Biografia de São Basílio Magno (??/??/317 † 01/01/379) Bispo de Cesaréia na Capadócia Doutor e Padre da Igreja
Descendente de família ilustre, que contava com uma série de heróis célebres, Basílio nasceu em Cesaréia, na Capadócia, na mesma época que São Gregório de Nazianzo, pelo ano de 317. Era o segundo de dez filhos, entre os quais há quatro que a Igreja honra como santos: Basílio, sua irmã Macrina, que era a
primogênita; Gregório, bispo de Nissa; e Pedro, bispo de Sebasta, que era o caçula. Seu pai chamava-se Basílio, e sua mãe Emélia, um e outro contados entre o número dos santos. O pai da santa Emélia havia sofrido o martírio na perseguição de Maximiniano Galério. Na mesma perseguição, os avós paternos de São Basílio, Santa Macrina e seu marido sofreram o exílio durante sete anos nas florestas do Ponto, expostos às intempéries do tempo e aos sofrimentos da fome, eles que haviam sido educados nas riquezas. Pediram a Deus para aliviá-los, como havia socorrido seu povo no deserto, e imediatamente lhes enviou uma quantidade de cervos, da qual tomaram quantos queriam. Tais eram os antepassados de Basílio.
Sua avó, Santa Macrina, era originária de Neocesaréia no Ponto, e havia sido instruída na fé por São Gregório, o Taumaturgo. Tinha aproximadamente sessenta e seis anos, quando o neto veio ao mundo. Este lhe foi enviado desde pequeno. Ela serviu-lhe de ama e procedeu à sua primeira educação. Instruiu-o sobretudo nos dogmas da fé, usando dos mesmos termos que São Gregório, o Taumaturgo, havia empregado para ensiná-la. São Basílio disso se gloriava, como grande benefício de Deus. Seu pai, que residia habitualmente no Ponto, e que era ornamento desta província, tanto por sua piedade corno por sua
eloqüência, quis ser ele próprio o primeiro mestre nas letras sagradas e profanas; parece que ele ensinava publicamente a retórica e a filosofia. Seu filho era bem feito de corpo, e de uma saúde robusta; todavia, caiu gravemente enfermo, enfermidade de que o curou a piedade do pai. O pai continuou a servir-lhe de professor até a morte, que chegou pouco* após o nascimento do último filho, São Pedro de Sebasta. O jovem Basílio foi, então, enviado a Cesaréia da Capadócia, ou talvez da Palestina. Distinguiu-se entre os de sua idade pela rapidez de seus progressos. Atraiu para si ao mesmo tempo, por sua regularidade e fervor, a admiração de todas as pessoas de suas relações. Os mais hábeis mestres de Cesaréia não mais tinham a ensinar-lhe, o que o fez voltar a Constantinopla, onde Libânio dava lições públicas com aplauso universal. Pouco antes, distinguiu Basílio entre os seus ouvintes. Não podia deixar de admirar nele as felizes disposições para as ciências, aliadas à modéstia rara e virtude extraordinária. Disse, em suas epístolas, que se sentia como que arrebatado fora de si mesmo, todas as vezes que ouvia Basílio falar em público. Manteve sempre correspondência com ele, não cessando de dar-lhe mostras de alta estima e veneração profunda que havia concebido por seu mérito.
Enfim, de Constantinopla, Basílio foi a Atenas. A reputação havia-o precedido; seu nome estava na boca de quase todos, cada qual querendo ter a felicidade de conhecê-lo por primeiro. O amigo Gregório de Nazianzo, que havia atraído a estima e afeição universais, havia-lhe conciliado de antemão todos os espíritos. Basílio, por outro lado, tinha a gravidade de um ancião. Teve isenção das cerimônias burlescas, a que submetiam os calouros. Atenas, com todas as suas vantagens, não correspondeu à expectativa de Basílio. A amizade por Gregório ali o retinha. Comunicaram-se os pensamentos mais íntimos, o desejo que tinham da perfeição cristã. Permaneceram juntos, tinham mesa comum, não
freqüentavam senão os companheiros mais castos e pacíficos. Conheciam somente duas ruas na cidade: a que conduzia à igreja e aos doutores que ali ensinavam a fé; e a que conduzia às escolas públicas e aos mestres que ensinavam as ciências humanas. Deixavam aos outros as ruas pelas quais se ia ao teatro, aos espetáculos e aos divertimentos profanos. A santificação constituía sua grande preocupação; único objetivo era ser chamado e ser efetivamente cristão. Nisto faziam consistir toda a glória.
Primeiros na piedade, não foram menos primeiros nas ciências e nas letras. Na retórica, poesia, filosofia, dialética, Basílio juntava o estudo da geometria, da astronomia, contanto que fosse necessário não ser inferior aos mais hábeis. Por causa das enfermidades que lhe ocasionou a vida austera e mortificada, acrescentou o estudo da medicina, ao menos no que ela tem de mais filosófico. Enfim, quem ler seus escritos, sobre a criação, reconhecerá sem dificuldade que tinha sobre a história natural ideias mais justas e extensas do que Aristóteles. Tantas ciências e virtudes despertaram a admiração a tal ponto, que por toda parte em que se falava de Atenas e de seus hábeis mestres, falava-se da maravilhosa dupla de amigos, Basílio e Gregório, Gregório e Basílio.
Apenas regressando de Atenas para Cesaréia na Capadócia, Basílio foi constrangido por seus compatriotas a abrir ali um curso público de eloqüência. A cidade de Neocesaréia, no Ponto, enviou-lhe uma deputação de senadores, com as mais brilhantes ofertas, se quisesse presidir à educação de sua juventude. Outro propósito ocupava o grande homem: abraçar a vida monástica. Formulara o projeto com o amigo Gregório; sua irmã Macrina a isso o exortava por seu lado. Vendeu os bens, dando o preço aos pobres. Gregório havia prometido segui-lo em seu retiro; mas pelo momento, estava impedido pela piedade filial: a mãe estava gravemente enferma. Então, em 357, Basílio dispôs-se a visitar os mosteiros do Oriente e do Egito. Neste último país floresciam São Pacômio, os dois Macários e diversos outros.
Viu em Alexandria personagens mui santas, outras na Palestina, na Síria e na Mesopotâmia; admirou-lhes a vida igualmente austera e laboriosa, o fervor e aplicação na prece. Mas o prazer que sentia ao ver esses santos solitários, que, invencíveis nas necessidades da natureza, mantinham sempre o espírito elevado para Deus, impregnou-se de tristeza, ao verificar a divisão e a cizânia que reinavam então entre os bispos e os males que os arianos infligiam aos católicos. A pureza de sua fé não sofreu nenhuma alteração durante as viagens; tomou sempre por pais e por guias da alma aqueles cuja fé encontrava conforme à fé que havia sugado com o leite materno.
De volta a Cesaréia, foi ordenado leitor por Dianeu, seu bispo. Mas querendo pôr em prática as virtudes que vira em suas viagens, retirou-se ao Ponto, para uma montanha, às margens do rio Íris, que, nascendo na Armênia, atravessa toda a província do Ponto. Na outra margem, situava-se a casa de campo em que Basílio havia sido educado, e o mosteiro de freiras, construído por Santa Emélia, sua mãe, e Santa Macrina, sua irmã. São Basílio havia pensado em escolher o seu retiro em Tiberina, na diocese de Nazianzo, esperando que o amigo ali viesse ter com ele. Enganado na esperança, determinou ir para a solidão do Ponto. Foi o primeiro a introduzir nessa província e na Capadócia a vida cenobítica ou de comunidade. Havia anacoretas que permaneciam sós, aplicando-se unicamente à vida contemplativa; outros ascetas se uniam em grupos de dois ou três, nas aldeias e vilas, levando uma vida mais ativa e misturando-se com o mundo. Tais eram os discípulos de Eustáquio de Sebasta. Basílio tomou um meio termo entre os dois, reunindo a contemplação de uns à ação dos outros, a prece e oração ao estudo das santas letras e ao trabalho manual, sem por isso deixar o retiro. Isso transuda de cartas dos dois santos. Correspondiam-se
amiúde; cartas ora sérias, ora jocosas; porque seu grande gênio e sua austera santidade não os impedia de ter um espírito vivaz e agradável.
Nas regras que São Basílio, em conjunto com o amigo, dirigiu, aos monges, ele os chama filósofos, e seu estado filosofia. São Crisóstomo e vários outros usam da mesma linguagem. Por mais estranha que nos pareça esta acepção das palavras filosofia e filósofos, é todavia conforme à filosofia divina. Ouvimos Sócrates e Platão dizer-nos que a filosofia consiste na meditação da morte, a fim de desprender a alma dos liames terrestres e elevá-la às coisas intelectuais e estas a Deus, o soberano Ser, a soberana inteligência, o sumo bem; finalmente, que a verdadeira filosofia consiste em tornar-se semelhante a Deus pela prática da virtude, em amá-Lo acima de todas as coisas e em ser amado. Ora, eis toda a vida cristã, e, mais ainda, eis toda a vida monástica. Nisto ela tem por modelo a própria sabedoria; não uma sabedoria abstrata, puramente ideal, mas a sabedoria real e viva, a sabedoria eterna e divina, revestida da natureza humana, para que fique mais ao nosso alcance e nos torne mais fácil a semelhança com Deus. Numa palavra, segundo a idéia mesma que nos transmitem Sócrates e Platão, a filosofia, ou o amor da sabedoria consiste em última análise na imitação de Cristo. Ora, é o que se propõem fazer os monges, observando, não somente os seus preceitos, mas ainda os seus conselhos. E seus votos e regras não tendem senão a este fim: o voto da pobreza, para desprendê-los de todos os bens terrenos; o voto da castidade, para desprendê-los do próprio corpo; o voto da obediência, para desprendê-los de sua própria vontade, vale dizer, deles mesmos, a fim de uni-los a Deus
somente. As regras não são mais que uma aplicação dessas leis gerais, ao sabor das circunstâncias de tempo, lugar e pessoas. Quanto à sabedoria que ali reina, pode-se julgar pelo que dizem os filhos que se recebem nos mosteiros.
Como o Senhor disse: Deixai vir a mim as crianças, e o apóstolo louva aquele que aprende as santas letras desde sua infância, e ordena que se eduquem as crianças nos preceitos e na moral do Senhor, pensamos que se podem receber, com qualquer idade, os que se apresentarem: primeiramente os que estão privados de seus pais, que recolheremos pessoalmente, para tornar-nos a exemplo de Jó, os pais dos órfãos; em seguida os que os pais nos trouxerem e que receberemos em presença de muitas testemunhas, a fim de não propiciar qualquer pretexto ao que procura e tampar a boca dos caluniadores. Após havê-los recebido dessa maneira, não é necessário colocá-los logo em seguida no número dos irmãos, a fim de que não caia o opróbrio sobre a casa piedosa, se vierem a agir mal. É mister, sem dúvida, proporcionar-lhes uma educação inteiramente religiosa, como aos filhos da comunidade, mas conceder-lhes um alojamento e um regime à parte. A
freqüência habitual dos adultos lhes inspiraria por estes uma familiaridade e uma ousadia excessivas, enquanto uma
freqüência mais espaçada os conservará no respeito; ademais, se vissem os mais perfeitos punidos algumas vezes por negligências, seriam levados a cometer as mesmas faltas, ou orgulhar-se de ficar isentos, enquanto os adultos nelas incidem. Porque aquele que é criança pela inteligência não difere do que o é pela idade; os mesmos defeitos se encontram
freqüentemente em um e outro. Enfim, há coisas decentes aos anciãos, que se deve evitar sejam imitadas pelas crianças antes do tempo.
É mister, pois, que suas habitações sejam separadas. Assim, os exercícios necessários à juventude não turbarão o retiro dos ascetas. Quanto às orações que se fazem durante o dia devem ser feitas em comum. Os jovens aprenderão a recolher-se pelo exemplo dos anciãos, e estes não pouco serão ajudados na prece pelas crianças. No que tange ao sono, às vigílias, ao tempo, à medida e qualidades dos alimentos, é necessário regulá-los de acordo com a sua idade. Para governá-los, é mister dar-lhes um ancião, que aos outros supere em experiência e seja conhecido pela sua doçura, a fim de poder, com as entranhas de pai e a linguagem da ciência, corrigir as faltas dos jovens, aplicando a cada qual o remédio adequado, de sorte que, punindo a falta, exercite a alma a vencer as paixões. Por exemplo, uma criança está irritada contra o seu companheiro? Obrigue-se a pedir desculpas e prestar-lhe serviços, na proporção de sua raiva; porque habituá-los a humilhar-se é desarraigar a cólera de sua alma, atendendo a que, o mais das vezes, é o orgulho que engendra a cólera. A criança comeu fora de hora? Que jejue uma boa parte do dia. Comeu além das medidas e de uma maneira indecente? Que, na hora do repasto, ficando ele sem comer, veja como os demais comem decente mente, de sorte que seja punido pela abstinência e aprenda a honestidade. Proferiu uma palavra ociosa, uma injúria contra o próximo, uma mentira? Seja corrigido pela dieta e pelo silêncio.
É mister também que o estudo das letras seja adequado ao fim proposto. Assim, sirvam-se eles de palavras tiradas da Sagrada Escritura; que, em lugar das fábulas, lhes sejam narrados os fatos maravilhosos; que aprendam o sentido dos provérbios; que lhes proponham prêmios de memória, tanto para as palavras como para as coisas, a fim de que cheguem ao objetivo sem tristeza, sem que nada as aflija, mas com prazer e como que em recreio. Quanto à atenção do espírito e ao hábito de não se deixar perder, as crianças bem educadas adquiri-lo-ão sem dificuldade, se os mestres lhes indagam
freqüentemente onde está o seu espírito e em que pensam. A simplicidade de sua idade, que não conhece o artifício, que não é dada à mentira, revelará, sem dificuldade, os segredos de sua alma; a isso acrescentai que, para não ser sempre surpreendido em coisas inconvenientes, evitarão nisto pensar, e se empenharão para furtar-se à confusão de uma reprimenda.
Enquanto a alma é ainda tenra e, como cera mole, recebe facilmente as impressões, é mister, aplicá-la desde o início em tudo o que é bem, a fim de que, quando a razão e o discernimento vierem, seja possível partir de elementos predispostos e de impressões religiosas já recebidas, e prover a sua carreira, sugerindo à razão o que é útil, e o hábito proporcionando-lhes a facilidade em fazê-lo bem. Então se pode admitir a profissão da virgindade como estável e feita por sua determinação e seu julgamento próprio, após o completo desenvolvimento da razão. É necessário tomar como testemunhas desta ação os prelados das igrejas, a fim de que, para eles, a consagração do corpo seja como que a dedicação de uma coisa sagrada, e seu testemunho nela coloque como que um selo; porque, dizem, toda causa se decidirá pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Desta maneira ainda, o comportamento dos irmãos não estará exposto à calúnia, e os que, após serem consagrados a Deus, quiserem anular a sua profissão, não encontrarão pretexto para a sua impudência. Quanto ao que não quiser viver na virgindade, como não se sentindo capaz de ocupar-se unicamente do que é do Senhor, é preciso despedi-lo em presença das mesmas testemunhas. Com respeito ao que, após muitos exames e reflexões, convém deixá-lo fazer em particular durante vários dias, a fim de não darmos a impressão de fazer as coisas com açodamento: quanto àquele que assim fez a profissão, é necessário admiti-lo ao número dos irmãos, no mesmo alojamento e no mesmo regime que os mais velhos.
São Basílio acrescenta uma circunstância que ia esquecendo: quando as crianças chegavam à idade de aprender uma arte ou ofício, porque nos mosteiros todos o aprendiam, era-lhes permitido ficar com os mestres mas de noite, bem como nas refeições, deviam encontrar-se, sem apelação, com os seus camaradas.
Entre os diversos ofícios e artes, tais como arquitetura, agricultura, fiação, São Basílio prefere geralmente os que, segundo as localidades, dissipam menos e se projetam menos no mundo, seja pela abundância dos materiais necessários, seja pela venda das obras. Estipula mesmo regras para conduzir-se de maneira edificante, quando os monges eram obrigados a ir ao longe para vender as obras nos mercados públicos.
Os dois amigos, Gregório e Basílio, foram ordenados sacerdotes, contra a sua própria vontade, em 361 e 362 um por seu pai, bispo de Nazianzo, outro por Eusébio, bispo de Cesaréia da Capadócia. Os tempos tornavam-se mais difíceis. O imperador Valente, acompanhado dos bispos arianos, que o dominavam, percorria as províncias, para perseguir os católicos. Em 370, chegou a Capadócia, com a sua comitiva herética: os arianos contavam ali ser bem sucedidos, sobretudo por causa do desentendimento havido fazia pouco entre Eusébio de Cesaréia e São Basílio, razão pela qual este último se retirara para a sua solidão do Ponto. Mas à vista do perigo da fé, seu amigo Gregório o havia reconduzido à Capadócia. Valente, ao passar por Cesaréia, empregou todos os meios para conquistá-lo. Ameaçou-o, bajulou-o, prometendo-lhe o seu favor e mesmo o governo da Igreja. São Basílio, pelo contrário, exortou-o, a ele e aos que o acompanhavam, a cair em si e fazer penitência, cessando de perseguir os servos de Deus, contra os quais seus esforços eram inúteis. Longe de conservar qualquer ressentimento contra o bispo Eusébio, a ele se uniu para combater os inimigos comuns. Fez cessar todo escândalo e toda cizânia entre os católicos; enfim, tão potentemente agiu que o imperador e os bispos arianos foram obrigados a ir-se sem nada fazer. Seu amigo, Gregório de Nazianzo, muito contribuiu para essa vitória.
Neste mesmo ano de 370, grassou uma fome extraordinária. São Basílio teve a glória, não somente de servir os pobres com suas próprias mãos, mas ainda de abrir com sua
eloqüência os corações e os celeiros dos ricos. Perdeu, por esse tempo, dois amigos, Musônio, bispo de Neo-cesaréia, no Ponto, e Atanásio de Ancira, na Frígia, dos quais fez o maior dos elogios. Uma perda ainda mais sensível ao seu coração foi a de sua mãe Santa Emélia. Morreu ela em idade avançada, no mosteiro onde se havia recolhido com a filha Macrina. Consigo não tinha senão dois de seus filhos, Santa Macrina, a primogênita, e São Pedro, depois bispo de Sebasta, décimo e o último. Estando eles ao lado de seu leito, ela os tomou pelas mãos, e disse: Senhor, ofereço-vos, segundo vossa lei, as primícias e o dízimo das minhas entranhas.
Ela foi enterrada com o seu esposo, na igreja dos Quarenta Mártires, a um quarto de légua do mosteiro.
Morto Eusébio de Cesaréia, pouco após a visita do imperador Valente, São Basílio foi eleito o seu sucessor.
É mister ver na história da Igreja os trabalhos do novo bispo para manter a fé em sua diocese e em todo o Oriente, contra a heresia dos arianos e de outras seitas. O remédio principal que ele via para os males do Oriente era a união dos bispos principais, incluindo Santo Atanásio, aos do Ocidente, que gozavam da paz, mas sobretudo ao papa, a fim que este enviasse ao Oriente homens revestidos de sua autoridade, para pôr os católicos de acordo entre si e reconciliar os dissidentes. O que aconteceu a São Basílio, em 371, é uma prova do triste estado em que se encontravam as igrejas do Oriente.
Inflado por seus êxitos contra os godos, Valente pretendia fazer do arianismo uma lei para todo o império. Havia já atravessado a Bitínia e a Galácia, onde pilhara a seu bel-prazer. Queria atemorizar Basílio e levá-lo a ceder. No outono de 371, na festa do mártir Eupsíquio, que atraía numerosa multidão, chegaram a Cesaréia diversos arianos, a fim de espiar palavras e ações do arcebispo, e encontrar qualquer pretexto para levá-lo ao exílio. Entre eles havia um bispo chamado Evípio, venerável pelos cabelos brancos, afamado pela ciência e antigo amigo de Basílio. Nada obstante, Basílio recusou comunicar-se com ele, e escreveu a seu amigo Gregório de Nazianzo para que viesse assisti-lo nos combates que tinha de sustentar. Com efeito, para conquistá-lo ou vencê-lo, enviaram-lhe diversas pessoas da corte, juizes e generais, eunucos, e em particular o intendente das cozinhas imperiais, chamado Demóstenes. Tudo foi inútil: Basílio mandou o último de volta ao fogo de suas cozinhas.
Entretanto o imperador, antes de vir a Cesaréia, havia mandado o prefeito do pretório, Modesto, com ordem de obrigar Basílio a entrar em contacto com os arianos ou expulsá-lo da cidade. Trata-se do mesmo Modesto que fizera queimar no mar os oitenta deputados do clero de Constantinopla. Mandou Basílio apresentar-se ao seu tribunal, com todo o aparato de sua dignidade, a maior do império: litores com seus feixes de varas, proclamadores e altos funcionários. Chamou-o simplesmente pelo nome, e lhe disse: Basílio, que queres dizer, resistir a tal poder e ser o único temerário? A propósito de que, respondeu Basílio, e qual é esta temeridade? Porque, disse Modesto, não pertences à religião do imperador, mesmo depois que todos os outros cederam. Basilio retrucou: É que meu imperador não quer, e não posso resolver-me a adorar uma criatura, eu que sou criatura de Deus, e a quem ele ordenou ser um deus. Modesto replicou: E por que nos tomas? Por nada, respondeu Basílio, tanto que sois vós que comandais estas coisas. Modesto redarguiu: Mas não tendes em nada a nossa amizade? Basílio respondeu: É verdade que sois prefeitos e pessoas ilustres; mas nem por isso devo respeitar-vos mais do que a Deus. Muito vale a vossa amizade, uma vez que sois suas criaturas; mas é como ter a das pessoas que vos obedecem; porque não são as condições sociais e hierárquicas que caracterizam os cristãos, mas a fé. O prefeito Modesto levantou-se, em cólera, e exclamou: Como? Não temes que não mais me contenha e te faça sentir um dos efeitos do meu poder? Qual é? replicou Basílio. Faze-mo conhecer. Modesto respondeu: A confiscação, o exílio, os tormentos, a morte! Faze-me ameaça de outro gênero, disse Basílio; nada disto tudo me diz respeito. Como? gritou Modesto. Porque,
redargüiu Basílio, aquele que nada tem está a salvo da confiscação; se é que não tens necessidade destes andrajos e de alguns livros que são toda a minha vida. Não conheço o exílio e não estou circunscrito a nenhum lugar; não considero meu o país que habito, e considerarei meu, qualquer país a que for lançado; ou melhor, considero todo país sendo de Deus, de quem sou hóspede e peregrino. Que me farão os tormentos, uma vez que não tenho corpo? A menos que não faleis do primeiro golpe; porque não há senão aquele que está em vosso poder. A morte será uma graça, uma vez que me levará a Deus, pelo qual vivo e trabalho, para o qual, mais do que meio morto, corro há longo tempo.
Impressionado com esse discurso, disse o prefeito: Ninguém ainda falou a Modesto com tanta audácia! Basílio respondeu: Talvez jamais hajas encontrado um bispo, pois, em semelhante ocasião, ter-te-ia falado nos mesmos termos. De resto, não somos dos mais doces e dos mais submissos de todos os homens, porque isto nos é ordenado. Não somos orgulhosos para com o menor particular, bem longe de o ser com tal potência; mas quando se trata de Deus, não consideramos senão a Ele somente. O fogo, os gládios, as feras, as garras de ferro se nos apresentam como delícias. Assim, maltratai-nos, ameaçai-nos, usai do vosso poder: o imperador deve saber que vos excedereis. Vendo Basílio invencível, o prefeito falou-lhe mais honestamente. Considerai algo notável, disse, ver o imperador no meio do vosso povo e entre o número de vossos ouvintes. Não se trata senão de tirar no símbolo a palavra consubstancial. Basílio respondeu: Considero uma grande vantagem ver o imperador na Igreja; sempre é muito salvar uma alma; mas, quanto ao símbolo, longe de tirar ou acrescentar-lhe algo, não tolerarei mesmo que se mude a ordem de suas palavras. Modesto intrometeu-se para dizer: Concedo-te à noite para refletir. Basílio retrucou: Serei amanhã tal qual sou hoje.
O prefeito Modesto mandou São Basílio embora e foi, com pressa, encontrar o imperador, ao qual disse: Senhor, somos vencidos invariavelmente por este bispo: está acima das ameaças e das bajulações: dele nada se consegue, senão pela força. O imperador, admirando tão grande coragem, proibiu que lhe fizessem qualquer violência; não podendo resolver-se abraçar-lhe a religião, não deixou de aceitá-la exteriormente, indo às igrejas. No dia de Epifania, seis de janeiro de 372, entrou na igreja, acompanhado dos guardas, misturando-se ao povo católico. O canto dos salmos, a numerosa afluência de povo e a ordem que reinava no santuário e nos arredores, os ministros sagrados, mais parecendo anjos do que homens, São
Basílio diante do altar, com o corpo imóvel, o olhar fixo, o espírito unido a Deus, como se nada de extraordinário houvesse acontecido, os que o rodeavam cheios de temor e de respeito, tudo aquilo constituiu para ele um espetáculo novo, a ponto de a cabeça lhe rodar e a vista se lhe obscurecer. A princípio não o notaram; quando foi necessário levar à santa mesa sua oferenda, vendo que ninguém a, recebia, segundo o costume, porque não se sabia se;
Basílio queria aceitá-la, seu corpo oscilou de tal sorte que, se um dos ministros do altar não o houvesse segurado pela mão, teria tombado vergonhosamente. Em ocasião semelhante, o papa Libério recusou os presentes de Constâncio:
Basílio aceitou a oferenda de Valente. É que Constâncio pretendia corromper Libério, enquanto Valente, já abrandado, não queria senão dar um testemunho público de veneração pelo santo bispo de Cesaréia.
Outra vez o imperador veio ainda participar, de alguma maneira, da assembléia dos fiéis; e, por ordem ou com a permissão de São
Basílio, entrou na sacristia, onde longamente se entreteve com ele, como desejava desde longo tempo. São Gregório de Nazianzo estava presente e atesta que São
Basílio falou de maneira divina, a julgamento de todos os que o ouviam. Na comitiva do imperador estava o intendente de suas cozinhas, Demóstenes, que, querendo fazer uma censura a São
Basílio, cometeu um barbarismo. Como, disse sorrindo São Basílio, um Demóstenes que não sabe gramática! Demóstenes, irritado, fez-lhe ameaças; mas o santo lhe disse: Metei-vos com vossas carnes e vossos molhos, que é este o vosso ofício; quanto às coisas de Deus, tendes os ouvidos muito entupidos para entendê-las. Valente ficou tão satisfeito com as palavras de São Basílio, que se tornou mais humano para com os católicos. Concedeu até belas terras, nas vizinhanças, para a construção de um asilo para leprosos. O que contribuiu particularmente para abrandá-lo foi ver o santo arcebispo ocupado em construir um grande hospital, ou casa dos pobres, num dos bairros de Cesaréia.
Mas os arianos que obsedavam o imperador, não tardaram em dominá-lo. Persuadiram-no a novamente instar com
Basílio para que entrasse em sua comunhão, ou bani-lo, se recusasse. Ele recusou, com efeito, e tudo já estava disposto para fazê-lo partir, quando Valentiniano Galata, filho único e ainda jovem de Valente, foi assaltado por uma febre tão violenta que desesperaram de salvá-lo. Na mesma noite, a imperatriz Dominica, sua mãe, foi inquietada por sonhos aterradores e atormentada por dores agudas. Fez ela ver ao imperador que todos estes incidentes eram uma punição divina. A criança estava tão mal que os médicos não encontravam remédio para a cura: recorreu-se às preces e o imperador, prostrado por terra, pedia a Deus a sua conservação. Por fim, enviou pessoas, que lhe eram mais íntimas, a São Basílio para que este acudisse prontamente; desde que entrou no palácio, o mal da criança diminuiu imediatamente: a esperança voltou ao palácio e São Basílio prometeu obter a cura, desde que lhe fosse permitido ensinar-lhe a doutrina cristã. O imperador aceitou a condição. Basílio pôs-se em oração, e a criança curou-se. Em seguida, porém, Valente cedeu aos arianos; e, lembrando-se do juramento que havia feito no seu batismo pelas mãos de Eudóxio, permitiu-lhes batizassem o filho, que tombou enfermo e morreu pouco após.
O golpe levou São Basílio ao exílio; mas isso não modificou a má vontade dos arianos. Dirigiram-se ainda a Valente e fizeram ver-lhe que a sua doutrina não faria progressos enquanto aquele vivesse. Significava pedir a morte do santo; mas Valente contentou-se em fazê-lo banir. Levaram-lhe a sentença para que a subscrevesse. Ele pediu um dos pequenos estiletes de que se serviam então para escrever; mas o estilete rompeu-se, como que se recusando a perpetrar a
iniqüidade. Pediu um segundo e ainda um terceiro, que também se romperam. Enfim, obstinando-se em sua sentença ímpia, sentiu a mão agitar-se extraordinariamente, e, tomado de pavor, rasgou o papel, revogou a ordem e deixou Basílio em paz. O prefeito Modesto foi vencido de maneira diferente. Tendo caído enfermo, algum tempo após, pediu a São Basílio que viesse vê-lo e rogou-lhe o auxílio de suas preces com humildade, sarou, com efeito, publicou a obrigação que lhe devia, e tornou-se-lhe amigo.
O governador da província do Ponto, chamado Eusébio, tio da imperatriz Dominica, e ariano, como ela, perseguiu São Basílio por causa de uma viúva ilustre que um assessor desse magistrado queria desposar por força. Ela refugiou-se na igreja, perto da mesa sagrada; o governador pediu-a, e São Basílio recusou-se a entregá-la. O governador, furioso, enviou seus oficiais para procurá-la até no quarto do santo bispo, e isso unicamente para fazer-lhe afronta: porque o sabiam tão afastado das relações com mulheres, que estas nem sequer ousavam olhá-lo. O governador foi além: ordenou-lhe que trouxessem Basílio para defender-se, perante ele, como um criminoso. Assentado em seu tribunal, com São Basílio defronte, em pé, ordenou que lhe arrancassem o andrajo que lhe servia de manto. São Basílio disse: Despojar-me-ei eu mesmo de minha túnica, se o quereis. O governador ordenou que lhe rasgassem as carnes com garras de ferro e o açoitassem. São Basílio disse: Se me arrancardes a vida de uma vez, faz-me-eis um grande bem; bem vedes que não me afeta. Entretanto, o rumor do que se passava se havia espalhado pela cidade, e todos acorreram para arrancar o bispo do perigo em que se encontrava, e vingar a injúria que lhe faziam. Os que trabalhavam na manufatura de armas e munições eram os mais ardentes e ousados. Cada qual se armava de um instrumento de seu ofício, ou do que encontrava à mão. As mulheres armaram-se defusos. O povo, enfurecido, procurava o governador para dilacerá-lo, de sorte que, nesses extremos, ele se viu reduzido a suplicar, por sua vez, a pedir humildemente compaixão, e foi São Basílio, que, com sua autoridade, lhe salvou a vida. Os novos deputados de São Basílio e das demais igrejas do Oriente haviam voltado de Roma, em 376, relatando-lhe como todo o Ocidente estava unido e
tranqüilo, como todo o Ocidente os amava e procurava auxiliá-los. São Basílio enviou, logo em seguida, diversas cartas para anunciar, por toda parte, a feliz notícia.
Era na época em que Valente, encontrando-se livre, com a morte do irmão, perseguia com violência redobrada a doutrina católica. Como soubesse que os monges
constituíam um dos seus mais fortes esteios, fez uma lei que obrigava fossem eles constrangidos ao porte de armas. Enviaram-se tribunos com tropas para as solidões do Egito, onde morreu grande número de solitários. Tais violências se estenderam às outras províncias, particularmente à Síria, onde, imediatamente após a Páscoa de 376, os perseguidores atacaram as suas celas, queimando os seus trabalhos e pondo-os em fuga. São Basílio esperava que os fugitivos fossem ter com ele, como a um asilo que lhes estivesse preparado de antemão, e que tivesse, assim, a consolação de abraçá-los, de participar do mérito de seus sofrimentos e consolar-se das dores contínuas que sofria. Vendo frustrada a expectativa, escreveu duas cartas, não tanto para consolá-los como para felicitá-los, e recomendar-se-lhe às preces, mas sobretudo para recomendar-lhes a paz das igrejas, que não desesperava de ver em breve restabelecida. Uma destas cartas foi levada pelo sacerdote Santíssimo, o mesmo que regressara de Roma e trouxera notícias tão consoladoras.
A perseguição principiou a cessar e a paz a restabelecer-se por meios inesperados. A Providência encarregou disso os hunos e os godos. Os povos, que destinava à execução de sua justiça contra o império idólatra de Roma, chegavam um após outro do fundo da Ásia, e batiam à porta, como o carrasco à porta do condenado. Os godos, impelidos pelos hunos, devastavam a Trácia, em 377 e avançavam até às portas de Constantinopla. Alarmado com a irrupção, Valente cessou de exilar os bispos e os solitários ortodoxos, e partiu enfim de Antioquia, em princípios de 378, como cônsul, pela sexta vez. Imediatamente após a partida, os católicos retomaram coragem em todas as cidades. Pedro de Alexandria acabava de reentrar na sua, regressado que tinha de Roma com cartas de Dâmaso confirmando os decretos de Nicéia ao mesmo tempo que a ordenação de Pedro. São estas exatamente as palavras dos dois historiadores gregos, Sócrates e Sozômeno.
O povo de Alexandria recolocou-o na posse das igrejas e expulsou o ariano Lúcio, que se refugiou imediatamente em Constantinopla para implorar a proteção de Valente, o qual lá chegou em 30 de maio de 378. Mas Valente não teve tempo nem meios de fazer algo. Esse ano deveria ser o último de sua vida. Pereceu, com efeito, com dois terços do exército, em 9 de
agosto de 378, na batalha de Andrinópolis contra os godos. Em lugar do perseguidor Valente, a igreja do Oriente viu, em breve, o piedoso e valente Teodósio. São Basílio não chegou a ver a aurora dessa revolução.
Morreu em 1 de janeiro de 379. Antes de morrer, impôs as mãos a diversos, para ordenar bispos católicos às igrejas de sua dependência. No seu funeral, houve tal afluência de povo, que muitos foram sufocados no açodamento. Cada qual se empenhava em tocar-lhe a borda do hábito, o leito que o conduzia, até sua sombra, julgando obter assim um proveito. Os gemidos abafavam o canto dos salmos: os próprios pagãos e judeus o pranteavam. Toda a terra o chorou como doutor da verdade e liame de paz entre as igrejas. Todos os que com ele haviam convivido, mesmo que somente para servi-lo, se gloriavam de com ele terem falado e recordavam as ações e palavras mais insignificantes. Muitos tratavam de imitar-lhe o exterior, a palidez, a barba, o andar e até os defeitos, como a vagarosidade em falar. Porque estava, o mais
freqüentemente, pensativo e recolhido em si mesmo: o que, mal imitado, degenerava em tristeza. Copiavam-lhe o hábito, o leito, os alimentos, conquanto tudo fosse feito naturalmente e sem afetação. Seus escritos faziam as delícias de todos, até dos leigos e pagãos; eram lidos não somente nas igrejas, senão também em outras
assembléias. Dos muitos panegíricos em honra de São Basílio restam-nos quatro: de São Gregório de
Nissa, seu irmão, de Santo Efrém, de Santo Anfíloco e de São Gregório de Nazianzo. Os de São Gregório de Nissa e Santo Anfíloco foram pronunciados no dia de sua morte, que foi um dia de festa. Santo Efrém muito lastimou a morte de São Basílio e pouco lhe sobreviveu. Para acalmar a dor, compunha, em louvor do amigo, poemas e hinos.
.Fonte: Pe. Rohrbacher, Vida dos Santos, Tomo X.
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