quais a heresia dos iconoclastas é refutada com grande força de argumentação.
Escreveu um primeiro discurso endereçado aos amigos, rogando-lhes o difundissem entre os fiéis. Começa com muita modéstia. « Deveria de preferência, conhecendo minha indignidade, guardar um perpétuo silêncio e contentar-me em confessar a Deus meus pecados; mas vendo a Igreja fundamentada sobre uma pedra agitada por violenta tempestade, não creio dever calar-me, porque temo a Deus mais que ao imperador. Ao contrário, é o que me excita: porque a autoridade dos príncipes é de molde a seduzir os súditos. Conquanto se saiba que os reis da terra estão sujeitos ao Rei do céu, e que as leis estão acima deles, poucos há que lhes desprezem as ordens injustas ». São João Damasceno estabeleceu em seguida como fundamento de seu discurso, que a Igreja não pode errar, que não é permitido julgá-la passível de suspeita de tão grosseiro abuso como a idolatria rogou, enfim, ao povo de Constantinopla, com seu excelente pastor, acolher com benevolência as sua palavras, sem dar atenção à sua dignidade, que era pequena, nem à sua eloqüência, ainda menor, mas ao conteúdo das idéias.
Depois, entrando no mérito da questão: « Sei, disse, que aquele que não mente disse: O Senhor, teu Deus, é um; adorarás o Senhor, teu Deus, e a ele somente servirás; não farás esculturas nem imagens do que está no céu e sobre a terra. Também eu não adoro senão um Deus, e a ele somente rendo a adoração de latria. Não adoro a criatura em lugar do Criador: mas o Criador que se fez criatura, para honrar a natureza humana e fazer-me partícipe da natureza divina. Adoro, juntamente com este grande Rei e este Deus, o corpo que é por assim dizer sua púrpura. Ouso fazer uma imagem do Deus invisível, não enquanto é invisível, mas enquanto se tornou visível a nós pela carne e pelo sangue. Por esta imagem, não pretendo representar a divindade, mas a carne que foi visível. Se não posso fazer uma imagem da alma muito menos poderia fazer uma de Deus, que criou de modo a ser imaterial.
«Mas Deus disse a Moisés: Não farás imagens. Atentai para o fato de que Moisés explica no Deuteronômio: O Senhor falou-nos no meio do fogo; não vistes nenhuma imagem, somente ouvistes a sua voz, a fim de que olhando o céu e vendo o sol a lua e as estrelas, não vos deixásseis seduzir para adorá-los e servi-los. Vedes que o seu intento se limita a afastar-vos da adoração da criatura em lugar do Criador, e render a outro, além dele, a adoração de latria? Este preceito dirigia-se aos judeus inclinados à idolatria: mas para nós a quem é dado conhecer perfeitamente a natureza divina, e que, passada a infância, sabemos o que é possível e o que é impossível de representar mediante imagens, como seria possível forjar uma imagem daquilo que não tem figura nem limites? Ou pintar com cores aquele que não possui corpo? Mas depois que ele se fez homem, podeis fazer a imagem de sua forma humana. Podeis pintar o seu nascimento da Virgem, seu batismo no Jordão, sua transfiguração no Tabor, seus tormentos, sua cruz, sua sepultura, sua ressurreição, sua ascensão. Exprimi tudo isso assim pelas cotes como pelas palavras. Não temais. Conheço a diferença entre adoração (proskyneseos) e imagens.
«A imagem é uma semelhança que caracteriza o original, mas com certa diferença, porque uma imagem não seria inteiramente igual ao original. O Filho de Deus ê a imagem viva do Pai. imagem semelhante em tudo: se esta não é senão o Pai, não é do Filho, mas o Filho do Pai. As idéias de Deus são as imagens e os paradigmas das coisas que ele quer fazer. As próprias coisas visíveis são imagens das coisas invisíveis. Assim a Sagrada Escritura, para adaptar-se à nossa fraqueza, representa-nos por vezes Deus sob figuras corporais. Assim, para representar a Trindade, empregamos a comparação do sol, de sua luz e seus raios. Chamamos ainda imagem o sinal das coisas futuras. Desta maneira, a arca da aliança, a vara de Aarão e a urna do maná, significavam a santa Virgem; a serpente de bronze significava Jesus Cristo na cruz; o mar e a nuvem significavam o batismo. Chama-se ainda imagem o que conserva a memória das coisas passadas, seja pelas letras, como quando Deus escreveu sua lei sobre tábuas, e ordenou escrever a vida dos homens que lhe haviam sido caros, seja por outros monumentos sensíveis, como a urna e a vara que mandou guardar na arca. Despojai-vos, portanto, de toda sorte de imagens, e declarai-vos contra aquele que as mandou plasmar, ou recebei-as todas, cada uma como lhe convém.
« A adoração, proskynesis, é um sinal de submissão e de respeito. Dela conhecemos diferentes espécies. A primeira, que se chama adoração de latria, é a que rendemos a Deus, único adorável por sua natureza. Há outra que rendemos, por causa de Deus, a seus amigos e a seus servidores, como quando Josué e Daniel adoraram os anjos, já nos lugares e nas coisas consagradas a Deus, já nos príncipes que ele instituiu, como quando os israelitas adoravam o tabernáculo, quando Jacó adorou Esaú, seu irmão primogênito, e o próprio Faraó, e quando José foi adorado por seus irmãos. Existe também uma adoração que consiste somente numa honra que se rende a um ou outro, como quando Abraão e os filhos de Hemor se adoraram reciprocamente. Despojai-vos de todas as adorações, ou aceitai-as toda; mas com as diferenças e nas ocasiões apropriadas.
« Dizei-me: Deus não é um? o legislador não é um? Por que, então, ordena coisas contrárias? Por que os querubins se incluem entre as criaturas? Por que, então, ordena que os querubins feitos pelas mãos dos homens lancem sua sombra ao propiciatório? Não é para fazer entender que de Deus mesmo, como sendo infinito, não se pode plasmar imagem alguma, a fim de que nenhuma criatura receba adoração de latria; mas que os querubins, sendo seres limitados, são representados como ministros em torno de seu trono? A arca, a urna e o propiciatório, não são obras dos homens, feitas de vil matéria, como vos apraz dizer? O que é todo o tabernáculo senão uma imagem, uma sombra, uma figura? A lei mesma, que, segundo o Apóstolo, não era senão sombra dos bens futuros, e não sua imagem real, não é a figura de uma imagem? Não é absolutamente assim: mas cada coisa a seu tempo.
« Outrora Deus, não tendo corpo, nem figura, não era representado por imagem alguma. Mas depois que Deus foi visto na carne e que palestrou entre os homens represento em imagem o que tornou visível. Não é a matéria que adoro, mas o autor da matéria, que se fez matéria por mim, que habitou na matéria, e que pela matéria, operou minha salvação. E não cessarei de reverenciar a matéria pela qual fui salvo: não que a reverencie como a Deus: jamais! mas como o instrumento de sua graça. O lenho sagrado da cruz não é matéria? E o lugar do Calvário, e a pedra do santo sepulcro, fonte de nossa ressurreição, e as letras que compõem os Evangelhos, e a mesa sagrada, e o ouro e a prata de que são forjados os vasos sagrados, enfim o corpo e o sangue de Nosso Senhor? Tudo isto não tem matéria? Despojai-vos, portanto, do culto e da veneração de todas estas coisas, ou convinde que se pode honrar as imagens de Deus e as de seus amigos. Não calunieis a matéria. O que Deus fez não é desprezível. Isto é um pensamento dos Maniqueus. Nada há desprezível senão no que Deus não fez: uma só coisa, fruto de nosso livre arbítrio, o pecado.
« O que um livro representa para aqueles que não sabem ler, representa a imagem para os que não a entendem; o que o discurso opera no ouvinte, a imagem opera à vista. As imagens são um memorial das obras divinas. Deus ordenou que tomassem doze pedras do Jordão e construíssem um monumento perene desta miraculosa passagem. Por que não representarei os milagres e os sofrimentos de Jesus Cristo a fim de que, se meu filho me interrogar, eu lhe responda: É que o filho de Deus se fé: homem, e restituiu ao gênero humano a primitiva felicidade? Mas, dizem eles, contentai-vos em fazer imagens de Jesus Cristo e de sua Mãe. Que absurdo! Não vedes que vos declarais abertamente inimigos dos santos? Porque se pintais a imagem de Cristo, e não dos santos, não são as imagens que defendeis, mas os santos é que recusais a honra. O templo de Salomão estava ornado todo em volta de querubins, de palmas, de romãs, de bois, de leões. Não é mais descente ornar as muralhas da casa de Deus com imagens dos santos do que de animais sem razão? Não queremos pintar Jesus Cristo sem os santos que compõem a sua corte. Que o imperador da terra se prive da sua antes de privar a de seu mestre.
« Antigamente não se construíam templos aos homens, e não se celebrava a morte dos justos com alegria, mas com lágrimas. Ao contrário, quem quer que tocasse um morto, fosse mesmo o corpo de Moisés, era reputado imundo. Aboli pois as festas instituídas em honra dos santos, contra as máximas da antiga lei ou então aceitai as suas imagens, que entendeis contrárias à lei. Mas é vos impossível ab-rogar estas festas estabelecidas pelos apóstolos e pelos Padres. Porque, depois da encarnação do Verbo, somos verdadeiramente santificados, libertados por seus sofrimentos, imortais por sua ressurreição. Desde esse tempo, honramos a morte dos santos com alegria, e não com luto. A sombra ou o cinto dos apóstolas curava os doentes e expulsava os demônios: por que não haveria de ser honrada a sua imagem? Ou nada adoreis de material, ou não pretendais introduzir inovações, e não abaleis os limites seculares plantados por vossos pais, que estabeleceram os usos da Igreja, não somente por seus escritos, mas pela tradição.»
São João Damasceno respondeu a objeção tirada de Santo Epifânio, que rasgou uma cortina onde se achava pintada uma imagem. Diz primeiramente que o escrito de onde é tirado este fato talvez: não seja de Santo Epifânio, ou que este santo agiu dessa maneira para coibir certos abusos, como Santo Atanásío ordenou o enterramento das relíquias dos santos para abolir o mau costume dos egípcios, que guardavam seus mortos sobre leitos: porque, que Santo Epífânio não pretendeu abolir as imagens, vê-se pela sua igreja, que é ainda ornada. Enfim, do mesmo modo que segundo o provérbio, uma só andorinha não faz o verão, assim também a autoridade de um só homem não deve prevalecer contra a tradição de toda a Igreja.
No fim de seu discurso, São João Damasccno recorda muitas passagens dos Padres em favor do culto das imagens. Primeiramente, de São Denis, o Areopagita; depois de São Basílio, de São Gregório de Nissa, que diz haver se comovido até as lagrimas com a pintura do sacrifício de Abraão: de São Crisóstomo, de Leôncio, bispo de Chipre. Acerca do último, ajunta: « Quem é o melhor interprete de Santo Epitânio, este bispo que pregou na mesma ilha de Chipre, ou aqueles que falam segundo sua opinião particular? » Enfim, após haver citado Severlno de Gabales e o Prado espiritual de São Sofrônío de Jerusalém, e que é propriamente de seu amigo João Mosch, conclui: « Muitos bispos e imperadores cristãos há que se distinguem pela sua piedade, doutrina e vida santa: muitos concílios houve, em que tornaram parte os santos Padres inspirados pelo Espírito Santo: donde vem que nenhum deles ousou condenar o culto das imagens? Não permitiremos se ensine uma nova fé, nem tenhamos a leviandade de mudar segundo os tempos, a fim de que os infiéis não olhem nossa fé como brincadeira e escárnio. Não toleraremos se obedeça ao edito do imperador que quer subverter o costume dos nossos pais. Não é de um imperador piedoso pretender abolir os usos e os decretos da Igreja. Não é agir como imperador, mas como bandido, querer dar ordens com violência, em lugar de persuadir com a razão. É o que se vê no segundo concílio de Éfeso, ainda hoje chamado a atrocidade, porque tudo se caracterizou peia violência do imperador: haja vista o martírio de São Flaviano. Decidir sobre matéria desse quilate não competia aos príncipes, mas aos conciliares. Não foi aos reis que Jesus Cristo concedeu o poder de ligar e nem de desligar, mas aos apóstolos e a seus sucessores, aos pastores e doutores da Igreja. “Se for um anjo que vos pregar outro Evangelho do que aquele que tendes recebido... Não acrescentemos o que segue, isto é, que ele seja anátema!” para fazê-lo-. mudar de sentimento. Mas se, o que não apraza a Deus, persistirem obstinadamente em seu erro, então pronunciaremos o anátema ».
É fora de dúvida um bem considerável ver um ministro, um vizir do califa, do sucessor de Maomé, escrever com esta profundeza, esta justeza e esta força sobre as santas imagens, ao Imperador e ao povo de Constantinopla. É fácil imaginar que semelhante escrito, vindo de tal mão, deveria provocar uma grande sensação,
Eis como o imperador respondeu, depois dos escritos gregos, ás cartas de São João Damasceno em favor das santas imagens. João ainda mantinha o cargo de ministro do califa e governador de Damasco. Suas cartas, pois houve diversas, passando de mão em mãos, constituíram-se em grande sustentáculo para aqueles que o temor da perseguição teria podido quebrantar. O iconoclasta Leão irritou-se de tal forma que, havendo encontrado uma das cartas, usou deste meio para vingar-se. Fez imitar a grafia por um hábil falsário, mandou escrever uma carta em nome de João a qual convidava o imperador de Constantinopla a marchar sobre Damasco para conquistá-la. Enviou essa carta suposta ao califa, como penhor de sua amizade e prova do desejo sincero que o animava de manter a paz com ele. O califa, fora de si pela cólera e sem escutar os protestos de Damasceno, mandou cortar-lhe a mão direita. O autor de sua biografia que é João, patriarca de Jerusalém, e que se crê João IV, que foi queimado pelos Sarracenos no ano 969, nos transmite: que Damasceno, obtida a ent rega da mão cortada, prostrou-se diante de uma imagem da Santa Virgem, suplicando intercessão junto de seu Filho, a fim de que o conservasse em condições de continuar a defesa da causa das santas imagens: que à vista de sua mão inteiramente restabelecida, o califa, surpreso com o milagre lhe reconheceu a inocência e lhe pediu que continuasse na corte.
Seja o que for Damasceno preferindo renunciar-se ao mundo, concedeu liberdade aos escravos, distribuiu os bens aos parentes, aos pobres e às igrejas, e dirigiu-se a Jerusalém, e de lá para o mosteiro de São Sabas, em companhia do jovem que havia sido educado com ele pelo monge Cosme. O superior do mosteiro colocou-o sucessivamente sob a direção de alguns anciãos mais sábios; mas escusaram-se todos do encargo, não se acreditando em condições de dirigir um homem, em que parecia haver tanta erudição. Houve finalmente um que aceitou a incumbência, mas o tratou duramente, a ponto de ordenar-lhe as coisas mais repugnantes à natureza, e puni-lo sem contemplação pelas menores faltas. Após diversas provas suportadas com maravilhosa paciência, deixaram-no senhor de seu tempo, que empregou na composição de diversas obras. O patriarca de Jerusalém, que era João III ou Eusébio, seu sucessor, obrigou-o a receber a ordem do sacerdócio. Damasceno não se submeteu senão por obediência: depois voltou à sua cela para continuar nos seus exercícios de penitência e suas obras para a utilidade da Igreja. Animava-o nisto o monge Cosme, seu antigo preceptor, depois bispo de Majume, na Palestina, perto de Gaza.
São João Damasceno morreu em 4 de dezembro de 749. Em seus numerosos e excelentes escritos combateu todas as heresias antigas e novas, inclusive a de Maomé e a dos iconoclastas. Não as combateu somente com discursos e obras isoladas, mas com um vasto cabedal de doutrina, que sob o nome de manancial da ciência, abrange desde os primeiros elementos da linguagem e do raciocínio científico até as culminâncias da fé cristã.
Este corpo de doutrina que o santo doutor dirigiu a Cosme, bispo de Majume, seu antigo preceptor, que o havia como que obrigado a escrever, compõe-se de três partes: a primeira, sob o nome de dialética, expõe os princípios e as regras para falar e raciocinar justamente em matéria de ciência; a segunda é a história e a refutação sumária de todas as heresias, desde a origem do mundo até o seu tempo: a terceira, intitulada Fé Ortodoxa, expõe e estabelece essa fé nos quatro livros.
A ciência, segundo São João Damasceno, é o conhecimento verdadeiro daquilo que é. Nosso espírito, não a tendo em si mesmo, como o olho não possui a luz, necessita de um mestre. Este mestre é a própria verdade, o Cristo, que é a sabedoria e a verdade em pessoa, e no qual estão escondidos os tesouros da ciência. Tudo se pode aprender mediante aplicação e trabalho, mas antes de tudo e após tudo, pela graça de Deus. Como o Apóstolo nos advertiu provar todas as coisas e reter o que é bom, consultaremos os escritos dos sábios da gentilidade; talvez ali encontraremos algo de útil à nossa alma. Um artesão qualquer, para fazer sua obra, necessita de instrumentos: convém ademais que a rainha seja servida por algumas damas de companhia. As ciências puramente humanas são as servas da verdade, instrumentos e armas para defendê-la.
A filosofia é a ciência natural daquilo que é, enquanto é; as ciências das coisas divinas e humanas: a meditação da morte; a imitação de Deus; a arte das artes, a ciência das ciências; enfim, o amor da sabedoria. Ora a verdadeira sabedoria é Deus; logo o amor de Deus é a verdadeira filosofia. A filosofia divide-se em especulativa e prática; a especulativa subdivide-se em teologia, fisiologia e matemática: a prática, em moral, econômica e política. O objeto da teologia é a consideração dos seres imateriais. Deus, os anjos e as almas. A fisiologia é a Ciência das coisas materiais, como são os animais, as plantas, as pedras, tudo o que hodiernamente se chama história natural.
A Ciência matemática considera as coisas, que, conquanto sem corpo por elas mesmas, são consideradas nos corpos; tais, os números, as harmonias, as figuras e os movimentos dos astros. A teoria dos números constitui a aritmética: a teoria dos sons a música; a teoria das figuras a geometria: a teoria dos astros a astronomia. A filosofia prática trata das virtudes, regra dos costumes e do comportamento; se impõe regras ao indivíduo, chama-se moral: à uma família inteira, chama-se economia: As cidades e aos países, chama-se política.
Como a filosofia é a ciência daquilo que é, falaremos do ser. Começaremos pela lógica ou a arte de raciocinar, que é mais uma parte da filosofia do que instrumento de que se serve para todas as demonstrações. Trataremos primeiramente das palavras simples que exprimem idéias simples, e chegaremos em seguida aos raciocínios. O ser é um nome comum a tudo o que é e divide-se em substância e acidente. A substância é que existe em si mesmo, e não em outro, por exemplo, um corpo: o acidente é o que não pode existir em si mesmo, mas é considerado em outro, por exemplo, uma cor.
Com esta justeza e esta clareza. São João Damasceno precisa as palavras e as idéias que constituem a linguagem e a razão científicas. Quando se considera que as discordâncias filosóficas entre os Pagãos, que as grandes heresias entre os cristãos, provinham todas de uma obscuridade e de uma confusão mais ou menos voluntárias, no que tange às palavras e às idéias do ser, de substância, de natureza, de forma, de hipóstase, de pessoa, vê-se que São João Damasceno não tinha melhor inicio do que defini-las bem, e quem quer que pesquise a verdade em consciência, ou quer defendê-la sinceramente, deve faze r o mesmo.
Em seu Tratado das heresias, onde enumera uma centena até o seu tempo, as oitenta primeiras, das quais vinte antes de Jesus Cristo, são resumidos da obra de Santo Epifânio. Entre as heresias anteriores a era cristã, um e outro colocam as principais seitas da filosofia grega. Entre as vinte heresias mais recentes, a que São João Damasceno expõe e refuta mais amplamente é o maometanismo. « Até o momento, diz a superstição dos ismaelitas, arautos do Anticristo, continua a enganar os povos. São descendentes de Ismael, filho de Abraão e de Agar; os ismaelitas são também chamados comumente de agarianos. Eram idólatras, adoravam a estrela Lúcifer e Vênus, que chamavam, Chabar ou grande, até o tempo de Heráclio. Então levantou-se entre eles um falso profeta, chamado Maomé, que havendo encontrado os livros dos Antigo e Novo Testamentos, e tido contato com um monge ariano, formulou uma heresia nova. Conseguido o favor de seu povo por uma aparência de piedade, difundiu o rumor que os escritos lhe vinham do céu. Escreveu um livro eriçado de coisas ridículas, onde expõe a sua religião. Estabelece um Deus do universo, que não foi engendrado, nem engendrou nada. Diz que Cristo é o Verbo de Deus e seu Espírito, mas criado e servidor que nasceu sem cooperação humana, de Maria, irmã de Moisés e de Aarão, por operação do Verbo de Deus, que nela entrou; que os judeus, havendo querido, por um crime detestável, pregá-lo numa cruz, apoderaram-se dele, mas não crucificaram senão sua sombra: de sorte que Jesus Cristo não sofreu nem a cruz nem a morte, tendo Deus, a quem era todo querido, arrebatado o Verbo aos céus ». São João Damasceno cita do Alcorão diversas outras fábulas mais ou menos ridículas, mais ou menos ímpias; entre outras a maneira ímpia quanto infame como Maomé esposa a mulher do seu filho adotivo, e apresenta alguns exemplos para refutar os maometanos.
Perguntamos-lhes: Que provas tendes de que Maomé recebeu de Deus o seu Alcorão? Ou que profeta predisse que se levantaria um profeta deste jaez? A isto, como não sabem o que responder, ajuntamos: Moisés recebeu a lei sobre o Monte Sinai, quando Deus, á vista de todo povo, se manifestou ali em meio a trovões e coriscos. Todos os profetas, a começar por Moisés, anunciaram que o Cristo é Deus, que se faria homem, que morreria sobre a cruz, que ressuscitaria, e que seria o juiz dos vivos e dos mortos. Por que o vosso profeta não dispõe de testemunhos semelhantes? Respondem eles: Deus fez tudo como lhe aprouve. Sem dúvida, replicamos nós. Mas enfim, de que maneira o Alcorão desceu ao vosso profeta? Quando dormia, dizem. Eis que é curioso, continuamos nós, com um sorriso: se o recebeu dormindo, não se deu conta de sua vinda. É o caso de recordar-vos o provérbio: são sonhos o que nos pretendeis impingir! Vindes com fábulas de fazer dormir de pé! Como! Vosso profeta vos proíbe fazer sem testemunhas o que quer que seja, fosse até a venda ou compra de um asno, e vosso Alcorão, vós o recebestes sem testemunhas! Os sarracenos censuram-nos dar um companheiro a Deus, porque dissemos que Cristo é seu Filho e Deus como ele. Mas, respondemos-lhes nós, por que nos censurais, vós que dizeis que Cristo é o Verbo e o Espírito de Deus? Porque de duas uma: ou Cristo está em Deus, como o seu Verbo, seu pensamento, sua palavra e como seu espírito, e então é Deus: ou está fora de Deus, e então Deus estará sem Verbo, sem pensamento, sem palavra e sem espírito. Assim, para não dar a Deus um companheiro, vós o mutilais e dele fareis uma pedra, um pedaço de madeira, ou outra coisa bem diversa privada de sentido.
O Sarraceno nos pergunta: Antes que Moisés pregasse o judaísmo, o mundo não estava abismada no culto dos ídolos? Sem dúvida, respondemos nós. Os que, à pregação de Moisés preferiram o judaísmo à idolatria, não agiram bem?
— Sem dúvida.
— Analogamente, os que com a pregação e os ensinamentos de Cristo, preferiram ao judaísmo o cristianismo, não tinham razão?
— Não há dúvida.
— Então os que, com a pregação e os ensinamentos de Maomé, preferiram o islamismo ao cristianismo, igualmente agiram bem e os outros, mal?
— Absolutamente.
— E como assim?
— Eis porque. Cristo e Moisés foram dignos de fé, não porque pregaram e ensinaram, de molde que fossemos forçados a crer em Maomé unicamente porque ensina e prega ; mas Moisés provou a sua missão com milagres, e Cristo, como havia sido predito pelos profetas, obrou milagres não menores do que Moisés. Concordais. Ora. Cristo disse a seus discípulos: a lei e os profetas vão até João: quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. Onde estará então o vosso profeta? A coisa fala suficientemente por si.
Os Sarracenos acusam-nos de idolatria porque adoramos ou veneramos a cruz, a que têm horror. Mas, perguntamos-lhes, como e que gastais a pedra negra do vosso caaba à força de beijos e abraços? Alguns afirmam que o pela razão de que sobre esta pedra Abraão conheceu Agar: outros, que foi a esta pedra que Abraão amarrou o seu camelo quando indo do sacrifício de Isaac. Fabulas ineptas! Enfim, se não tendes vergonha de beijar uma pedra sobre a qual Abraão conheceu a sua escrava, ou a qual amarrou a sua besta, como nos imputais por crime a veneração da cruz de Cristo, pela qual foram destruídos o império de Satanás e as fraudes dos demônios?
Qual dos dois, pergunta um Sarraceno, vos parece maior: aquele que santifica ou aquele que é santificado? O santo responde: Vejo bem o que quereis dizer.
— Pois bem, se o vides, respondei!
— Se eu respondo: É aquele que santifica, replicareis imediatamente: Adorai então João Batista que batiza e santifica vosso Cristo.
— É isto mesmo, replica o Sarraceno.
— Mas, continua São Damasceno, quando entrais num banho com um escravo, que vos lava e limpa, qual dos dois dizeis ser o maior? Será o miserável que comprastes, ou vós, que sois seu mestre? Ora, João é o servo, e Jesus Cristo, o Senhor. O Sarraceno, estupefato, retirou-se sem dizer palavra. São João Damasceno terminou o seu Tratado das Heresias, como o havia feito Santo Epifânio, com uma profissão de fé; mas não se revela tão exato acerca da procedência do Espírito Santo. Santo Epifânio, tanto no seu grande Tratado das Heresias como no seu Ancorato, não somente prova a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo, mas repete em um e outro, pelo menos dez vezes, que é da substancia do Pai e do Filho, que é do Pai e do Filho, que procede do Pai e do Filho, que procede do Pai e recebe do Filho, que procede de um e outro.
Nas regras de dialética e na história das heresias, São João Damasceno faz suceder sua obra da fé ortodoxa, em cem capítulos, que se costumam dividir em quatro livros. Ali fala de Deus, de suas obras, de sua providencia, da encarnação e de suas conseqüências. Sobre cada verdade, resume ele a Sagrada Escritura e a Tradição. Entre os Padres, que resume e transcreve, sem nomeá-los em mlnudências, segue particularmente São Gregório de Nazianzo, cujos escritos havia lido muito: cita ainda freqüentemente São Dionísio, o Areopagita, São Basílio, São Gregório de Nissa, Nemésio, bispo de Emesa, na Síria, São Cirilo de Alexandria, São Leão, papa, Leôncio de Bizâncio. São Máximo, Santo Atanásio, São Crisóstomo, Santo Epifânio e multos outros. Eis como inicia.
« Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único que está no seio do Pai, afirma-o expressamente. Deus é pois, inefável e incompreensível. Porque ninguém conhece o Pai. senão o Filho; nem ao Filho senão o Pai. O Espírito Santo conhece, analogamente o que é de Deus, como o espírito do homem conhece o que está no homem. Após esta primeira e bem-aventura natureza, ninguém jamais conheceu a Deus, senão aquele a quem Deus diretamente se revelou. Não me refiro unicamente aos homens, mas as virtudes celestes, os querubins e serafins. Entretanto, Deus não nos deixou em completa ignorância; porque, em tudo, semeou naturalmente o conhecimento de que há um Deus. A própria criação do mundo, sua conservação e seu governo, proclamam a majestade, da natureza divina. Ademais, pela lei e pelos profetas, em seguida por seu Filho único, Nosso Senhor, nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, aumentou este conhecimento a um grau que logramos alcançá-lo. É por isso que tudo o que nos foi transmitido tanto peia lei e pelos profetas como pelos apóstolos e evangelistas, o recebemos, o reconhecemos, o veneramos, sem procurar nada além. Porque Deus, sendo bom e nada egoísta, revelou-nos o que importa sabermos e omitiu o que ultrapassava nossas forças ».
Após haver explicado o mistério da Santíssima Trindade, ajunta, com São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa: « Com esta matéria, pela unidade da natureza, destruímos o absurdo politeísta dos gentios, e reconhecendo o Verbo e o Espírito Santo, derrubamos o dogma dos judeus; permanece de um e outro o que é bom, a saber; do judaísmo, a unidade da natureza; do paganismo, a distinção de pessoas «
Entre as obras de Deus, fala dos anjos, das criaturas visíveis, do céu, da luz, dos astros, do ar, da água, da terra, do paraíso terrestre: mas sobretudo do homem, cujas paixões e faculdades expõe acurada o pormenorizadamente. Isto pode surpreender, num Tratado da Fé Ortodoxa; entretanto, ele sente-se a vontade em ouvir a razão neste particular. Idéias vagas, falsas, confusas, sobre estes assuntos diversos, serviam de ponto de apoio aos maniqueus, aos nestoitanos, aos eutiquianos, no monotelistas, para acreditarem nos seus erros sobre, as verdades da fé católica, e particularmente sobre a encarnação do Verbo. Era necessário, pois, para derrubar os seus erros pela base, substituir com idéias justas e precisas as idéias falsas e confusas em que se apoiavam.
Falando da Eucaristia, disse entre outras coisas: «Se a palavra do Senhor é viva e eficaz, e se o Senhor fez tudo o que queria; se disse: Faça-se a luz, e a luz foi feita: se o céu e a terra, e tudo o que o mundo encerra, em particular o homem, esta criatura tão admirável, foi feito pela palavra do Senhor, se o Verbo-Deus, porque quis, se fez homem e se formou um corpo do sangue puríssimo da Virgem santa, não pôde fazer do pão o seu corpo e do vinho o seu sangue? Como acontecerá isto? disse a santa Virgem. E o anjo lhe respondeu: O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrira com sua sombra. E agora vos pergunto; Como o pão se tornou o corpo de Jesus Cristo, e o vinho e a água, seu sangue? Respondo também: O Espírito Santo virá e operará esta maravilha que transcende a razão e o pensamento. É o corpo verdadeiramente unido à divindade, o corpo tomado da santa Virgem não que o corpo que subiu ao céu dele desce, mas porque o pão mesmo e o vinho são mudados em corpo e sangue de Deus. Se perguntais a maneira sob a qual isso se faz, é bastante entender que é pelo Espírito Santo, do mesmo modo que o Senhor formou para si um corpo da santa Virgem. Nada mais sabemos, senão que a palavra de Deus é verdadeira, eficaz e toda poderosa, e o modo é incompreensível. Por outro lado, o pão e o vinho, que comemos e que bebemos naturalmente, mudam-se no corpo e no sangue daquele que come e bebe, e não se tornam outro corpo do que o seu; da mesma forma, o pão e o vinho com água, por invocação e pela descida do Espírito Santo, mudam-se sobrenaturalmente no corpo de Jesus Cristo e no seu Sangue, e não são dois corpos, mas um só e mesmo corpo. Enfim, o pão e o vinho não são a figura do corpo e do sangue de Jesus Cristo. — livre-nos Deus! — mas o corpo mesmo deificado do Senhor. Porque o Senhor disse expressamente: isto não é a figura do meu corpo, mas meu corpo: não é a figura de meu sangue, mas o meu sangue ».
Para completar esta enciclopédia de São João Damasceno, é necessário ajuntar-lhe a sua grande obra dos « Paralelos ». Consiste numa comparação das sentenças dos Padres com as da Sagrada Escritura, sobre quase todas as verdades morais. Estão dispostas por matéria e com muito cuidado, seguindo a ordem do alfabeto grego. O santo doutor as havia anteriormente distribuído em três livros, o primeiro dos quais tratava de Deus e das coisas divinas; o segundo do estado e da condição das coisas divinas: o terceiro das virtudes e dos vícios; mas julgou, depois, que a obra se adequaria melhor aos leitores, se dividisse os títulos por ordem alfabética. O que há de vantajoso nesta compilação, é que São Damasceno, com isto, preservou da destruição fragmentos de autores antigos, dos quais não mais temos notícia.
O cardeal Mai reencontrou em São João Damasceno muitos hinos e odes em honra de São Basílio, de São Crisóstomo, de São Nicolau de Mira, de São Jorge e de São Brás. Estes hinos são em prosa poética. Há oito em honra de São Basílio, sete em honra de São Crisóstomo; neles são celebrados as virtudes e as ações que conhecemos em um e outro. Nas nove odes em honra de São Nicolau, mas dos quais faltam os dois primeiros, o poeta de Damasco resume as tradições comuns dos gregos e latinos sobre o ilustre pontífice de Mira: « Nem a areia acumulada nas praias do mar, diz-lhe, nem a multidão das ondas nem as pérolas do rocio e os flocos de neves, nem o coro dos astros, nem as golas da chuva e as correntes dos rios, nem o murmurejar das fontes, igualarão, ó Padre, o número de teus milagres. Todo universo tem em vós pronto socorro nas aflições, encorajamento nas tristezas, consolação nas calamidades, defensor nas tentações, remédio salutar nas moléstias ». Damasceno celebra particularmente seu poder em libertar os prisioneiros que o invocam quando em grilhetas; sua aparição no imperador Constantino no meio da noite para salvar três generais de morte injusta a que haviam sido condenados: seu zelo em confessar a fé durante a perseguição: em combater a heresia de Ário para preservar o seu rebanho: sua caridade incomparável, que oculta ao conhecimento do infeliz a mão que o socorre, que salva da desonra um pai e suas três filhas que o cúmulo da miséria levava a dedicar-se ao crime. Nos sete ou oito hinos em honra de São Jorge, Damasceno canta os mesmos tormentos e os mesmos milagres que vemos celebrados por seu compatriota André, arcebispo de Creta: a roda, os fogos, os cavaletes de ferro, as beberagens envenenadas, a ressurreição da morte, a conversão do mago Atanásio, os demônios constrangidos a confessar a sua impotência e a divindade de Jesus Cristo.
Nos nove hinos em honra de São Brás, mas que apresentam algumas lacunas; relata todos os fatos principais que lemos nas quatro ou cinco biografias do mesmo santo. Pensamos que este acordo não deixa mais margem a qualquer dúvida. São Brás, convertido do culto dos ídolos à fé cristã, exercia anteriormente a medicina em Sebasta, na Armênia, no tempo do imperador Diocleciano. Piedoso, modesto, paciente, casto, benfeitor, era amado por todos. Também o clero e os fieis de Sebasta rogavam unanimemente que se tornasse seu bispo. Essa dignidade tornou-lhe as virtudes ainda mais resplandecentes. De médico dos corpos, fez-se médico das almas: curava os corpos com a virtude de sua fé, e de suas preces. Uma mãe de família lhe levou um jovem filho, único, nas vascas da agonia, porque se lhe havia atravessado uma espinha de peixe na garganta. O Santo bispo impôs as mãos à criança, fez o sinal da cruz sobre a garganta, e pediu a Jesus Cristo se dignasse a curá-lo; suplicou-lhe também que curasse todos os que sofressem de males semelhantes e recorressem à sua misericórdia, pela intercessão de seu humilde servo. Terminada a prece, entregou a criança curada à mãe. São João Damasceno relata o milagre, mas ajunta que havia uma infinidade de outros; que Brás curava os males incuráveis das almas e dos corpos: que restabelecidas pelas preces e pelo tato, os que recorriam a ele, que seu nome, tão-só, livrava das moléstias e punha em fuga os demônios.
Durante a perseguição de Diocleciano, o santo bispo de Sebasta mantinha-se oculto, mas encorajava e visitava os confessores e os mártires dando dinheiro a seus guardas. Assim, tendo sabido com que sabedoria Santo Eustrato havia respondido ao presidente e confundido os ídolos, foi encontrar-se com ele na prisão, durante à noite, lançou-se-lhe aos pés e lhe disse: « Sois bem-aventurado, meu filho Eustrato, porque o Senhor Deus vos deu uma grande força. Lembrai-vos também de mim, rogo-vos. Santo Eustrato respondeu-lhe: Não faleis assim, pai espiritual, mas esperai isso de nós como dívida, por causa de vossa dignidade ». Confiou-lhe em seguida o testamento. O bispo ofereceu o sacrifício e deu a eucaristia ao mártir. Em santo entretenimento passaram toda à noite.
Quando da perseguição de Licínio, São Brás retirou se para uma caverna do monte Argeu. Lá, aconteceu-lhe o que acontecia simultaneamente a São Paulo e Santo Antão nos desertos da Tebaida: os animais selvagens iam a ele como animais domésticos ao mestre, repousavam à entrada da caverna, enquanto ele mergulhava nas preces; depois, ele os curava dos ferimentos. Entretanto, o governador Agricolau, violento perseguidor dos cristãos, enviou os seus soldados para as montanhas de Argeu, a fim de capturarem feras e levá-las a Sebasta para os jogos públicos, que estavam próximos. Os soldados muito se admiraram primeiramente de não encontrar feras nas montanhas; depois foram encontrá-las todas reunidas pacificamente na entrada da caverna, onde perceberam o bispo que orava. Não ousaram tomar uma decisão por si mesmos. O governador, informado, enviou tropas mais numerosas para trazer o bispo, com todos os cristãos que pudessem ser descobertos nas montanhas.
Os soldados, entrando na caverna, disseram ao bispo:
— Saí, o governador vos chama.
— Meus caros filhos, respondeu-lhes o santo bispo, que ao vê-los fora tomado de alegria, — iremos juntos. O Senhor lembrou-se de mim hoje: porque me apareceu esta noite três vezes, dizendo; Levanta-te, oferece-me hóstias, como tens o costume de fazer. Agora, pois, meu caros filhos, fizestes bem em vir. Meu Senhor Jesus Cristo está convosco.
Estavam bem longe de Sebasta. O rumor do evento havia-se alastrado, as populações acorriam de todas as partes ao longo do caminho para ver o santo bispo, apresentar-lhe os filhos e os doentes; os pagãos açodavam-se mais ainda do que os cristãos. O santo acolhia todos com bondade paternal, instruía os mais idosos, abençoava as crianças, impunha as mãos aos doentes e os deixava ir curados, mesmo os animais. A vista de tantas maravilhas, muitos pagãos se convertiam.
Aproximavam-se de Nicópolis. Havia lá uma velha mulher, pobre e viúva, que para a subsistência tinha somente um porco. Um lobo, saindo das florestas, acabava de arrebatá-lo. Ela dirigiu-se, chorando, ao santo bispo, que chegava neste mesmo momento. Disse-lhe sorrindo:
— Mulher, não vos aflijais, vosso porco vos será restituído; porque eis que o lobo o traz de volta.
E no mesmo instante, o lobo, esbaforido, atira o porco aos pés da mulher, e foge. São Damasceno fez alusão a esse fato na sua ode VI.
Chegado a Sebasta, o bem-aventurado Brás foi atirado numa prisão. No dia seguinte o imperador, fazendo-o comparecer à corte, disse-lhe em tom de amizade:
— Sede feliz. Brás, amigo dos deuses.
—Sede feliz também vós, excelentíssimo governador, respondeu o santo. Mas não chameis deuses aos demônios que estão condenados ao fogo do inferno com aqueles que os adoram.
O governador, em cólera, fez-lo açoitar com bastões. O santo suportou o suplício durante muitas horas: depois, disse ao governador:
—Insensato, que procurais perder as almas! Credes que com estes sofrimentos me afastareis do amor de meu Deus e Salvador Jesus Cristo: não o conseguireis, porque tenho, para fortificar-me e salvar-me, este mesmo Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo.
O governador, vendo que os tormentos não logravam abatê-lo, mandou conduzi-lo à prisão. Mas a pobre viúva, notando a paciência do mártir, matou o porco que o lobo lhe havia restituído, cozeu a cabeça o os pés, pô-los num vaso com frutos da terra, e, iluminados de velas, levou-os à prisão, onde conquistou o carcereiro com um pequeno presente: depois, ofereceu a bênção ao santo mártir. Ele sentiu-se comovido com a devoção, comeu da oferenda, predisse-lhe; que morreria brevemente, concitou-a a lembrar-se dele acendendo tochas, a partilhar com os pobres o pouco que possuía, persuadida de que Deus abençoaria sua indigência caritativa, como abençoara outrora a viúva de Sarepta pela prece do profeta Elias.
O governador, fazendo vir uma secunda vez o santo mártir Brás à sua presença, disse-lhe:
— Escolhei de duas coisas: uma, adorai os deuses, e sereis nosso amigo; ou se recusardes, sereis condenado a suplícios diversos e horríveis e perecereis de morte funesta.
— Já vos disse, respondeu São Brás, ó governador, que não são deuses mas simulacros os que adorais, madeira, pedras, bronze, prata e ouro, obra das mãos de homens. Porque não saberiam ser deuses, os que os homens fabricam, e não foram eles que fizeram os céus e a terra e o que estes encerram. Também eles perecerão, e com eles todos os que neles confiam. Eis porque não os adoro, nem temo os tormentos com os quais procurais amedrontar-me; porque é por eles que espero chegar a vida eterna.
O governador ordenou que o suspendessem num poste, e com pentes de ferro, que serviam para cardar a lã, lhe dilacerassem o dorso e todo o corpo. O sangue escorria de todas as partes, as carnes tombavam aos pedaços: os próprios carrascos comoveram-se até as lágrimas. Mas o bem-aventurado mártir parecia não padecer qualquer sofrimento. Enfim, disse ao governador:
— Eis o que desejava há muito tempo, ser erguido para o céu de espírito e corpo. Eis que enfim a carne esta de acordo com o espírito, e o espírito não mais conspira contra o carne. Já, vizinho do céu, desprezo todas as coisas da terra e todos os tormentos convosco. Não posso temer os tormentos, nem achá-los dolorosos, porque tenho alguém que me fortifica, meu Senhor Jesus Cristo. É por isso que não temo estes sofrimentos visíveis, porque não são eternos, mas temporais. Porque, em relação aos bens e aos males eternos, considero os vossos bens e males absolutamente nada, esperando do céu o premio inefável de todos os bens, premio que o olho jamais viu, que ouvido algum ouviu, e que não reside no coração dos homens; Deus o preparou para os que o amam.
O governador, vendo-o fortificado com um suplício tão horrível, em vez de abatido, fez-lo desatar do poste e reconduzir a prisão. Como para ali rumasse cheio de alegria e louvando a Deus, sete mulheres, que os seus milagres, doutrina e constância haviam convertido a Cristo, o seguiam. Não temendo nem os tormentos infligidos ao mártir, nem a crueldade do presidente, nem os seus guardas, elas recolhiam em suas mão as vestes, as gotas de sangue que rolavam para a terra: salpicavam-se com o sangue, no desejo de participar de sua paixão e de seu triunfo. Os guardas, arrastando-as, conduziram-nas ao governador, uma vez que se confessavam cristãs.
O governador lhes disse:
— Não queirais por este nome vão perder vossos bens e vida; acreditai em mim e sacrificai aos deuses, aos quais vossos pais sacrificaram, e sacrificam ainda.
Responderam elas:
— Se quereis que deixando o culto de Cristo, sacrifiquemos aos deuses, é necessário que antes nos purifiquemos. Iremos, portanto, ao lago vizinho, para lavar a face e todo o corpo, segundo o costume. Ordenai, pois, que nos dêem os deuses aos quais quereis que sacrifiquemos, a fim de que possamos fazê-lo, mais puras, perto do lago.
O governador, cheio de júbilo, lhos deu, encerrados num saco com chumbo, bem como guardados, para ser testemunhas do sacrifício. Mas chegadas ao tanque, as mulheres lançaram os ídolos ao mais profundo das águas. O governador, não podendo conter a cólera, bradou aos guardas:
— Por que não as impedistes lançar nossos deuses ao fundo do lago?
Os guardas responderam:
— Fomos enganados como vós. As mulheres diziam, ao contrário:
— Nós não vos enganamos: falávamos, não para enganar-vos, mas por derrisão; porque não pensávamos que serieis suficientemente tolos para crer que pudéssemos jamais abandonar o culto do Cristo e sacrificar aos ídolos. Se, pois, fostes enganados deveis atribuí-lo não a nossos artifícios, mas a vossa estultice.
Para vingar-se o governador fez acender uma fogueira diante delas, e trazer pentes de ferro para as dilacerar, e túnicas rubras ao fogo para revesti-las. Enfim, mandou estender uma toalha de linho diante do tribunal, e disse às mulheres:
Não podendo persuadir-vos por palavras, fá-lo-ei por tormentos. Para mostrar que voltais à religião primitiva, andai sobre este pano de linho, sem voltar à direita nem à esquerda; caso contrário, sereis sujeitas a todos os tormentos de que lenho noticia.
Mas uma das mulheres, que tinha perto de si dois meninos, já preparados para o martírio, correu para o pano de linho e o lançou ao fogo, dizendo:
— É assim que Deus arrebatará deste mundo lançará no fogo eterno todos os que pensam, que não é necessário adorar Jesus Cristo, ou que é necessário adorar os deuses.» Então os dois filhos, compreendendo que a mãe alcançara o martírio, disseram-lhe numa só voz:
— Santa mãe, não nos abandoneis neste mundo; levai-nos convosco para o reino dos céus a fim de que, como vós nos nutristes com o pão terrestre, nos fortifiqueis também com este pão celeste que nos prometeste tantas vezes.
O governador, não mais podendo conter, ordenou suspendessem as mulheres em dois postes e as dilacerassem com pentes de ferro. Mas de suas feridas viram brotar leite em lugar de sangue, e os corpos brilharem como chama. O anjo do Senhor desceu dos céus e, curando-lhes os ferimentos, lhes disse:
— Começastes muito bem: perseverai até o fim, para alcançares a coroa.
O governador, estupefato com tais milagre ordenou as desatassem dos postes; depois, não mostrou menos cruel, porque fez-las lançar na fornalha ardente. Elas desceram sem experimentar qualquer dor, sem mesmo queimar as vestes, e cantavam louvores a Deus, passeando no meio das chamas quando o fogo se extinguiu subitamente. Saíram das chamas mais puras do que ouro e prata mais fina e mais brancas do que neve. Os assistentes muito se admiravam de tudo. O governador, para dissimular a derrota, disse às santas mulheres:
— É o efeito de vossas magias, que conseguistes do vosso Cristo. Mas deixai estes vãos prodígios, e adorai, enfim, os nossos deuses, sob pena de morte, e esta é minha última palavra, condenar-vos eu à morte. As santas mulheres responderam:
— Nosso Cristo não ensina magia, e seus servos não a conhecem; o Deus todo poderoso faz, por intermédio de seus servos, o que Lhe apraz. Quanto a vós, cumpri afinal de contas o que ameaçais com palavras; desagradam-nos as delongas: porque já fomos chamadas ao reino dos céus, já estamos convidadas para a coroa do combate.
O governador, em cólera, pronunciou a sentença, e os carrascos levaram as sete mulheres ao lugar de suplício. Lá, tendo solicitado permissão, puseram-se de joelhos e fizeram esta prece:
— Que deus é grande como o nosso Deus, que nos separou das trevas, e nos chamou a achar doce a miséria em que nos debatemos? Eis porque. Senhor nosso Deus, grande e terrível, dignai-vos juntar-nos a Tecla, vossa primeira mártir, ouvindo as preces de nosso bem-aventurado pai Brás, que nos ensinou a chegar a este glorioso martírio e a posse da vida eterna. Depois, levantando-se da terra, e elevando as mãos e os olhos para o céu, disseram numa só voz:
— Glória a Vós. Senhor nosso Deus, que nos concedestes a graça de nos apresentarmos hoje em vosso sacrifício como cordeiros: recebei, pois, nossas almas diante de vosso sacrifício santo e celeste.
A mãe dos dois meninos, que haviam acorrido a recomendar-se às suas orações, ajuntou:
— Dignai-vos, também. Senhor, associar estas crianças ao vosso mártir e bem-aventurado Brás, e fazê-las alcançar vossa misericórdia.
As crianças responderam: Amém. A sua mãe foi decapitada com as seis companheiras. Depois disto, o santo mártir Brás foi arrastado pela terceira vê: às barras do tribunal. O governador disse-lhe que certamente soubera aproveitar o tempo para tornar-se mais sensato e sacrificar aos deuses. O santo respondeu:
— Não posso assaz admirar as trevas de vossa cegueira. Não vedes o que é manifesto a todos; porque se jamais houvésseis visto a luz verdadeira, não adoraríeis os ídolos, não diríeis jamais à madeira, no bronze, à prata, ao ouro: Tu és meu Deus. Quem não sabe que as obras das mãos dos homens não são deuses? Se duvidais, lançai os deuses no fogo, e vereis que digo a verdade. Em resposta, vós me preparais os tormentos. Pela virtude do Cristo, nada temo: meu corpo está em vosso poder, mas não minha alma. Ainda o Deus que sirvo pode, se quiser, mesmo corporalmente, libertar-me.
— Mas, replica o governador, como te livrará o teu Cristo, se eu te fizer afogar no fundo do lago?
— É verdade, retrucou o bem-aventurado Brás, que vossos deuses, como dizeis, ali foram afogados, não podendo retirar-se; mas o meu Cristo podo exercer o seu poder sobre este elemento. Andou sobre as ondas do mar como sobre terra firme e ordenou a Pedro, príncipe dos apóstolos, que fosse ao seu encontro sobre as águas.
Mandou o governador que o precipitassem ao fundo do lago. O santo para ali foi com o governador e a multidão, fez o sinal da cruz sobre as águas, que se consolidaram a seus pés: andou até no meio do lago, ali se sentou, e gritou ao governador e à multidão:
— Se tiverem algum poder os vossos deuses, ou se tiverdes alguma confiança neles, andai em seu nome sobre as águas e mostrai o seu poder.
A esta provocação do santo mártir, sessenta homens, invocando os deuses, entraram ousadamente nas águas, mas ali se afogaram. Entretanto, o anjo de Deus, envolto em resplendente luz, desceu dos céus até o mártir e lhe disse:
— Sai, glorioso atleta, e ide imediatamente a coroa que Deus vos preparou.
Todo povo via a luz, mas não lograva distinguir o anjo, por causa de sua própria luz. O mártir levantou-se e andou sobre as águas como terra firme fosse. Todavia, o governador, após presenciar tantos milagres, não se deixou levar a poupá-lo ou crer no mártir; mas pronunciou a seguinte sentença:
— Brás, que desprezou minha pessoa, resistiu a ordem do imperador, desonrou os deuses, e afogou sessenta homens, terá a cabeça despedaçada, com os dois meninos a quem seduziu com artes mágicas. Imediatamente, o santo bispo, em companhia dos dois meninos, se encaminhou no lugar do suplicio. Lá, dirigiu-se a Deus em ardente prece, agradecendo-lhe todas as graças, e suplicando-lhe concedesse a todos que implorassem a sua misericórdia, por sua intercessão, as curas que havia concedido até ali por seu ministério. Ressoou uma voz no céu, que aquecia à sua solicitação. São Brás e os dois meninos foram decapitados fora da cidade, no dia 3 de fevereiro. Uma piedosa mulher, chamada Elisa, os enterrou no mesmo lugar, onde ele operou muitos milagres. A velha mulher que havia assistido o mártir na prisão, sabendo de sua morte bem-aventurada, executou o que ele lhe havia recomendado: acendeu velas em sua memória, e convocou todos os pobres da vizinhança, para distribuir-lhes o pouco que ela possuía; concitou os parentes, amigos e vizinhos, a fazer o mesmo, e todos notaram que as esmolas, longe de empobrece-los, atraíam uma benção particular de Deus sobre o seu parco pecúlio. Tornou-se em breve costume geral, em todo pais, acender velas na festa de São Brás e distribuir esmolas aos pobres. Este costume durava ainda por toda parte, quando foram redigidas as três primeiras biografias que temos do santo.
Tal é a vida de São Brás, segundo quatro ou cinco biografias gregas e antigas. Não compreendemos mais como Godescardo pode dizer: « A história da vida deste santo bispo nos é desconhecida. Fizemos mal em acreditar em sua palavra, quando de nossos primeiros trabalhos. É o cardeal Mai que nos concedeu o imprimatur para a publicação dos hinos de São João Damasceno. Nestes hinos sobre São Brás, o doutor e poeta de Damasco relata e canta absolutamente os mesmos fatos e os mesmos milagres que lemos nas quatro ou cinco biografias em prosa: a prisão de São Brás, seu corpo dilacerado pelos pentes de ferro; as mulheres convertidas por sua doutrina e seu exemplo, demonstrando coragem acima do sexo, afogando os ídolos no fundo das águas, suportando os pentes de ferro e as chamas da fornalha e acha do carrasco. São Brás, caminhando sobre as águas, sentado no meio do lago, visitado por um anjo, e terminando, enfim, o martírio pela acha.
Com relação aos hinos de São João Damasceno sobre São Pedro, que ele chama de corifeu, não nos resta senão uma parte do quinto. Lêem-se ali estas palavras dedicadas ao príncipe dos apóstolos: «Tendo recebido do Cristo a Igreja, que o Senhor diretamente fundou e não o homem, vós a governaste como nau. Guarda de Roma, tesoureiro do reinado celeste, pedra da fé, fundamento inquebrantável da fé católica, sede celebrado nos santos cânticos.» Na primeira estrofe do segundo hino. São Damasceno fala da repentina viagem de São Pedro, de Roma à montanha de Sião, para assistir aos funerais da Virgem santa, que ele chama de nuvem viva de Deus. Na primeira estrofe da quinta, fala do triunfo do apóstolo sobre Simão, o Mago.
Mas, o que há de sobremaneira piedosamente notável é a última estrofe de cada hino que contém um louvor e uma invocação à maternidade divina da Santa Virgem Maria. Diz-lhe, por exemplo, nos dois últimos hinos a São Basílio: Aquele que não tem corpo absolutamente saiu com um corpo de tuas entranhas: ele que pela palavra criou a natureza incorpórea, ele que deu essência a toda essência criada, racional e irracional, ele a palavra de Deus, o Pai: por isso, Mãe da vida, farei morrer em mim as paixões do corpo, que fazem morrer meu espírito. Sois vós, Virgem toda santa, que apresento, medianeira irrecusável e advogada benevolente, àquele que de vós nasceu; e vos suplico apagar inteiramente, por vossa maternal intercessão, a multidão de meus pecados.
Na primeira e segunda a São Pedro: Foi por vossa concepção imaculada que se nos reabriu o antigo paraíso, fechado por nossa primeira mãe, e foi restituído ao gênero humano a antiga pátria. Sois vós, augusta soberana, poderoso refúgio, padroeira sempre pronta a salvar, a quem imploro e suplico ardentemente: protegei minha alma quando ela sair desta tenda e abandonar esta terra, por outro mundo.
Na primeira, na segunda e na quarta a São Jorge: com a língua enlanguescida, e voz enfraquecida, a boca cheia de sons desagradáveis, temo entoar-vos hinos, ó Dama soberana, porque fostes celebrada pelas línguas dos anjos, línguas de fogo e de flama, e pela boca daqueles que não têm corpos. A tempestade dos pecados, as vagas da iniqüidade, os freqüentes escolhos da malícia, me arrastam juntos para o sorvedouro hiante do desespero: estendei-me a mão, ó Virgem, para que os vagalhões não me sepultem vivo. O leão rugidor ronda, procurando devorar-me: não me abandoneis como presa de seus dentes, ó imaculada, que concebestes aquele, cuja mão divinamente poderosa quebrou os dentes molares dos leões»
.Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos santos, Tomo VIII.
. Obs: Contém alguns acréscimos necessários.
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