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                                                                          Biografia | Obras Completas |

Biografia de
São Gregório Nazianzeno
Bispo e
Doutor da Igreja
(../../330 - 25/01/390)

Nasceu, pelo ano 316, de mãe cristã e pai ainda pagão, na pequena cidade de Nazianzo, não longe de Cesaréia, capital da Capadócia. Sua mãe, Santa Nona, havia pedido a Deus um filho e lho havia consagrado antecipadamente; quando viu que fora atendida, consagrou-o novamente. Foi chamado Gregório, como o pai. Ela teve um segundo filho, São Cesário, uma filha, Santa Gorgônia. A piedosa mãe educou pessoalmente os filhos e os ensinou a ler nos livros santos. Deu-lhes o exemplo de todas as virtudes. Sua caridade para com os pobres era ilimitada. Se lhe fosse permitido, teria dado a si mesma. Seu respeito nas igrejas era tamanho que não somente ali guardava silêncio, como também tinha escrúpulo de cuspir sobre o pavimento e virar as costas ao altar. Desde que se tornou mãe, pedia a Deus, com preces, jejuns e lágrimas, a conversão do esposo. Quando Deus lhe deu um filho, empenhou-se nisso com maior zelo ainda. Gregório, o pai, não era propriamente idólatra, mas da seita dos hipsistários, assim chamados porque faziam profissão em adorar a Deus altíssimo, em grego Hypsistos, ao que se misturavam muitas observâncias legais dos judeus. Rendeu-se ele, finalmente, e recebeu o batismo, em 325, das mãos de São Leôncio, bispo de Cesaréia, que passava por Nazianzo para dirigir-se ao Concilio de Nicéia. Como já antes do batismo praticasse muitas virtudes morais, fez tamanhos progressos nas virtudes cristãs, que, quatro anos após, o elegeram bispo de Nazianzo. Tinha, então, perto de cinqüenta e cinco anos, como a esposa; viveu ainda quarenta e cinco, isto é, quase um século ao todo. Tais são as datas que resultam necessariamente dos pormenores que Gregório, o filho, nos fornece sobre a sua vida e a de seus pais.

Com a piedosa educação de sua mãe, o jovem Gregório recebeu graças particulares do alto. Nessa idade onde as noções de vício e virtude começam a desenvolver-se na alma, teve à noite, um sonho. Viu ao seu lado duas virgens, vestidas de branco, duma modéstia e ao mesmo tempo de uma majestade sobre-humanas, que se puseram a abraçá-lo com ternura como ao filho. Em transportes de alegria, perguntou-lhes quem eram e de onde vinham. Respondem que se chamavam respectivamente Castidade e Temperança, que assistiam ao trono do rei Jesus, e se deleitavam na beleza das virgens celestes. Concitaram-no a unir sua alma à delas, a fim de o poderem transportar um dia para os céus e colocá-lo nos esplendores da eterna Trindade. Após o que se elevaram aos céus. A visão encheu-o de ardente amor pela pureza virginal. Seu prazer não residia nas folganças da juventude, mas com as pessoas que haviam consagrado a Deus a pureza de seus corpos e de suas almas. Com um corpo puro, havia recebido uma inteligência insaciável. Gostava dos livros, amava os sábios: mas os livros e os sábios que falavam de Deus. Se amou, se cultivou as letras profanas, não era senão para melhor servir as letras sagradas. Ele mesmo, nos seus poemas, nos ensina essas particularidades de sua infância.

Quando aprendeu tudo o que lhe era possível aprender na terra natal, dirigiu-se a Cesaréia, na Palestina, e a seu irmão Cesário, em Alexandria. Em Cesaréia se encontrava a escola fundada por Orígenes, e a famosa biblioteca de seu discípulo, o mártir São Pânfilo, aumentada pelo sábio Eusébio. Da Palestina, foi encontrar-se com o irmão em Alexandria, e passou algum tempo com ele; depois, embarcou para Atenas, sempre ainda considerada a metrópole das ciências e das letras. A estação não era favorável. Levantou-se uma furiosa tempestade de vinte dias. Em determinado momento o navio se encontrou cheio de água, quando todos, marinheiros e piloto, mesmo os que não reconheciam qualquer deus, invocaram em alta voz a Jesus Cristo, e o navio foi salvo. Mas faltava-lhe água doce; os vasos que a continham haviam sido precipitados ao mar por um abalo mais violento da tempestade. Um navio mercante da Fenícia mostrou a humanidade e a coragem de cedê-la. Todavia, a tempestade não amainava; a equipagem já perdia toda a esperança. O que sobretudo afligia Gregório, era não ter ainda recebido o batismo. Sua dor foi tamanha que os próprios marujos se compadeceram. Rogou a Deus com lágrimas, e consagrou-lhe novamente toda a vida, se se dignasse salvá-lo do perigo. A prece foi atendida: a tempestade serenou. Houve mais: todos os que com ele estavam no mesmo navio abraçaram com muita piedade a fé em Cristo, e chegaram felizmente a Atenas.

Gregório fala dessa cidade com entusiasmo. Viam-se ali ainda os mestres mais ilustres, entre os quais o orador Anatólio, que Constâncio nomeou prefeito do pretório, o célebre Diofante, inventor da álgebra, e Proerésio, professor de eloqüência. O imperador Constante o havia chamado das Gálias. Passando novamente por Roma, tanto se fez admirar, que o senado lhe erigiu uma estátua com esta inscrição: "Roma, a rainha do universo, ao rei da eloqüência".

O que levou ao auge a felicidade de Gregório foi a chegada de seu amigo Basílio. Conheciam-se já anteriormente; mas então a amizade se tornou íntima. Permaneceram juntos, comiam a mesma mesa, e não freqüentavam senão os companheiros mais castos e serenos. Duas ruas somente lhes eram conhecidas na cidade; a que conduzia à igreja e aos doutores que ali ensinavam a fé: a outra, que conduzia as escolas públicas e aos mestres que ensinavam as coisas divinas. Deixavam aos outros as ruas pelas quais se ia ao teatro, aos espetáculos e aos divertimentos profanos. A santificação constituía sua grande preocupação; seu único objetivo era serem chamados e serem efetivamente cristãos. Era nisso que faziam consistir toda a glória.

Primeiros na piedade, não o foram menos nas ciências e nas letras. A retórica, à poesia, à filosofia, à díalética, Basílio ajuntou o estudo da geometria e da astronomia, necessário para não ser inferior aos mais hábeis. Por causa das moléstias que lhe ocasionou a vida austera e mortificada, estudou também medicina, ao menos no que ela tem de mais filosófico. Enfim, quem ler seus escritos sobre a criação, reconhecerá sem dificuldade que alimentava, com respeito a história natural, idéias mais justas e possuía conhecimentos mais amplos do que Aristóteles. Tantas ciências e virtudes despertaram admiração a tal ponto, que por toda parte onde se falava de Atenas e de seus mestres hábeis, falava-se da maravilhosa dupla de amigos, Basílio e Gregório, Gregório e Basílio.

A tantos conhecimentos preciosos, acrescentara m outro muito necessário, o conhecimento dos homens. Quando Juliano veio para a mesma cidade e estudou com eles, não somente as letras profanas, mas ainda as santas Escrituras, com que houve por bem ocupar-se e contrafazer, descobriram eles o desregramento de seu espírito, pela sua fisionomia e todo o seu exterior. Era de estatura mediana, pescoço taurino,largas espáduas, que erguia e encolhia freqüentemente, bem como a cabeça. Os pés não eram firmes e o andar inseguro. Os olhos eram vivos, mas esbugalhados e irrequietos: o olhar furioso, o nariz desdenhoso e insolente, a boca grande, o lábio inferior pendente, a barba hirsuta e pontiaguda. Fazia trejeitos ridículos e sinais com a cabeça, sem motivo, ria sem compostura e com grandes gargalhadas, arrastava-se no falar e respirava irregularmente, fazia perguntas impertinentes e dava respostas embaraçadas, que nada tinham de firme nem de metódico. Gregório dizia, ao vê-lo: "Que peste alimenta o império romano! Deus queira que eu seja um falso profeta!"

Afinal, chegou um momento penoso. Após trinta anos de estudos, Basílio e Gregório iam deixar Atenas e separar-se. Toda a cidade estava emocionada. Professores e alunos rodeavam os dois amigos, conjurando-os a que ficassem. Basílio desenvolveu tão eloqüentemente os motivos que os levavam de volta à sua pátria, que a contragosto o deixaram partir; mas forçaram-no a aceitar uma cadeira de eloqüência. Não foi por muito tempo, porque pouco depois se ocultou sem ruído para ir encontrar-se com o amigo na Capadócia. Chegou a pé a Constantinopla, ao mesmo tempo em que seu irmão ali desembarcava, vindo de Alexandria. Cesário tinha já tal reputação, que os magistrados de Constantinopla, para o reter na cidade, lhe ofereceram um tratamento vantajoso, uma aliança ilustre e a dignidade de senador. A seu pedido, o imperador Constando deu-lhe a carta de cidadão e o nomeou seu primeiro médico. Entretanto, Gregório soube persuadir seu irmão a voltar com ele para sua terra natal, e consagrar-lhe as primícias de sua arte. Tais eram os estudos e os costumes dos que chamamos os Padres da Igreja.

Os dois amigos Gregório e Basílio visitavam-se, seja por cartas, seja em pessoa, no seu recolhimento do Ponto e da Capadócia. Destas cartas, algumas eram sérias, outras jocosas: porque seu grande gênio e sua austera santidade não os impediam de ter espírito alegre e agradável. Assim, havendo Basílio feito uma pomposa descrição das belezas de seu retiro, comparada com a cela de seu amigo, Gregório lhe responde: “Vejo bem porque de mim escarneces. É para atrair-me para junto de ti, como aqueles que obstruem os rios para mudar-lhes o curso. Pois bem, admirarei o teu país do Ponto, suas névoas, e sua morada que vale um exílio, e os rochedos que te pendem sobre a cabeça, e os animais ferozes que põem a prova tua tranqüilidade, e a solidão que está aos pés, ou a caverna de ratos a que concedes os belos nomes de ginásio, mosteiro e escola; e os tufos de silvas selvagens, e esta coroa de montes escarpados pela qual estas, não coroado, mas encerrado; e este ar que respiras com moderação e este sol pelo qual não podes senão suspirar, que não te ilumina senão por uma chaminé. Dizem que existem mortais condenados a uma noite de seis meses; tu, momento algum há em que não estejas mergulhado na sombra; tua vida inteira é uma longa noite, verdadeira sombra da morte, para falar com a Sagrada Escritura. Louvarei igualmente esta vereda estreita e rude que conduz, não digo se ao céu ou ao inferno; faço votos que seja ao céu; depois, o que no meio está, mentindo, diria: este Éden —, este regato que em quatro rios as suas águas divide e irriga toda a terra, ou bem este deserto sáfaro e sem água, que somente outro Moisés lograria abrandar, fazendo brotar água do rochedo? Porque, onde não existem rochas, pântanos se estendem e fluem correntes; onde não há tremedais, crescem cardos e espinhos, por baixo das moitas de espinhos, abrem-se precipícios, acima dos precipícios um caminho escarpado serpenteia, onde o viajor, sob pena de escorregar, é forçado a constante atenção, para não dar um passo em falso. Embaixo, ruge um rio que cascalhos rola em lugar de peixes, que se arroja em abismos, em lugar de espraiar-se em lago; porque é grande e aterrador, e encobre com seu rugido o canto dos salmos que se entoam nas alturas: as cataratas perto não estão, mas ele te atordoa noite e dia. Tão rude é, que atravessá-lo é impossível; tão turvo que de suas águas beber não se pode; de humano não tem senão o não arrebatar a tua habitação, quando as torrentes e as borrascas lhe despertam a fúria. Eis o que penso de tuas ilhas afortunadas e de seus felizes habitantes. Cantarei agora com Homero as riquezas internas do palácio? Esta choupana sem teto nem porta, este átrio sem fogo nem fumaça, estes miseráveis e magros festins para os quais fomos convidados, do fundo da Capadócia, como pobres náufragos ao banquete de Alcinoo. Porque me lembro sempre deste pão, desta sopa, como os chamavam, onde o dente escorregava entre os pedaços para deles se afastar como de um cimento. Na verdade, se a grande nutriz dos pobres, quero dizer tua mãe, não nos houvesse tirado bem depressa destas calamidades, já de há muito seríamos do número dos mortos. Como passar em silêncio estes pretensos jardins sem legumes, estes pedaços de adubos com que os cobrimos, retirando-os da casa, como outrora Hércules das cavalariças de Augias; e esta enorme carroça que eu, o vinhateiro, e tu, o escarnecedor, arrastávamos com a cabeça e as mãos, que nos deixou marcas, não para ligar os dois rios do Helesponto, como antigamente Xerxes, mas para encher um precipício? Se a recordação destas coisas não te penaliza, nunca mais o fará; se o fizer, quanto não no-lo terão feito as coisas mesmas."

Depois de se mostrar assim jocoso em duas ou três cartas, Gregório disse em outra: "O que te escrevi anteriormente sobre a estadia no Ponto era para galhofar; o que vos escrevo nesta hora, é sério e muito sério. Quem me restituirá os dias de antanho, ou minhas delicias de sofrer contigo, quando uma aflição voluntária arrasta para um prazer que se experimenta mesmo contra a vontade. Quem me restituirá os cantos dos salmos e as noites passadas nas vigílias, e as peregrinações para Deus pelas orações, e a vida quase imaterial e incorporai e a concórdia, e a unanimidade dos irmãos educados acima da natureza como que deificados por ti! Quem me fará rever a emulação pela virtude, que asseguramos por leis e regras escritas? Quem me restituirá os estudos dos divinos oráculos e a luz que ali se vislumbra sob a operação do Espírito Santo? Ou, para falar de coisas menos sublimes e menos importantes, quem me restituirá os trabalhos sucessivos do dia, de carregar lenha, de talhar pedras, plantar árvores e irrigá-las? Quem me fará rever o plátano mais precioso do que o plátano de Xerxes, sob o qual costumava assentar-se, não como um rei mergulhado em delícias, mas um monge extenuado de fadiga; este plátano maravilhoso que eu plantei, que Apolo, vale dizer tua excelência, irrigou, mas a que Deus deu o crescimento para nossa glória, a fim de que permanecesse contigo um monumento de nosso amor ao trabalho, como se acredita encontrar-se na arca a vara de Aarâo que floriu. Eis o que me ê fácil desejar, mas não obter. Ajuda-me a inspirar-me e a implantar em mim a virtude: o fruto que colhemos outrora, conserva-o com tuas preces, para que não se esvaeça pouco a pouco, como sombra no declinar do dia. Para mim, respiro-te mais do que respiro o ar, e não vivo quando não estou contigo, seja em realidade, seja em imaginação".

Cesário, irmão de Gregório, permanecera na corte como primeiro médico. Os cristãos de Nazianzo murmuravam ao ver o filho do bispo numa corte cheia de ídolos e na comitiva de um imperador apóstata. O pai se entristecia tanto, que a vida lhe parecia insuportável. Quanto à mãe, tudo lhe era ocultado com cuidado, para não penalizá-la. Gregório escreveu ao irmão uma carta comovente, conjurando-o a voltar à antiga situação, pois não tardaria que se visse na contingência de optar entre o cargo de primeiro médico e o cristianismo. Com efeito, Juliano tudo fez para conquistá-lo: teve com ele em presença de testemunhas, uma disputa em forma, em que empregou todos os artifícios de sua eloqüência; mas Cesário desfazia-lhe os sofismas mais capciosos como brinquedos de criança, e afirmou perante todos que era cristão e que o seria sempre. Vendo-o assim decidido a partir, Juliano, que conhecia sua família e particularmente o irmão Gregório, gritou com admiração e despeito: "Feliz pai! Infelizes filhos!" . Os dois amigos Basílio e Gregório não permaneciam sempre juntos nem no retiro. Quando um bem maior ou um dever mais premente os chamava, deixavam-se, e abandonavam a solidão. Nos primeiros dias do ano de 362, Basílio viu chegar o amigo Gregório, vergado de tristeza. Seu pai havia-o ordenado sacerdote contra a sua vontade no dia de Natal de 361, e o povo de Nazianzo conspirara para tanto com o pai. Fugiu para junto do amigo, no retiro, para ali encontrar consolo à dor. Algum tempo depois, havia-se-lhe amainado a dor, e seu pai, que tinha mais de noventa anos, não cessando de conjurá-lo para que não o abandonasse na velhice, e o povo juntando as súplicas às do pai, fizeram-no regressar a Nazianzo; pregou no dia de Páscoa um sermão seguido de dois ou três outros, nos quais explica eloqüentemente os motivos de sua fuga, o temor que tinha do sacerdócio e grande dificuldade que julgava encontrar desempenhar devidamente as funções. Antes do fim do ano. Basílio foi ordenado sacerdote da mesma maneira por Eusébio de Cesaréia, na Capadócia, sucessor de Dianeu. Participou a tristeza a Gregório que lhe respondeu nestes termos: "Aprovo o início de tua carta: e poderia eu não aprovar o que vem de ti? Então, prenderam-te como a mim, e caímos ambos na mesma armadilha? Enfim nos forçaram a tornar-nos sacerdotes, conquanto não fosse este absolutamente o nosso desejo. Porque se jamais houve testemunhas dignas de fé, nós somos um do outro, que sempre fomos afeiçoados à filosofia mais humilde e mais modesta. E talvez tenha sido mais vantajoso para nós que não nos fizessem o que fizeram ao menos não ousaria dizer outra coisa ate onde conheça as vistas do Espírito sobre nós. Mas desde que uma coisa está feita, creio, de minha parte, que é necessário nos submetamos, principalmente por causa do tempo em que vivemos, onde línguas heréticas nos atacam de todos os lados, e nada fazer de indigno da esperança que depositaram em nós, nem da vida que levamos até agora."

Morto Juliano, o Apóstata, de morte funesta, nas planícies da Babilônia, Gregório pronunciou contra ele dois discursos em Nazianzo. Ali traça o perfil do apóstata, cujos caprichos havia predito em Atenas, aponta a injustiça de sua perseguição, o absurdo de sua empresa de extinguir a religião cristã, a extravagância do paganismo, e concluiu com um conselho nos fiéis: não se prevalecerem da época para vingar-se dos pagãos, mas vencê-los pela doçura. "Aqueles, disse, que mais animosidade contra ele têm, reserve o julgamento a Deus. Não pensemos em confiscar-lhes os bens, nem em arrastá-los aos tribunais para serem banidos e açoitados com varas, nem, em uma palavra, fazê-Ios sofrer o que fizeram a nós. Tornemo-los, se possível for, mais humanos com o nosso exemplo. Se algum dos vossos sofreu, vosso filho, vosso pai, vosso parente, vosso amigo, deixai a Deus a recompensa total de seus sofrimentos. Contentemo-nos de ver o povo gritar publicamente contra nossos perseguidores nas praças e nos teatros, e deixá-los reconhecer, afinal, que os seus deuses os enganaram."

Em 370, Gregório perdeu Cesárío, seu irmão, e Gorgônia, sua irmã que a Igreja enumera paralelamente entre os santos. Cesário havia sido gloriosamente chamado à corte por Joviano, e Valente o havia nomeado questor e tesoureiro da Bitínia, onde morava. São Gregório, bem longe de regozijar-se, afligia-se ao vê-Io embaraçado com afazeres temporais, e exortava-o a demitir-se. Decidiu-se, com o tremor de terra que destruiu a cidade de Nicéia, em 11 de outubro de 368. Cesário foi quase um dos únicos homens que se salvou; mas perdeu parte dos bens, e ficou embaraçado sob as ruínas, de onde não se retirou senão por milagre com ferimentos leves. Resolveu dedicar-se inteiramente a Deus; mas morreu pouco tempo depois, tendo antes recebido o batismo, e deixou os bens aos pobres, não tendo mulher nem filhos. São Grcgório fez-lhe a oração fúnebre, em presença do pai e da mãe. Santa Gorgônia, sua irmã, morreu algum tempo depois, e São Gregório fez-lhe também a oração fúnebre, onde descrevendo as virtudes, a apresentou como modelo de perfeição cristã para as mulheres casadas. Entretanto, ela não fora batizada senão no fim de sua vida: antes de morrer, contudo, tivera a consolação de ver o marido, os filhos e os netos receber a mesma graça.

São Basílio, arcebispo de Cesaréia, na Capadócia, fez eleger o amigo Gregório para o novo bispado de Sasimas, na mesma província, mas Gregório jamais conseguiu tomar posse, e voltou a Nazianzo onde ajudou o velho pai que morreu no ano de 373.

Os tempos eram difíceis. Após a morte de Juliano, o Apóstata, o imperador Jovian, bom católico, não governou muito; o imperador Valente, que o substituía no Oriente, favoreceu os arianos e perseguiu os católicos até sua morte, em 378. De todas as igrejas do Oriente, a de Constantinopla se apresentava em estado mais lastimável. Desde quarenta anos gemia sob a tirania dos arianos, e o pequeno número de católicos que ali permanecia encontrava-se sem pastor e sem templo. A morte de Valente, a ascensão ao trono de Teodósío, deu-lhes oportunidade para respirar. Ninguém parecia mais indicado para reconstruir a igreja extinta do que Gregório de Nazianzo. Sua virtude, doutrina e eloqüência haviam-lhe conquistado grande reputação. Era bispo, mas sem bispado; porque jamais governara a igreja de Sasimas, para a qual havia sido indicado; e quanto à de Nazianzo, não a governara senão como estrangeiro, esperando que recebesse um bispo. Havia-a mesmo deixado seis anos antes, e vivia na solidão do mosteiro de Santa Tecla, na Selêucida. Os católicos de Constantinopla desejaram, então, que tomasse conta de sua igreja abandonada; os bispos acederam ao desejo, os melhores amigos com ele instaram: enfim. Pedro de Alexandria escreveu-lhe uma carta por intermédio da qual o estabeleceu bispo dc Constantinopla, e lhe enviou as insígnias da dignidade. Gregório sentiu dificuldade em deixar a solidão querida, onde vivia separado de tudo e gozava das doçuras da contemplação celeste. Sua relutância foi tamanha, que todos se queixavam. Censuravam-no por haver deixado Nazianzo; acusavam-no por descurar dos interesses da Igreja; faziam-no ver como ela estava ameaçada de novos ataques, e falava-se de um concílio que deveria realizar-se em Constantinopla para tratar da heresia de Apolinário. Acedeu, afinal, malgrado a fraqueza do corpo extenuado pela velhice, pelas austeridades e pelas moléstias, e creu não poder empregar melhor a vida do que trabalhando para a Igreja. Foi, o mais tardar, em 379 que veio a Constantinopla.

Seu exterior não se mostrava adequado para merecer o respeito dos heréticos, nem das pessoas do século. O corpo estava vergado pela velhice, à cabeça calva, o rosto enrugado pelas lágrimas e austeridades. Era pobre, mal vestido, sem dinheiro; o falar tinha algo de rude e estranho. Saia de um país longínquo, e com dificuldade o reconheciam no lugar de nascimento. Todavia, ousou atacar a heresia triunfante depois de tanto tempo na capital do império. Também, a princípio, foi mal recebido; os arianos, ignorando absolutamente a fé da Igreja, imaginaram que vinha ensinar a existência de vários deuses, e insuflados pelo bispo Demófilo, não toleravam que lhes declarasse guerra. Todos os heréticos se conjugaram contra Gregório e o cumularam de calúnias. Passaram até à violência: perseguiram-no a pedradas, das quais não recebeu ferimentos graves, e arrastaram-no diante dos tribunais dos prefeitos, dos quais Deus o livrou gloriosamente. A esses ultrajes não opôs senão a paciência, contente de poder participar dos sofrimentos de Jesus Cristo. Chegando a Constantinopla, foi acolhido por parentes que ali tinha, e recusou a oferta de várias pessoas que lhe ofereciam as casas. Sua vida era tão frugal que não constituía peso aos hospedeiros: sua alimentação consistia, como diz ele, no que comem os animais ferozes e os pássaros. Pouco saía: não o viam nas praças públicas nem nos lugares mais deliciosos da grande cidade. Não fazia visitas; permanecia a maior parte do tempo no alojamento, meditando e entretendo-se com Deus. Esta conduta era necessária e Constantinopla, onde a vida pouco edificante dos eclesiásticos atraía zombarias sobre a religião. Para ali pregar com proveito, não se podia levar vida por demais séria; e esta filosofia simples e sincera atraiu, afinal, para Gregório, a afeição do povo. Conquanto pudesse valer-se do poder temporal, não disputou aos heréticos a posse de igrejas e bens que lhes pertenciam, e dos quais se haviam apoderado em detrimento dos católicos. Não se irritou com o desprezo com que recebiam os éditos, e não solicitou contra eles a ação dos magistrados.

Começou a organizar assembléias nas casas dos parentes, que o hospedavam; porque os arianos haviam tirado aos católicos todas as igrejas, e não lhes davam a liberdade de reunir-se em lugar algum. Esta casa tornou-se depois uma igreja célebre, a que chamaram de Anastásia, vale dizer ressurreição, por haver São Gregório como que ressuscitado a fé católica. Granjeou em breve a admiração de todos por seu profundo conhecimento das sagradas Escrituras, raciocínio justo e pronto, imaginação fértil e brilhante, facilidade incrível de explicar-se, estilo exato e lacônico. Os católicos acorriam como pessoas mudadas, contentes de ouvir pregar a sã doutrina da Trindade, de que tinham sido privados havia muito tempo. Os que o haviam feito vir, favoreciam-no como se obra sua fosse. Os heréticos de todas as seitas, e os próprios pagãos, queriam pelo menos gozar do prazer de sua eloqüência. Para ouvi-lo melhor, forçavam-se as balaustradas que rodeavam o santuário onde pregava. Interrompiam-no freqüentemente, para aplaudir, batendo palmas ou soltando exclamações em seu louvor; muitos escreviam os discursos, à medida que ele os pronunciava. A matéria reduzia-se à defesa da fé e à refutação dos erros. Mas não se detinha nisto de modo a não se aplicar também na formação dos costumes dos fiéis, fazendo-os ver que o meio de conseguir a salvação não era falar das coisas da religião em todos os tempos e em todos os lugares, mas observar os mandamentos de Deus, dar esmolas, exercer a hospitalidade, assistir aos doentes, ocupar-se do canto dos salmos, rezar, gemer, chorar, mortificar os sentidos, reprimir a cólera, velar sobre a língua e sujeitar o corpo ao espírito.

Os frutos de seus discursos foram consideráveis, e viram a sua assistência tornar-se maior e mais numerosa, de pequena que fora anteriormente. Não havia quase dia em que não fizesse hereges voltar à verdadeira fé. Livrou os povos do veneno que os corrompia havia tantos anos, e isso com um êxito tão imediato, que acreditavam não terem começado a ser cristãos e perceber a luz da verdade a não ser desde então. São Jerônimo foi a Constantinopla ouvi-lo, e gloriou-se, depois, de ter aprendido as Sagradas Escrituras com um homem tão eloqüente, conquanto já tivesse ele próprio a reputação de entendê-las. Relata que havendo-lhe um dia pedido a explicação de uma palavra do Evangelho, bastante obscura, São Gregório lhe respondera prazerosamente: "Dir-to-ei na igreja, onde todos me aplaudem. Será mister que saibas lá o que não sabes; porque, se fores o único a nada dizer, todos te tomarão por um estúpido." Vê-se, por isso, que sabia o valor das aclamações do vulgo, que, como diz São Jerônimo, admira mais o que menos entende.

Pode-se ver em pormenores, na História da Igreja, como São Gregório se tornou bispo de Constantinopla por providências do imperador Teodósio, como presidiu ao segundo concílio geral, e como se demitiu de bispo de Constantinopla.

Para consolar o clero e o povo, pronunciou, na grande igreja de Constantinopla, em presença dos bispos do concilio, o célebre discurso que constitui o seu adeus. Presta-lhes conta de sua atitude; faz ver o estado deplorável em que encontrou a igreja, e o estado florescente em que a deixa; mostra a doutrina que havia ensinado, com exposição sumária do mistério da Trindade, onde, para acabar de uma vez por todas a disputa, emprega o termo pessoa, proso-pon, como equivalente à palavra hispóstase, quando um e outro estão bem explicados. "A santidade de nossa fé, disse, consiste mais nos coisas do que nos nomes." Fez em seguida, a exemplo de Samuel, um protesto público de seu desinteresse e tomou a Deus por testemunha de que conservou o sacerdócio sem mácula. Solicita como recompensa, que lhe dêem um sucessor de mãos puras e voz eloqüente, que possa retirar-se dos misteres eclesiásticos, e toma como pretexto do afastamento, a idade avançada, as moléstias, o esgotamento, as censuras que lhe faziam por sua doçura, as dissensões das igrejas, o furor que em Constantinopla se demonstrava pelos espetáculos, o luxo e magnificência das equipagens.

Entre as censuras que diz lhe fazerem, não esquece a de ser demasiadamente modesto, não ter mesa própria e magnífica, não se servir de vestes pomposas, não aparecer em público com cortejo numeroso, não receber com ar majestoso e cheio de arrogância os que vinham procurá-lo.

"Não sabia, disse, que devêssemos disputar em magnificência com os cônsules, os governadores, os generais do exército, que não sabem onde lançar a riqueza. Ignorava que devêssemos arrancar os bens dos pobres, e dissipar em superfluidades o que lhes é necessário, e exalar no altar a excelente nutrição. Ignorava que devêssemos montar um cavalo fogoso e soberbo, instalar-nos numa carruagem pomposa, rodeada de uma escolta e de aclamações ruidosas; nem que à nossa presença todos devessem afastar-se, como se encontrassem um animal feroz, ou que nossa vinda se devesse anunciar com muita antecedência. Se isso vos parece um mal terrível, a coisa está feita; perdoai-me a ofensa. Elegei outro que agrade à multidão; quanto a mim, deixai-me a solidão, e a rusticidade, e Deus, a quem se pode mais facilmente agradar com uma vida frugal e modesta". Por fim, despediu-se da querida Anastásia e das outras igrejas da cidade, dos apóstolos que lhe haviam servido de exemplo nos seus combates, da cadeira episcopal, do clero, dos monges, das virgens, das viúvas, dos pobres, dos órfãos, do imperador e de toda a corte, da cidade, do Oriente e do Ocidente, dos anjos tutelares da igreja e da Santíssima Trindade. Prometeu que se a língua se lhe calasse, as mãos e a pena combateriam pela verdade.

De regresso de Constantinopla a Capadócia, São Gregório retirou-se para a terra de Arianzo. que havia herdado de seu pai. Um jardim, uma fonte, árvores que lhe proporcionavam abrigo, constituíam todas as suas delícias. De resto, jejuava, orava, vertendo abundantes lágrimas; o leito era uma esteira, o cobertor um grosso saco, o hábito uma túnica; andava descalço, não fazia fogo, não tinha por companhia senão animais. Entretanto, não obstante as austeridades, moléstias constantes e extrema velhice, sentia ainda violentos combates da carne contra o espírito . Dizia-se que embora fosse virgem de corpo não sabia ao certo se ainda o era por pensamento. Fugia com grande cuidado da vista das mulheres. Vê-se por uma carta a um de seus parentes, chamado Valentiniano, que, sob o pretexto de gozar de sua companhia, veio alojar-se com mulheres perto dele. À vizinhança fez-lo abandonar o local, conquanto cultivado com seu trabalho e situado perto de uma igreja de mártires. O principal remédio que empregava nas tentações era a oração e a confiança em Deus. Deixava as austeridades apenas para dedicar-se à poesia. Assim, tendo passado uma quaresma inteira sem falar, fez um poema para dar conta de seu silêncio, e outro na Páscoa, para recomeçar a falar com louvores a Jesus Cristo.

Gregório Nazianzeno terminou, pelo ano de 389, sua longa vida de santo, de doutor, de bispo, de monge e de poeta. Morreu no retiro de Arianzo, encantando sua velhice e suas dores pelos transportes da poesia cristã. Entre os seus muitos poemas, há-os sobre o princípio das coisas, a Trindade Divina, o mundo, a Providência, os anjos, a alma, os dois Testamentos juntamente, a encarnação do Verbo, a vida monástica, sua própria vida, e também sobre os vícios do clero e dos povos do tempo. Encontra-se ainda entre as suas obras poéticas uma tragédia intitulada: Cristo Sofredor: mas não se tem certeza se é de sua autoria. O gênio de Gregório conservou até a morte a verve, a imaginação e as graças do poeta.

O cardeal Mai reencontrou, sobre as poesias de São Gregório, preciosos comentários de Cosmas, de Jerusalém, condiscípulo e irmão adotivo de São Damasceno e que foi bispo de Majume ou Atedon, no patriarcado de Alexandria.

.Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos Santos, Tomo VIII.


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