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A vida de
São Beda Venerável
(../../672 - 26/05/735)
Presbítero e
Doutor da Igreja

No século oitavo, quando os estudos pereciam no Oriente, floresciam no extremo do Ocidente. As ciências, as letras e as artes, que os dois santos monges, Teodoro de Tarso e Adriano da África, enviados pelo Papa São Valentim, tinham levado à Inglaterra, lá continuavam a prosperar nos mosteiros. No século oitavo floresceu entre os anglo-saxões, um doutor e um Padre da igreja: seu nome é Beda, que, em sua língua, quer dizer: homem que reza. Nasceu no ano 673, no país dos Northumbres, nos confins da Escócia, no território do duplo mosteiro de Wiremouth de Jarou, que trazia o nome dos apóstolos São Pedro e São Paulo.

Na idade de sete anos, os pais puseram-no no mosteiro de Wiremouth, sob a disciplina de São Bento Biscop; depois, sob a de São Ceolfrido, no mosteiro de Jarou, onde passou o resto da vida, entre os excelentes mestres de quem recebeu lições, ele mesmo cita o monge Trumbert, discípulo de São Ceadda, bispo de Lichfield, o qual tinha estabelecido uma escola célebre no mosteiro de Lestingen, no condado de York.

O canto eclesiástico foi-lhe ensinado por João, que, de grão-chantre de São Pedro do Vaticano, se tornara abade de São Martinho de Roma que o Papa Santo Agatão tinha mandado à Inglaterra, com São Bento Biscop. Aprendeu grego com o monge São Teodoro, arcebispo de Cantuária e com o santo abade Adriano, os quais tornaram aquela língua tão familiar a vários ingleses, que se teria dito ser-lhes a língua materna. Beda dá-lhe o exemplo de Tobias, Bispo de Rochester. Se tivesse sido menos modesto, teria podido citar a si mesmo. A ciência e a piedade supriam nele a deficiência da idade; o santo abade Ceolfrido quis que se preparasse para as ordens sagradas, embora tivesse então somente dezenove anos.

Foi ordenado diácono em 691, por São João de Beverly, então bispo de Hexham, em cuja diocese a abadia de Jarou estava situada. Continuou os estudos até 702, quando recebeu o sacerdócio do mesmo pontífice. É chamado, num antigo livro, o padre da missa, por ser encarregado de cantar, todos os dias, a missa conventual.

Os monges de Wiremouth e de Jarou, a exemplo de seu fundador São Bento Biscop, dedicavam certo tempo ao trabalho manual. Beda trabalhava com os irmãos; mas sua ocupação principal era estudar, escrever, rezar e meditar. Muitas vezes, copiava livros. Logo que foi ordenado padre, começou a escrever, para honra da religião; ao mesmo tempo, formava nas ciências os monges de Jarou e de Wiremouth. Dava-lhes lições públicas, às quais admitia de boamente os monges de outros mosteiros. Os monges de sua escola eram em número de seiscentos. Contam-se, entre seus discípulos Eusébio ou Huberto, que foi depois abade de Wiremouth; Cuthbert, seu sucessor e Egberto, que de monge do mosteiro da igreja de York, se tornou seu arcebispo.

Vê-se, por uma carta de Beda, que fez uma viagem a York, para pagar a visita a Egberto e que ensinou durante alguns meses naquela cidade, onde fundou uma escola que se tornou florescente; diz-se que tinha formado o célebre Alcuíno, amigo e preceptor de Carlos Magno.

Beda nos diz que se entregava inteiramente à meditação da Sagrada Escritura e que, depois de ter cantado os louvores de Deus, na Igreja e cumprido o que a regra prescrevia, seu prazer era aprender, ensinar e escrever. Desde que recebeu o sacerdócio, diz ele, "até quando escrevo isto, (era o qüinquagésimo-nono ano de sua idade), compus vários livros para minha utilidade e para a dos outros. Inspirei-me nas obras dos Padres e fiz, às vezes, acréscimo ao que encontrei". Dá uma lista de quarenta e cinco obras, das quais era então autor e dos quais a maior parte tinha por objeto esclarecer o texto do Antigo e do Novo Testamento.

Escreveu com êxito sobre todas as partes da literatura: filosofia, astronomia, geografia, aritmética, calendário, cômputo pascal, gramática, ortografia, versificação, história. Era uma enciclopédia viva de tudo o que se podia saber, no seu tempo. Por ele a Inglaterra, a França, e a Alemanha se iniciaram mais diretamente nos tesouros científicos e literários da antiguidade cristã e profana. Traduzia, às vezes, do grego para o latim. Compôs mesmo opúsculos em anglo-saxão para uso do povo. Seus tratados sobre a gramática, a ortografia e a versificação, esparsos no Ocidente, contribuíram, com os de Cassiodoro e de Santo Isidoro de Sevilha, para imprimir um caráter de regularidade e de clareza natural às línguas modernas, que, no oitavo e nono séculos, começaram a formar-se de uma mistura do latim com as línguas tudescas.

O conjunto de suas obras históricas serviu muito para formar a razão cristã do Ocidente e para a formar sobre a razão de Deus mesmo. Suas crónicas ou sumários de história universal, desde a criação do mundo até seu tempo, indicam em poucas palavras o pensamento de Deus sobre a humanidade em geral, sobre a posteridade de Abraão em particular, enfim sobre a multidão das nações reunidas no Cristo e na Igreja. Sua "História da Igreja da Inglaterra", faz ver detalhadamente como Cristo, pela caridade e pelo zelo de seu vigário, fez entrar em sua Igreja, una, santa, católica e apostólica, a nação inglesa, que devia ocupar tão excelso lugar no novo gênero humano. Seu martirológio, ou notícia abreviada, dia a dia, dos principais santos, mostra, em todos os tempos, em todos os lugares, quanto custou aos apóstolos, aos mártires e a seus sucessores, libertar o gênero humano das extravagâncias do paganismo ou da heresia e para o levar a afeiçoar ao bom sentido da fé católica.

Suas vidas detalhadas, de alguns santos da Inglaterra, mostram-nos como essa fé divina transforma homens originalmente bárbaros, em homens novos, que só querem a Deus e o seu amor.

Quanto à história eclesiástica dos ingleses, foi levado a escrevê-la, pelo abade Albino, homem muito douto, que tinha sido discípulo de santo abade Adriano e de São Teodoro, arcebispo de Cantuária. Albino não se contentou com animar Beda a esse trabalho. Forneceu-lhe, ainda, memórias do que se tinha passado na província de Cantuária, e nos países vizinhos, sob o apostolado de Santo Agostinho e dos outros pregadores do Evangelho, mandados à Inglaterra por São Gregório Magno. Mandou essas memórias a Beda por Nothelmo, padre da Igreja de Londres, que lhe referiu também várias coisas, à viva voz.

Nothelmo foi, em seguida, a Roma, obteve permissão do Papa Gregório III de procurar nos arquivos da Igreja romana o que podia interessar à história da Inglaterra e lá encontrou várias cartas de São Gregório Magno, e dos outros Papas, que comunicou a Beda, em seu regresso a Londres. Daniel, Bispo dos saxões ocidentais, forneceu-lhe memórias sobre a história eclesiástica de sua província, bem como sobre a dos saxões meridionais e da ilha de Wight.

Beda soube, dos monges do mosteiro de Lestingen, da conversão dos Mercianos, por ministério de Ceddi e de Ceadda, e dos principais feitos desses dois santos Bispos. No que se refere à história eclesiástica dos ingleses orientais, foi informado, em parte, pelos escritos que lhe forneceram, em parte, pela tradição dos antigos e, em parte, pelas descrições do abade Eli. O bispo Cineberto e várias outras pessoas fiéis contaram-lhe o que sabiam, com relação à propagação da fé na província de Lindissing. Com referência à dos Northumberlambros, onde tinha nascido, o que não tinha podido saber por si mesmo, soube-o dos monges de Lindisfarne e de várias outras testemunhas dignas de fé.

Beda mesmo conta todas essas coisas ao rei Ceolulfo, a quem dedicou sua história, querendo que fosse aprovada por ele, antes de a publicar. Foi recebida com tão grandes aplausos que o rei Alfredo, o Grande, a traduziu mais tarde em saxão, a fim de que o mesmo povo a pudesse ler. Está dividida em cinco livros, o primeiro dos quais começa com a descrição da Bretanha e da Hibérnia e dos costumes de seus antigos habitantes; depois, indica os imperadores romanos que entraram na Bretanha, e põe em primeiro lugar, Júlio César. Fixa-lhe a entrada na ilha no ano de 593, da fundação de Roma, sessenta anos antes do nascimento de Jesus Cristo, sob o consulado de Lúcio Búbulo. Acrescenta que Lúcio, rei dos bretões, escreveu ao Papa Eleutério que ocupava a Santa Cátedra de Pedro, sob Marco Aurélio e Cômodo, para lhe rogar que mandasse pregadores do Evangelho aos bretões; que o Papa os mandou e que os bretões receberam a fé de Jesus Cristo e a conservaram inviolavelmente até o imperador Diocleciano, que suscitou contra eles uma violenta perseguição, na qual vários receberam o martírio, entre outros Santo Albano, de quem o Padre Fortunato, diz ele, fez o elogio em seu poema, em honra das virgens.

Beda diz, em seguida, mas em poucas palavras, o que se passou na Igreja da Inglaterra, até a missão do monge Santo Agostinho, por São Gregório Magno, que conta detalhadamente. Começa o segundo livro com a morte desse santo Papa, depois narra, tanto nesse livro como nos seguintes, as conversões feitas por Santo Agostinho, os bispados que fundou na Inglaterra, a sucessão dos Bispos, a propagação do Evangelho nas diversas províncias, as dificuldades que surgiram sobre a celebração da Páscoa e sobre outros usos da Igreja, os concílios reunidos para pôr fim a essas discussões e como os reis e os bispos se reuniram para a destruição da idolatria. Fala também da instauração de mosteiros e dos abades mais célebres. Seu quinto e último livro termina no ano 731 da Encarnação, do mesmo modo que o resumo que fez dessa história. Une a esse resumo o catálogo de suas obras.

Em suas vidas de santos indica, com o mesmo cuidado que em sua grande história, as diversas particularidades que narra. Vê-se, por toda parte, o historiador consciencioso.

A maior parte de suas obras são obras de piedade, particularmente comentários sobre diversas partes da Escritura Sagrada. Escreveu-os quase todos, a rogo de amigos, entre os quais o monge Huberto ou Eusébio, depois seu abade em Jarou; o padre Nothelmo de Londres, depois arcebispo de Cantuária; o bispo Àcca de Hagulsstadt, também chamado Hexham. Nesses comentários procura menos encontrar ideias novas, do que resumir o que os santos Padres tinham dito de melhor sobre cada coisa. Desse modo, seu trabalho é menos o pensamento de um indivíduo do que o pensamento comum da Igreja. Aliás, o bispo de Hagulsstadt, tinha-lhe mesmo pedido indicar, em particular o lugar de cada Padre, do qual tivesse feito o comentário. Quanto ao estilo do venerável Beda, não é nada rebuscado, é sem pretensão, de amável simplicidade, de calma piedosa, de candura diáfana; numa palavra, seu estilo é como seu coração, como sua vida toda.

A vida desse amável santo não foi agitada por tempestades. Sua ciência e modéstia conquistaram-lhe a estima de todos, sem excitar inveja de ninguém. Quando foi ordenado sacerdote, o Papa Sérgio escreveu-lhe uma carta, que ainda temos. Nela, convidava-o, em termos muito honrosos, para vir a Roma, a fim de ele ter a satisfação de o ver e consultar sobre negócios importantes. Nosso santo, por modéstia, jamais falou de circunstância tão gloriosa. De resto, não foi a Roma, sem que se saiba porque. Ele mesmo nos garante que jamais saiu de seu mosteiro para viajar, menos ainda para fazer grandes viagens. Sua reputação atraía-lhe visitas, de tudo o que de grande havia na Bretanha, entre outras a do piedoso rei Ceolulfo, ao qual dedicou sua — Histoire écclésiastique dês Anglais —, e de que aproveitou tão bem, que, no ano 737, deixou o reino que governava havia nove anos e abraçou a vida monástica em Lindisfarne, sob a direção de São Cuthberto.

De todas as suas obras, uma só causou algum desgosto ao nosso santo: foi seu livro intitulado — Dês six ages du monde — ou — Chronique. — Como Santo Júlio de Toledo, dividiu a história humana, não, em seis milénios, mas em seis idades. Como São Júlio de Toledo, pôs a primeira idade desde Adão até Noé; a segunda, de Noé a Abraão, a terceira, de Abraão a Davi, a quarta de Davi ao cativeiro de Babilónia, indicando quantos anos houve de intervalo entre essas diversas idades, segundo o cálculo dos hebreus e o dos Setenta; a quinta, da saída de Babilónia até o nascimento do Salvador e a sexta, do nascimento de Jesus Cristo até à consumação dos séculos. Dá, depois, os acontecimentos mais notáveis nos vários impérios, na sinagoga e na Igreja, e não esquece o sexto concílio de Constantinopla, em 681.

A crónica contém o que se passou durante o curso de quatro mil seiscentos e oitenta anos, dos quais o último chega ao ano 725 da era comum. Como nessa obra, o venerável Beda segue a cronologia mais curta, do texto hebraico, que dá somente mais ou menos quatro mil anos, desde Adão até Jesus Cristo, em vez da cronologia mais longa dos Setenta, que é de cinco a seis mil anos; como em seguida, tal qual São Júlio de Toledo, combate a opinião vinda dos judeus, de que o mundo deve durar seis mil anos, alguns ignorantes fizeram-lhe censuras, até tratá-lo de herege e escreveram canções contra ele. Sensivelmente aflito com a acusação de heresia, o santo doutor escreveu uma carta apologética a um monge chamado Plegwin, onde justifica doutamente sua cronologia e mostra que não há nenhum fundamento na opinião que começava a correr, de que o mundo devia durar somente seis mil anos; em suma, que não se deve procurar, por nenhuma conjetura, o tempo do fim do mundo, que Deus nos quis conservar oculto.

No ano de 733, São Beda passa algum tempo em York, onde seu antigo discípulo, Egberto, irmão do rei dos Northumbres, acabava de ser feito Bispo. Egberto rogou-lhe voltasse no ano seguinte, 734, para acabar de instruir os religiosos de seu mosteiro, onde tinha instaurado uma escola. O santo tendo sido impedido, por uma enfermidade, substituiu em 735, a visita, por uma carta. Nela exorta Egberto a evitar as conversas inúteis, a meditar assiduamente nas Sagradas Escrituras, principalmente nas Epístolas de São Paulo a Timóteo e a Tito, na pastoral de São Gregório e nas homilias sobre os Evangelhos; a ter sempre perto de si pessoas capazes de o ajudar no ministério, a não proceder como certos bispos que só se fazem acompanhar por pessoas de divertimentos, e de boa prosa, capazes de os terem alegres, com conversas frívolas. Visto que vossa diocese é tão grande, continua, que não podeis atender sozinho por toda parte, mesmo em um ano, é necessário que estabeleçais padres em cada aldeia, para instruir e administrar os sacramentos, e eles devem principalmente cuidar de que todos saibam de cor o Símbolo e a Oração dominical, e que os que não entendem latim, cantem em sua língua, quer leigos, quer clérigos ou monges.

Por isso, eu os traduzi em inglês para alguns padres ignorantes. Diz-se que há várias aldeias de nossa nação, nas montanhas inacessíveis, onde jamais se viram os bispos exercer uma função espiritual, nem pessoa alguma para instruir, e todavia, nenhuma dessas aldeias está isenta de pagar seus dízimos ao Bispo. Assim, longe de pregar gratuitamente, segundo o preceito de Nosso Senhor, recebe-se, sem pregar, a esmola que ele proibiu receber, mesmo pregando.

O melhor meio de restaurar a nossa Igreja, é multiplicar os bispos; não vêem todos, como é melhor dividir entre vários esse peso imenso, do que carregá-lo sozinho? Por isso o santo Papa Gregório, escrevendo ao arcebispo Agostinho, tinha ordenado estabelecesse doze Bispos, dos quais o de York seria o metropolita. Eu quisera que completásseis esse número, com o auxílio do rei. Sei que, pela negligência dos reis precedentes e sua liberalidade inconsiderada não é fácil encontrar-se um lugar vago, para se erigir um bispado. Por isso estimaria muito conveniente, para esse efeito, algum mosteiro; e, para obviar à oposição do abade e dos monges, poder-se-ia permitir-lhes escolher o bispo entre eles mesmos ou toma-lo no território em que se constituísse a nova diocese. O que lhe tornou a execução mais fácil foi o número infinito de lugares que muito erroneamente tem o nome de mosteiros, embora não haja observância monástica.

Sabeis que meros seculares, sem nenhuma experiência, sem nenhum afeto pela vida regular, dão dinheiro ao rei e compram-lhe terras, com o pretexto de aí fundar mosteiros e fazem-lhe garantir a propriedade a seus herdeiros, por cartas reais, confirmadas pelos bispos. Lá vivem eles com toda sorte de licença, conservam suas mulheres e filhos e reúnem sob o nome de monges, os que por sua indocilidade são expulses dos verdadeiros mosteiros e aí se podem entregar à devassidão; ou aceitam vagabundos ou seus vassalos, aos quais dão o hábito e os obrigam a lhes prometer obediência. Pretendem estar todos juntos, abades e governadores de províncias ou oficiais do rei e dão às suas mulheres tais mosteiros, para governar. Seria, então, um grande bem empregarem-se utilmente essas terras, ocupadas por gente que só causa escândalo e são, pelo menos, inúteis à Igreja e ao reino. Vimos que, desde o século precedente, havia na Espanha desses falsos mosteiros, sem disciplina, de que se queixava São Frutuoso de Braga.

Beda diz que esse abuso reinava na Inglaterra havia mais ou menos trinta anos. E, continuando a dar seus avisos ao Bispo Egberto, exorta-o a mandar instruir cuidadosamente o povo na fé e nos costumes; a mostrar quanto é necessária a comunhão frequente, como se faz na Itália, na Gália, na África, na Grécia e por todo o Oriente. Mas, acrescenta, os leigos de nossa província estão quase todos tão afastados dessa devoção, que o mais piedoso comunga somente no Natal, na Epifania e na Páscoa, embora haja uma infinidade de pesscas de vida muito pura, de todas as idades e sexos, que, sem nenhuma dificuldade, poderiam comungar todos os domingos e nas festas dos apóstolos e dos mártires, como vistes fazer-se em Roma. Mesmo as pessoas casadas fá-lo-iam de boa mente, se se lhes mostrassem os limites da continência, isto é, se se lhes ensinasse por quanto tempo devem guardar a continência, para se prepararem para a comunhão, pois este último ponto era antigamente um preceito, como vemos em vários concílios.

O não uso é apenas conselho, mas é um conselho cuja prática São Carlos Borromeu queria que se recomendasse fortemente aos fiéis.

O venerável Beda morreu no mesmo ano, 735, na idade de sessenta e três anos, no seu mosteiro de Jarou. Eis como um de seus discípulos narra sua morte a outro. "Cuthberto a Cuthwin, seu bem amado condiscípulo em Jesus Cristo, saudação eterna em Nosso Senhor. Recebi com prazer o pequeno presente que me quisestes enviar. Vossa carta me causou igualmente grande satisfação, pois vim a saber o que ardentemente desejava isto é: que tendes o cuidado de rezar e de celebrar missas por Beda, verdadeiro servo de Deus, nosso bem-amado pai e mestre. Também por amor dele, eu vos mando em poucas palavras uma relação da maneira como saiu deste mundo, relação que compreendi que desejais e esperais de mim".

"Foi tomado de grande dificuldade em respirar, sem todavia sentir dor alguma, mais ou menos duas semanas antes da ressurreição do Senhor. Ficou nesse estado, conservando a hilaridade ordinária e dando graças a Deus, noite e dia, mesmo a todas as horas, até à festa da Ascensão do Senhor, no dia 26 de maio. Depois de nos ter dado as aulas segundo o costume, empregava o resto do dia em cantar salmos. Passava mesmo todas as noites na alegria e em ações de graças, interrompendo esse exercício só para um sono muito curto".

"Quando despertava, punha-se a rezar com as mãos levantadas para o céu. Homem verdadeiramente feliz! Cantava estas palavras de São Paulo: — Há alguma coisa de espantoso, como cair nas mãos do Deus vivo, — e muitas outras passagens da Sagrada Escritura. Como era muito versado na nossa língua, recitava alguma coisa em versos ingleses; essas palavras, por exemplo: Um homem sábio não poderia considerar muito o que fez de bem e de mal antes de sair desta vida. Cantava antífonas, conforme se fazia entre nós; estas, entre outras: — Ó rei da glória, Deus dos exércitos, que subistes hoje, triunfante, acima dos céus! Não nos abandoneis como órfãos sem defesa, mas mandai-nos o Espírito do Pai, o Espírito de verdade que nos prometestes, Aleluia! — Pronunciando estas palavras — Não nos abandoneis como órfãos, — derramava lágrimas e chorava muito. Uma hora depois, repetiu a mesma antífona e nós misturamos nossas lágrimas às suas. Líamos e chorávamos alternativamente, ou melhor, jamais líamos sem chorar".

"Passamos assim o tempo desde o começo de sua doença até à festa da Ascensão. Ele vivia sempre cheio de alegria e não cessava de agradecer a Deus por lhe ter mandado aquela enfermidade. Muitas vezes, repetia esta passagem: — Deus castiga os filhos que ama, — e outras semelhantes. Ouviam-no dizer também palavras de Santo Ambrósio: 'Não vivi de maneira a me envergonhar de viver entre vós, e não temo morrer, porque temos um bom mestre'. Além das lições que nos dava e o canto dos salmos, compôs ainda dois opúsculos dignos de memória: traduziu em nossa língua, para utilidade da Igreja, o Evangelho de São João, fez um resumo dos livros das horas de Santo Isidoro, Bispo. Não quero, dizia a respeito desta última obra, que meus discípulos leiam mentiras, depois de minha morte, nem que se consumam em trabalhos inúteis.

Na terça-feira antes da Ascensão do Senhor, sentiu uma dificuldade de respirar maior que de ordinário. Notaram-lhe os pés um pouco inchados. Passou, entretanto, o dia com hilaridade; ditou na sua aula e dizia de vez em quando: "Apressai-vos; quem sabe se viverei ainda muito tempo e se aquele que me fez, não me levará bem depressa do meio de vós?" Não duvidamos de que não soubesse o momento de sua morte. Passou à noite em ação de graças. No dia seguinte de manhã, isto é, na quarta-feira, disse-nos que escrevêssemos logo o que tínhamos começado. Depois, segundo o que se faz nesse dia, caminhamos com as relíquias até à hora terceira. Então um de nós lhe disse: 'Mestre bem-amado falta-nos ainda um capítulo. Seria incomodar-vos, o fazer-vos novas perguntas?' Não, respondeu ele. Tomai a pena e escrevei bem depressa. O que o discípulo fez. "Às nove horas, ele me disse: 'Tenho alguma coisa preciosa em minha caixa, isto é, pimenta, lenços e incenso. Correi bem depressa e trazei-me todos os padres do mosteiro, a fim de que eu distribua também a eles pequenos presentes, como Deus me deu. Os ricos deste século gostam de dar ouro, prata e outras coisas preciosas. Eu darei a meus irmãos, com muito amor e alegria, o que Deus me tinha dado'. Dirigiu a palavra a cada um, rogando-lhes celebrassem missas por ele, com fervorosas orações; o que lhe prometeram de todo o coração. Todos choravam, particularmente porque tinha dito que não veriam mais seu rosto neste mundo. Mas regozijavam-se ouvindo-o dizer: 'É tempo de que volte àquele que me fez, que me criou, que me formou do nada. Vivi muito tempo; o juiz previu minha vida em sua misericórdia. O tempo de minha libertação aproxima-se, pois desejo ser libertado e reunir-me a Jesus Cristo, Sim, minha alma deseja contemplar a Jesus, seu rei, em sua glória!'. Ele disse estas coisas e outras, cheio de alegria.

"Àquele discípulo que tinha falado antes, disse-lhe à tarde: 'Mestre querido, há ainda uma sentença que não está escrita. Escrevei-a depressa, respondeu'. Tendo-lhe o discpulo replicado que já o fizera, ele acrescentou: 'Dissestes a verdade, tudo está consumado! Segurai minha cabeça em vossas mãos. Quero ter a satisfação de me sentar em frente do oratório onde costumava rezar, a fim de invocar assim, meu Pai'. Foi colocado no chão da cela; depois cantou: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo! Tendo pronunciado estas últimas palavras, isto é, Espírito Santo, entregou o espírito e passou ao reino celeste. Todos os que viram a morte do bem-aventurado padre, diziam jamais ter visto alguém terminar a vida com tanta devoção e tranquilidade; pois, até seu último suspiro, não deixou de cantar: Glória ao Pai e, outras orações espirituais. Eu poderia, meu amado irmão, narrar-vos ainda muitas coisas, mas meu pouco conhecimento da língua me obriga a ser breve."

Com essa cândida modéstia o piedoso discípulo descreve a seu irmão a morte do amável mestre. Beda morreu assim na quarta-feira, 26 de maio de 735, à tarde, depois das primeiras vésperas da Ascensão, cuja festa foi continuar no céu.

.Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos Santos, Tomo XIII

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