Biografia de São Cirilo de Jerusalém (../../315 - 18/03/386)
Bispo de Jerusalém Santo Padre da Igreja « Doutor da Igreja »
São Cirilo, de início sacerdote, depois bispo de Jerusalém, nasceu nessa cidade, pelo ano de 315. Ordenado sacerdote por volta de 345 por São Maxímio, foi encarregado de pregar todos os domingos nas reuniões dos fiéis, e, ao mesmo tempo, de instruir os catecúmenos, que eram judeus e pagãos que desejavam converter-se.
Restam-nos dele vinte e três catecismos ou instruções familiares e orais, das quais as dezoito primeiras explicam o símbolo e as cinco outras, os sacramentos do batismo, da confirmação e da Eucaristia, que os neófitos recebiam no mesmo dia. É uma obra de inestimável valor, pela clareza e a sequência com que a doutrina cristã é nelas exposta e defendida contra os pagãos e hereges.
Na primeira instrução, Cirilo exorta os neófitos a se despojarem do homem velho, pela penitência da confissão, a fim de se revestirem do homem novo, pelo batismo.
A segunda instrução é sobre a penitência.
A terceira, sobre as figuras, a necessidade e os efeitos do batismo.
A quarta tem por texto as palavras de São Paulo aos Colossenses: «Tende cuidado, para que ninguém vos surpreenda pela filosofia, e por raciocínios vãos e enganadores, segunde as tradições humanas e não segundo Jesus Cristo ».
São Cirilo expõe as precauções a tomar para se preservarem dessa sedução de Satanás, que se transforma em anjo de luzes. « Toda religião consiste em saber os dogmas nos quais devemos crer, e as boas obras que devemos praticar. Não se pode agradar a Deus sem essas duas coisas juntas. De nada adiantaria ter para com Deus sentimentos dignos dele e viver na desordem, como também levar uma vida regrada e não ter para com Deus os sentimentos que ele merece. É, pois, consequente que devemos conhecer as duas coisas. Ainda mais que muitos procuram seduzir pela filosofia e por erros vãos; os helenos ou pagãos, por uma eloquência de cortesã; os judeus, pela Escritura que interpretam mal; os herejes por um veneno escondido sob a aparência de doutrina cristã. O Senhor diz com relação a todos esses: « Tende cuidado, para que ninguém vos induza em erro ». É por isso que ensinamos que é necessário crer, e em seguida o explicaremos ».
São Cirilo reduziu a doutrina cristã a dez dogmas principais: Deus, Jesus Cristo, seu nascimento de uma virgem, sua morte na cruz, seu sepultamento, sua ressurreição, sua ascensão, o último juízo, o Espírito Santo, a alma humana, o corpo, os alimentos, a ressurreição do corpo, a Santa Escritura.
A respeito do primeiro artigo, isto é, que não há senão um só Deus, refuta sumariamente os maniqueus e os marcionitas, que admitiam dois deuses, e os pagãos que admitiam um sem-número deles. Falando de Jesus Cristo, diz: « Foi de fato crucificado por nossos pecados. Se alguém duvida, não é preciso mais do que atentar para o próprio lugar em que nos encontramos: o santo lugar do Gólgota, onde foi crucificado, e onde se construiu o templo no qual nos reunimos para honrar aquele que foi pregado à cruz; e toda a terra está cheia do madeiro da cruz, retalhado em pequenos pedaços. . .
Após ter terminado o sofrimento e resgatado os homens do pecado, Jesus Cristo subiu aos céus, acompanhado de anjos, e à vista dos apóstolos; se não crerdes absolutamente nestas palavras, crede ao menos na virtude do que se vê com os olhos.
Todos os reis, ao morrerem, perdem a autoridade com a vida. Jesus Cristo, porém, após ter sido crucificado, é adorado por toda a terra. Quando nós falamos no crucificado, os demônios tremem. Existem muitos homens pregados à cruz; Um só, entretanto, poderia pôr em fuga os demônios, pronunciando-se-lhe o nome? Não nos envergonhemos, pois, da cruz de Jesus Cristo e não a carreguemos escondida. Imprimamo-la sobre a fronte, para que os demónios, vendo o estandarte do rei, fujam ou tremam. Fazei esse sinal, quando comeis, quando bebeis, quando estais sentados ou de pé, e quando vos deitais ou vos levantais, quando falais e quando andais. E, para dizer-vos em uma palavra, fazei-o em todas as vossas ações e em todas as vossas empresas.
«O homem é composto de duas substâncias, a alma e o corpo, e Deus é o criador de ambos. Deveis saber que vossa alma tem o livre arbítrio, que ela é uma das mais perfeitas obras de Deus, que a criou à sua imagem e semelhança, que ela é imortal, porque ele lhe deu a imortalidade, que a fez viva, racional e incorruptível, que é livre e pode fazer o que quer. Não são nem os astros, nem o destino que vos levam ao pecado ».
São Cirilo assinala as maravilhas da Providência, mesmo no corpo humano, do qual o Espírito Santo faz seu templo. « Aprendei a estimar a continência, solitários. Estes são os que, separados mesmo das virgens, levam sobre a terra uma vida semelhante à dos anjos. Mas, eu vos propondo viver na castidade, guardai-vos de censurar os que estão ligados pêlos laços do casamento. O Apóstolo diz que « o casamento é alguma coisa de respeitável e o leito nupcial sem mancha ». Vós, pois, que vos propondes viver na castidade, sois nascidos de pessoas casadas. Não devemos rejeitar a prata porque temos ouro. As pessoas casadas podem também esperar a salvação, se usarem do casamento legitimamente, e não apenas para contentarem suas paixões animalescas. Os que não se casaram senão uma vez não devem condenar os que aspiram a segundas núpcias. Porque, como diz o Apóstolo dos que não podem guardar a continência; « É melhor casar do que abrasar-se ».
São Cirilo fala dos alimentos, porque os maniqueus e os marcionitas pretendiam que a carne e o vinho fossem maus por sua própria natureza. « Quando jejuamos, diz ele, nos abstemos de carne e de vinho, não porque tenhamos horror dessas coisas, como se elas fossem abomináveis, mas para merecermos, pelo desprezo do que é agradável aos sentidos, a mesa celeste e para que, após termos semeado aqui na terra com lágrimas, colhamos com alegria, na outra vida ». Quanto à Escritura Santa, diz aos seus ouvintes: « Se ouvirdes algumas vezes os hereges condenarem a lei e os profetas, e mesmo atacá-los, oponde-lhes esta palavra de Jesus Cristo: Não vim para revogar a lei, mas para cumpri-la; mas, sobretudo, aprendei da Igreja quais são os livros do Velho e do Novo Testamento e não leiais nada do que é apócrifo. Quando sabereis distinguir entre os que são aceitos pela Igreja e os que são duvidosos e controvertidos »
A quinta instrução trata da fé, e nos mostra o modelo em Abraão e em outros personagens. À sexta ensina a monarquia ou a soberana unidade de Deus, contra o paganismo e contra as heresias de Maneu e Marcião e outros gnósticos. A sétima afirma que toda a eternidade, Deus é Pai de um Filho único; a oitava, que Deus é todo poderoso. A nona instrução é uma sequência da precedente, e explica que Deus fez o céu e a terra, as coisas visíveis e as invisíveis; que o Pai e o Filho fizeram todas as coisas; o Filho pelo poder do Pai, que recebeu na geração eterna, e que dessa forma é um mesmo Deus com o Pai.
A décima instrução explica este artigo do símbolo: E em um Senhor Jesus Cristo. É propriamente um tratado da Trindade contra os judeus. « Se alguém quer honrar piedosamente o Pai, deve adorar o Filho, pois de outra forma seu culto não será recebido. O pai pronunciou do alto dos céus: « Este é meu filho muito amado, em que pus minhas complacências ». O Pai se compraz no Filho. Se vós mesmos não vos comprazerdes nisso, não tereis a vida. Não vos deixeis, pois, seduzir pelo artifício dos judeus, que afirmam não existir senão um só Deus; mas, após haverem reconhecido que não existe senão um só Deus, sabei que Deus tem um Filho único. Não sou eu que o digo por primeiro; o salmista diz na pessoa do Filho: « O Senhor me disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei ». Não deis, pois, ouvido ao que os, judeus dizem, mas ao que dizem os profetas.
Ficaríeis atónitos se os judeus rejeitassem as palavras dos profetas, eles que apedrejaram os próprios profetas?
« O Antigo Testamento presta testemunho da divindade do Filho. Deus diz: « Façamos o homem — não disse à minha imagem — à nossa imagem ». E, após ter formado Adão, diz-se: « Deus fez o homem à sua imagem, fê-lo à imagem de Deus ». A Escritura não atribui somente ao Pai a dignidade de Deus, mas nela se compreende também o Filho, para acentuar que o homem não é apenas criatura de Deus Pai, mas também de nosso Senhor Jesus Cristo. É o mesmo Senhor cooperado com o Pai, que cooperou na punição de Sodoma, segundo esta palavra da Escritura: « O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do alto dos céus, da parte do Senhor ». É o mesmo Senhor que apareceu a Moisés.
« No Novo Testamento há diversos testemunhos em favor de Cristo. É testemunha de Deus o Pai que do alto do céu o declara seu Filho; é testemunha o Espírito Santo que desce sobre ele sob a forma de pomba; é testemunha o arcanjo Gabriel que anuncia a Maria; é testemunha a Virgem Mãe de Deus; é testemunha o estábulo em que nasceu, o Egito onde se refugiou em sua infância, Simeão que o recebeu nos braços e Ana a profetisa.
É testemunha João Batista, o maior dentre os profetas, o primeiro homem do Novo Testamento e que reuniu os dois Testamentos em sua pessoa. É testemunha o Jordão, entre os rios e, entre os mares, o de Tiberíades. São testemunhas os cegos, os coxos, os mortos ressuscitados; testemunhas os demônios mesmos, quando dizem: « Que há entre vó e nós? Porque nós sabemos que sois o Filho de Deus ». São testemunhas os ventos apaziguados, os cinco pães multiplicados para alimentar cinco mil homens. É testemunha o madeiro da cruz, encontrado estes dias entre nós, cujos adeptos quase já enchem o mundo inteiro. É testemunha a palmeira que se encontra no vale e que deu seus ramos às crianças que bendiziam o Senhor. É testemunha o Getsêmani, que parece ainda mostrar o traidor Judas aos espectadores. É testemunha o Gólgota, essa montanha santa que se vê de todos os lados; a sepultura na qual foi sepultado, e a pedra que ainda hoje lá se encontra.
É testemunha o sol que nos ilumina neste momento e que se eclipsou na hora de sua paixão; as trevas que cobriram a terra desde a sexta hora até a nona; a luz que brilhou da nona hora até o anoitecer. É testemunha esta santa montanha das Oliveiras, de onde subiu para o Pai; são testemunhas essas nuvens que receberam o o Senhor; as portas do céu, das quais dissera o salmo: « Abri-vos, portas principais, e o Rei da glória entrará ». São testemunhas seus próprios inimigos, entre os quais o bem-aventurado Paulo, que, após ter-lhe feito guerra durante algum tempo, o serviu por longos anos. São testemunhas os doze apóstolos, que pregaram a verdade, não somente por palavras, mas ainda pelos sofrimentos e pela morte. É testemunha a sombra de São Pedro, que curava as doenças em nome de Cristo, São testemunhas o sudário e a túnica de Paulo, que por virtude do mesmo Cristo, devolviam a saúde. São testemunhas os persas e os godos, como todas as nações que morrem por ele, embora não o tenham visto pessoalmente, com os olhos corpóreos. São testemunhas os demônios, que os fiéis afugentam ainda hoje dos
possessos pela força de seu nome. Com tantas e tão boas testemunhas, não acreditareis ainda? Enfim, Jesus Cristo deu testemunho, em pessoa ».
A décima primeira instrução explica este artigo do símbolo: Creio no Filho único de Deus, gerado do Pai, verdadeiro Deus, antes de todos os séculos, e por quem tudo foi feito. É uma espécie de tratado sobre a divindade de Jesus Cristo, provada pelo Antigo e pelo Novo Testamento, em particular pela confissão de São Pedro, príncipe dos apóstolos e soberano pregador da Igreja.
A décima-segunda instrução explica a encarnação do Filho de Deus, de acordo com as profecias de Jacó, de Davi, de Isaías, etc, com as palavras do Evangelho, assim como do símbolo dos apóstolos. A piedade cristã nota aí as particularidades seguintes.
Vê-se ainda no monte das Oliveiras a marca dos pés de Jesus Cristo que subia aos céus, São Cirilo tomou-a como testemunho para com todos os habitantes de Jerusalém. Ele vê nisso o cumprimento desta palavra do profeta Zacarias: « Nesse dia estará de pé sobre as montanhas das Oliveiras que fica próxima de Jerusalém, a oriente da cidade ». Santo Agostinho atesta igualmente que se ia à Judéia adorar os vestígios de Jesus Cristo, que se viam no lugar do qual subira aos céus.
Por que o Filho de Deus se encarnou no seio de uma virgem?
São Cirilo responde como Santo Irineu: A morte veio pela virgem Eva. Por isso, a vida nos veio pela virgem Maria. A serpente enganou a primeira, o anjo Gabriel anunciou a boa nova a outra. São Cirilo diz positivamente que foi sobre o Tabor que o Salvador foi transfigurado. Esse testemunho do bispo de Jerusalém nos mostra a tradição do país. Ele lembra a obrigação do celibato eclesiástico, por esta reflexão: « Se os que exercem o sacerdócio de Jesus não devem ter nenhum comércio com nenhuma mulher, como poderia o próprio Jesus ter nascido de um homem e de uma mulher? » A lei de Moisés ordenava, para a purificação, a oferta de duas rolas ou de duas pombinhas. O Evangelho não diz qual dessas duas oferendas fez a virgem Maria. São Cirilo nos ensina, de acordo com a tradição de Jerusalém, que foram duas rolinhas.
A décima-terceira instrução é acerca da crucificação e do sepultamento de Jesus Cristo. Lê-se, com relação à hora da crucificação: « Foi crucificado por nós. Foi julgado de noite, em época de frio, em que se fazia fogueira para se aquecer. À terceira hora foi crucificado. E da sexta à nona hora, o sol se eclipsou e reapareceu luminoso depois da nona hora. Vejamos como está escrito. O profeta Zacarias havia dito: « Nesse dia não haverá luz e fará frio; e haverá gelo ».
De fato, como fazia frio, « Pedro se aquecia », O profeta acrescenta: « E esse dia será conhecido do Senhor ». Não quer dizer que Deus não conheça todos os dias, mas entre tantos dias que existem, é o dia da paixão do Senhor, o dia que o Senhor fez, dia que o Senhor conhece de modo especial. Então, diz o profeta: « Não há nem dia nem noite ». Qual é esse enigma? O Evangelho no-lo explica. Não havia dia, porque o sol não luzia perpetuamente do oriente ao ocidente, mas que « da sexta hora até à nona houve trevas », durante o dia. Ora, Deus deu às trevas o nome de noite. É por isso que não haverá nem dia nem noite; porque a luz não era total para ser chamada dia, nem era treva, para ser chamada noite.
Mas o sol reapareceu após a nona hora. O profeta predisse mesmo essa circunstância, quando disse: «Não haverá nem dia nem noite », acrescentando: « E a luz aparecerá pela tarde ». Vedes a certeza do profeta, vedes a verdade das Escrituras. Mas perguntais a que horas precisamente o sol se eclipsou, se foi à quinta, à oitava ou à décima. O profeta Amós vos responderá: « Nesse dia, diz o Senhor, o sol se esconderá em pleno meio-dia ». Efetivamente, a partir da sexta hora, houve trevas, e a luz sumiu da terra durante o dia. E qual será esse tempo, qual será esse dia, ó profeta? « Eu mudarei, diz, vossas solenidades em luto ». Isso se passou efetivamente no tempo dos Ázimos ou da Páscoa. E acrescenta: « Farei verter sobre1 ele lágrimas como sobre um filho único; e será um dia de dor para ele e para todos os que estão com ele ». Por isso, nesse dia solene dos Ázimos, as mulheres se desfaziam em lágrimas e choravam sobre ele, e os apóstolos que se haviam escondido, estavam em abatimento. Como essa profecia é "maravilhosa!" »
A décima-quarta instrução explica estas palavras do símbolo: Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai. Na décima-quinta, São Cirilo explica este artigo: Virá ainda uma vez sobre a terra, para julgar os vivos e os mortos e seu reino não terá fim.
Nas instruções décima-sexta e décima-sétima, explica eloquentemente o artigo do Espírito Santo. Por suas explicações, vê-se que a Igreja de Jerusalém tinha acrescentado, desde então, ao símbolo, no artigo do Espírito Santo, o que o segundo Concílio Ecuménico, primeiro de Constantinopla, acrescentou universalmente contra o herético Macedônio. São Cirilo prova suficientemente, pelo Antigo e pelo Novo Testamento, que o Espírito Santo é Deus; que é da mesma substância que o Pai e o Filho; que tem sua origem no Filho, como este a tem no Pai. « Por excelente que seja a natureza dos anjos, diz na instrução de número dezesseis, foram tirados do nada. Mas o Espírito Santo procede eternamente de Deus. A natureza dos anjos está sujeita a mudanças, como todas as coisas criadas, embora elas não mudem. Mas o Espírito Santo é imutável, consubstanciai que é ao Pai e ao Filho. Foi esse Espírito que predisse Jesus Cristo pelos profetas, que operou pelos apóstolos e que ainda hoje marca as almas no batismo. O Pai deu ao Filho e este ao Espírito Santo. Não sou eu que o digo, mas o próprio Jesus: « Todas as coisas me foram dadas pelo Pai ». Depois, falando do Espírito Santo: « Quando o Espírito da verdade vier, me glorificará, porque receberá de mim e vo-lo anunciará ». São Cirilo diz ainda na instrução seguinte: « Não apenas São Paulo, mas os demais apóstolos, e todos os que, por seu mistério, creram no Pai, no Filho e no Espírito Santo que lhes é consubstanciai, foram cheios do Espírito Santo ».
Na décima-oitava instrução, explica estas palavras do símbolo: creio também na Santa Igreja Católica, na ressurreição da carne e na vida eterna. Diz São Cirilo « que a Igreja é chamada Católica, porque se espalhou por toda a terra; porque ensina universalmente e sem exceção tudo o que é necessário à salvação; porque submete ao verdadeiro culto todo o gênero humano, os soberanos, os súditos, os sábios e os ignorantes; porque cura todos os pecados, e possui todas as virtudes. É necessário observar com cuidado este artigo do símbolo, a fim de evitar irreverências dos heréticos. Quando, pois, chegardes a uma cidade desconhecida, não pergunteis simplesmente: Onde é a casa do Senhor? porque os hereges dão esse nome aos seus velhacoutos. Não pergunteis também: Onde é a Igreja? Mas, onde é a Igreja católica! Porque tal é o nome próprio da Santa Igreja, nossa mãe e esposa de Jesus Cristo. Perseguida outrora, coroava seus mártires com as coroas imortais e variadas da paciência; hoje, na paz, é respeitada pelos reis, pelos grandes, pelos homens de todas as condições. De resto, os reis são limitados a nações particulares, seu poder tem limites; não outro poder como o da Santa Igreja, que se estende por toda á terra, sem cerceamento de limites ».
Essas dezoito instruções têm por objetivo preparar os catecúmenos para receberem os três sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia. "Vêm em seguida cinco catecismos sobre esses mesmos sacramentos, que os neófitos acabavam de receber. A primeira e a segunda dessas instruções tratam do batismo, da renúncia a Satanás, às suas obras e às suas pompas, assim como de outras cerimônias comuns em Jerusalém, como a unção santa de todo o corpo, a tripla imersão, a vestimenta branca, que assinalava os efeitos do sacramento. O terceiro trata dos mistérios, fala do santo crisma ou da confirmação, que os neófitos recebiam imediatamente após o batismo. « Não imagineis que se trate de um óleo comum, diz São Cirilo. Porque, como o pão da eucaristia, após a invocação do Espírito, não é mais pão comum, mas o corpo de Jesus Cristo; da mesma forma, o crisma, após a invocação, não é mais óleo comum, mas o dom de Cristo, que, pela presença de sua divindade, tem a virtude de obter o Espírito Santo. Assim, durante a cerimónia de unção da fronte e dos outros sentidos do corpo, a alma é santificada pelo Espírito Santo vivificador ».
Na igreja de Jerusalém, a unção do santo crisma se fazia hão somente sobre a fronte do neófito, mas também sobre as orelhas, as narinas e o peito, como para armá-lo, por todos os sentidos, contra o inferno e o mundo. O quarto a respeito dos santos mistérios, trata do corpo e do sangue de Jesus Cristo, após a leitura destas palavras dirigida aos Coríntios: « O Senhor mo ensinou e vo-lo deixei por tradição », etc. São Cirilo fala nestes termos: « A doutrina de São Paulo que acabastes de ouvir basta para vos dar certeza a respeito dos mistérios divinos, dos quais fostes julgados dignos e que vos tornaram partícipes do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Por isso o Apóstolo vos dizia: « Na mesma noite em que Jesus Cristo foi traído, tomou do pão e, dando graças, partiu-o dizendo: Tomai, comei, este é meu corpo. E, tomando do cálice, rendeu graças e disse: Tomai, bebei, este é meu sangue ». Ele mesmo assegura dizendo: « este é meu corpo ». Quem ousaria duvidar? E quando diz que o vinho é seu próprio sangue, poderia alguém não acreditar-lhe as palavras? Certa vez, em Caná, na Galiléia, mudou água em vinho, o qual se aproxima muito do sangue. E não seria digno de crédito o fato de mudar o vinho em seu próprio sangue? Convidado para as núpcias corporais, fez esse milagre surpreendente. E quem duvidará de que beneficiou mais ainda os filhos do esposo celeste com a participação de seu corpo e sangue? Por isso, recebamos tais coisas, com certeza plena, como o corpo e o sangue de Cristo, porque sob a aparência do pão vos é dado seu corpo e sob a aparência do vinho seu sangue, para que sejais um mesmo corpo e um mesmo sangue com ele. Nós nos tornamos, com efeito, dessa maneira, cristóforos, dado que seu corpo e sangue se distribuem por nossos membros. E segundo o bem-aventurado Pedro, somos participantes da natureza divina ».
No quinto e último, a respeito dos mistérios, explica certas cerimônias da missa, tal como era celebrada em Jerusalém.
Além dessas instruções aos neófitos, o sacerdote Cirilo pregava ainda cada domingo aos fiéis na igreja, trabalho que ele chama não de catequização, mas de prática. Resta-nos apenas uma dessas práticas, sobre a cura do paralítico.
Nesse trabalho de catequização, invoca várias vezes São Pedro, como chefe dos apóstolos, o soberano pregador da Igreja, o detentor das chaves do reino dos céus, que recebeu o encargo de apascentar as ovelhas intelectuais. Não apenas o chama de corifeu, mas o corifeu dos apóstolos, como se lhe faltasse outra palavra para designar tão alta proeminência. Acrescenta que Pedro foi a Roma com Paulo, e obtiveram por suas orações que Simão o Mago, o qual por ostentação, pairava no ar, caísse por terra. Isso não é de admirar, diz ele, dado que se tratava de Pedro, que falava o portador das chaves do céu, e Paulo, vindo do terceiro céu, onde ouvira coisas inefáveis.
Morto São Maxímio, o sacerdote Cirilo lhe sucedeu pelo fim do ano de 350. O começo de seu episcopado foi celebrizado por um grande prodígio, o qual se apressou a relatar ao imperador Constâncio. Nos cinquenta dias da Páscoa até Pentecostes, em 7 de maio de 351, às nove horas da manhã, uma imensa cruz de luz apareceu por sobre o Gólgota, estendendo-se até o monte das Oliveiras. Mostrou-se distintamente, não a uma ou a duas pessoas, mas a todo o povo da cidade. Não se tratou, como se poderia pensar, de um fenômeno passageiro. Permaneceu sobre a terra durante várias horas, visível aos olhos, mais brilhante do que o sol, cuja luz a teria encoberto, se ela não fosse mais forte. Imediatamente todo o povo acorreu à igreja com grande medo, acrescido de certa alegria. Os jovens e os velhos, os homens e as mulheres, e mesmo as criancinhas; os cristãos do país e os estrangeiros, os pagãos que lá se encontravam, vindos de diversos lugares.
Todos, em uníssono, louvavam nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho único de Deus, o operador de milagres, vendo por experiência a verdade da doutrina cristã, à qual o céu prestava homenagem. Nessa carta, que ainda temos, São Grilo dá a Constâncio os epítetos mais honrosos. Era, sem dúvida, para atraí-lo à verdadeira fé, porque terminou por desejar-lhe que glorificasse para sempre a santa e consubstanciai Trindade. A igreja grega celebra no dia 7 de maio a festa desse milagre, que, aliás, foi atestado por grande número de outros historiadores.
Vê-se por uma carta, que São Cirilo professava abertamente a divindade consubstanciai de Jesus Cristo, apesar dos prelados arianos que dominavam na corte. Teve de sofrer muito, porque mais de uma vez o expulsaram de sua sede, com violência. Por isso, os bispos católicos reunidos em Constantinopla no ano de 382, e que formaram um concílio ecuménico com aprovação da Santa Sé, prestaram à sua fé a mais brilhante homenagem. Declararam em sua carta ao papa São Dâmaso e aos bispos do Ocidente, como Téodoreto relata em seu quinto livro: « que o reverendíssimo Cirilo, bispo de Jerusalém, tinha sido eleito canonicamente pelos bispos da província, e sofrera várias perseguições por causa da fé ».
Um dos prelados arianos, Eusébio de Nicomédia, educou um sobrinho do imperador Constâncio, que foi Juliano o Apóstata, precursor do Anticristo. Para se vingar de Cristo que havia renegado, o apóstata Juliano deu-se ao empreendimento de reconstruir o templo de Jerusalém e de nele restabelecer o culto judaico. Cristo havia anunciado que esse templo seria destruído e que não restaria dele pedra sobre pedra. Anteriormente, os profetas já haviam predito que essa última desolação seria irremediável; que os judeus não subsistiriam jamais em corpo de nação; que seriam errantes, sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem altar, sem profetas, procurando a salvação e não encontrando nada. Reerguer, pois, o templo e restabelecer o culto, seria desmentir não só a Cristo, mas também os profetas, seria arruinar ambos os Testamentos e preparar o triunfo do paganismo.
A fim de incitar os judeus, Juliano lhes escreveu uma carta bajuladora. E fez mais. Mandou virem os principais deles e perguntou-lhes por que não ofereciam mais sacrifícios, como o rei lhes ordenara. Responderam-lhe que não lhes era permitido sacrificar fora de Jerusalém e do templo. Então, ele lhes declarou que, estudando os livros sacros, havia, descoberto que o fim do cativeiro no qual gemiam, tinha chegado; que deviam, pois, retornar à pátria e colocar novamente a lei em vigor. Depois, ajuntando os efeitos às palavras, enviou de todas as partes, operários a Jerusalém, e ordenou aos tesoureiros que fornecessem dinheiro necessário para a construção do templo, que devia custar somas imensas. O governador da província estava encarregado de prestar-lhe cuidados. Por fim, Alípio, amigo íntimo do imperador, que o chamava de irmão querido, tinha a superintendência da obra, e se dirigira aos locais, para apressar-lhe a execução.
A essa notícia, os judeus acorreram de todas as partes a Jerusalém. Acreditavam-se já senhores do mundo. E sua insolência já ameaçava os cristãos de passá-los a fio de espada. Em situação tão crítica, São Cirilo, bispo de Jerusalém, ficou exposto a rudes assaltos, tanto por parte dos infiéis, como por parte dos cristãos fracos. Mas, em meio aos insultos de uns e alarmas de outros, sustentou sempre, baseado em Daniel e Jesus Cristo, que a tentativa dos judeus e dos pagãos iria confundi-los a eles próprios. Todas as aparências conspiravam contra ele. Reunia-se grande quantidade de materiais; trabalhava-se dia e noite limpando o lugar do velho templo e demolindo os velhos fundamentos. Alguns judeus tinham mandado fazer, para esse trabalho, pás, cestos, ferramentas de prata. Viam-se mulheres das mais delicadas trabalhando e levando os escombros nos seus vestidos mais preciosos. Tinham dado jóias e pedrarias para contribuir com as despesas do empreendimento.
A demolição estava terminada e, sem nisso pensar, haviam cumprido, rigorosamente, a palavra de Jesus Cristo, de « que não ficaria pedra sobre pedra ». Quiseram fazer o novo alicerce. Mas do local se ergueram turbilhões terroríficos de chamas, que consumiram os operários. A mesma coisa aconteceu, quando por outras vezes voltaram ao empreendimento. A constância do fogo, tornando inacessível o lugar, obrigou-os a abandonar para sempre a obra. Essas são as palavras de Amião Marcelino, escritor da época, historiador criterioso e fiel, pagão de religião e ligado ao serviço de Juliano. Os autores cristãos dizem a mesma coisa: Santo Ambrósio, São Crisóstomo, São Gregório de Nazianzo, todos da época do acontecimento; Rufino, Sócrates, Sozômeno, Teodoreto, que escreveram no século seguinte, todos falam do assunto como de um fato notório e sobre o qual não há sombra de dúvida. Somente acrescentam alguns pormenores que Marcelino, ordinariamente prolixo, negligencia, talvez para resguardar a honra de seu herói.
Na noite que precedeu o dia em que deveriam começar a obra, originou-se grande tremor de terra, que não apenas atirou longe as pedras que se encontravam no fundamento, como também derrubou a maior parte dos edifícios dos arredores. As galerias públicas, onde estava reunido grande número de judeus, para vigiar a obra, caíram fragorosamente e sepultaram, sob suas ruínas, as pessoas que lá se encontravam. Vendavais levaram embora a areia, a cal e outros materiais dos quais havia quantidades imensas. O fogo consumiu os martelos, os cinzéis, as serras e outros utensílios que tinham encerrados em um edifício subterrâneo, sob o templo. Veio o dia e os judeus acorreram ao local para verem o que havia acontecido. Da construção, ergueram-se labaredas que se estenderam pelo meio da praça, e continuaram a se alastrar por toda parte, queimando e matando os judeus ali reunidos. Esse fogo se repetiu várias vezes durante o dia. Na noite seguinte, viram sobre suas roupas cruzes luminosas que não conseguiam fazer desaparecer, por mais que se esforçassem. Apareceu também uma cruz luminosa no céu. Os judeus não deixaram de voltar ao trabalho, tanto voluntariamente, como por ordem do imperador. Mas foram repelidos pelo fogo estranho. Vários dentre eles, bem como muitos pagãos, ficaram comovidos com o prodígio, reconheceram a divindade de Jesus Cristo e pediram o batismo.
« Esses prodígios, diz um autor antigo, foram comunicados ao imperador Juliano, que ordenou cessassem a reedificação do templo ».
Quanto aqueles judeus que se obstinaram no judaísmo, não deixaram de consignar esse acontecimento em suas memórias. Um famoso rabino do século seguinte se exprime da seguinte forma: « Por volta do ano 4349 da existência do mundo, nossos anais relatam que houve grande terremoto que destruiu o templo erguido pelos judeus com grandes despesas, por ordem de Juliano o Apóstata. No dia seguinte ao desastre, o fogo do céu caiu sobre as obras, derreteu tudo quanto era de ferro nessa construção e consumiu grande número de judeus ».
Juliano mesmo deu testemunho forçado desse prodígio. Em um escrito, confessa que havia empreendido reedificar o templo dos judeus; que tal empresa falhara; que o fogo fora a causa disso; que esse desastre tinha sido predito pelos profetas. Somente conclui que os profetas não sabiam o que estavam dizendo, visto que é próprio da natureza do fogo queimar. Os poetas eram bem mais esclarecidos. Eles também, como Juliano nos informa, se tornaram desprezíveis, por suas contradições; ao passo que os profetas causam admiração a todo o mundo, pela coerência. Tal é a lógica do Apóstata.
Dir-se-ia ver o pai da mentira, a serpente infernal, traspassada por um dardo da verdade divina, contorcendo-se e recurvando-se em todos os sentidos, para não convir.
O ímpio Juliano havia ameaçado São Cirilo, com toda sua cólera, para quando voltasse da guerra contra os persas. Todavia nela pereceu miseravelmente, não longe da antiga Babilónia. São Cirilo foi ainda perseguido por Valão, imperador ariano, que morreu em uma batalha contra os godos.
O santo bispo morreu tranquilamente em Jerusalém, no dia 18 de março de 386, aos 71 anos de idade.
Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos Santos - Tomo V.
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