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Biografia de
Santo Anselmo de Cantuária

Arcebispo de Cantuária
Doutor da Igreja
(../../1033 - 21/04/1109)

Santo Anselmo nasceu no ano de 1033, na cidade de Aosta, nos confins da Borgonha e da Lombardia. Maltratado pelo pai, deixou o torrão natal, onde havia começado os estudos com bastante êxito. Depois de ter passado cerca de três anos, parte na Borgonha, parte em França, foi para a Normandia. Atraído pela reputação de Lanfranc, tornou-se seu discípulo e amigo. Como estudava infatigavelmente, ensinando e instruindo os outros, sacrificando o corpo por vigílias, fome e frio, veio-lhe a idéia de que não sofreria menos nas austeridades da vida monástica e não perderia o mérito dos sofrimentos. Retomou, então, o desejo que tinha, desde os quinze anos, de se fazer monge. Pensava em ir para Clugni ou para Bec. « Mas, dizia, tanto em um como em outro, estará perdido o tempo que dediquei aos estudos. Lá não poderei ser útil a ninguém. Em Clugni, por causa da regularidade da observância; em Bec, por causa da grande capacidade de Lanfranc, por quem seria ofuscado ». Um resto de amor próprio o fazia falar assim. Percebendo-o, disse: « Serei monge ou serei estimado e preferido pelos outros? Não, é necessário que entre para um lugar onde seja o mais desprezado, onde seja tomado por nada ».

Consultou Lanfranc e disse a este: « Tenho inclinação por três estados: ser monge ou eremita, viver com meus recursos e servir aos pobres. Rogo-vos que me determineis o caminho a seguir ». Morrera-lhe o pai e todos os bens o esperavam. Lanfranc não quis decidir sozinho. Conduziu-o, então, a Ruão, para lá consultarem o arcebispo Maurílio, que decidiu em favor da vida monástica. Anselmo foi recebido na abadia de Bec, em 1060, com a idade de vinte e sete anos, quando era prior Lanfranc sendo abade Herluíno. Três anos depois, Anselmo foi nomeado prior, para ocupar o lugar de Lanfranc, revestido, então, das funções de abade de Santo Estêvão de Caen. Anselmo dedicou-se, com mais liberdade, ao estudo da teologia e nela fêz tantos progressos, que chegou a resolver questões obscuríssimas, desconhecidas antes mostrando claramente a conformidade das decisões a que chegava com a autoridade da Escritura Santa. Não era menos versado na moral. Conhecia tão bem os costumes de todas as espécies de pessoas que descobria a cada qual os segredos mais ocultos. Mostrava as fontes e os progressos das virtudes e dos vícios, com os meios de os adquirir ou de os evitar. Por isso, dava abundantes conselhos cheios de sabedoria e fazia ferventes exortações.

Quando foi nomeado prior, alguns dos irmãos murmuraram, por ter sido ele o escolhido, uma vez que fizera a profissão havia pouco. Não se defendeu contra eles, a quem, pela paciência e pela caridade, acabou conquistando, mostrando-lhes a pureza das suas intenções. Um jovem monge chamado Osberno, muito dado ao trabalho, mas também de muito espírito de malícia, odiava Anselmo. O santo homem, vendo nele um bom natural, tinha-lhe muita indulgência e suportava-lhes as puericias, tanto quanto podia, sem prejuízo da observância. Assim, pouco a pouco, se fez querido. O jovem começou a dar-lhe ouvidos e a se corrigir. Anselmo, conquistando-lhe a afeição, cortou-lhe as pequenas liberdades que lhe havia concedido e acostumou-o a uma vida mais séria. Este fazia progressos na virtude e dava esperanças de prestar grandes serviços à Igreja. Mas Anselmo teve o desgosto de vê-lo morrer muito jovem, nos seus braços.

Fatigado com a extensão dos encargos, quis deixar o cargo de prior e foi a Ruão consultar o arcebispo Maurílio, o qual lhe disse: « Não procures, meu filho, desencarregar-te do cuidado dos outros. Vi muitos que, tendo renunciado à direção das almas, caíram na preguiça, indo de pior a pior. É por isso que te ordeno, pela santa obediência, que permaneças no cargo e não o deixes senão por ordem de teu abade. Se um dia fores chamado a uma posição mais alta, não te recuses a ocupá-la, porque sei que não ficarás muito tempo mais na atual posição ». Anselmo retirou-se muito aflito e continuou governando o mosteiro, tanto com doçura, como com afeição. Todos lhe queriam como a um pai.

Um abade, que gozava de reputação de piedade, queixava-se um dia, a ele das crianças educadas no mosteiro que ele dirigia. E dizia a Anselmo: « Nós as chicoteamos continuamente, mas elas se tornam piores ».

— E quando são grandes, perguntou Anselmo, como são?

— Estúpidas e bestializadas, respondeu o abade.

—Eis, tornou Anselmo, que bela educação, essa que muda os homens em animais! Mas, dizei-me, senhor abade, se após terdes plantado uma árvore no vosso jardim, a cercais de todos os lados, de sorte que não possa estender a ramagem, não crescerá uma árvore torta, inútil? Contrariando assim as crianças, sem lhes deixar nenhuma Liberdade, fazeis com que alimentem pensamentos obtusos, tortos, que se fortificam, à medida que se obstinam contra vossas correções. Daí, não encontrando de vossa parte nem amizade, nem doçura, não têm confiança em vós e crêem que não agis senão por ódio e por inveja. Esses sentimentos crescem nelas com a idade e a alma se lhes inclina para o vício. E, não tendo sido alimentadas na caridade, olham todo o mundo de través. Dizei-me, não as considerais homens como vós? Quereríeis ser tratado dessa forma, se estivésseis no lugar delas? Para formar uma bela figura de uma lâmina de ouro ou de prata, o operário se contenta com cortá-la a golpes pesados de martelo? Dai pão a uma criança de peito. Sufocá-la-eis! Uma alma forte se compraz nas aflições e nas humilhações e pede por seus inimigos. Uma alma fraca tem necessidade de ser conduzida pela doçura, convidada alegremente à virtude, e suportada caritativamente nos defeitos.

Ouvindo tais palavras, o abade se atirou aos pés de Santo Anselmo, reconheceu que havia errado e prometeu corrigir-se.

Anselmo praticava as máximas por primeiro, e procurava ser amável com todos. A reputação de que gozava se estendeu por toda a Normandia, passou para a França, atingiu Flandres e foi até e Inglaterra. De todos os lados, hábeis funcionários e bravos cavaleiros vinham submeter-se à sua direção e entregar-se a Deus, com os bens que possuíam. O mosteiro crescia, interiormente, em virtudes; exteriormente, em riquezas. O venerável Herluíno, em vista da idade avançada, não podia desempenhar suas funções. Todo o governo do mosteiro recaiu em Anselmo. E, morto o santo abade, foi Anselmo eleito unanimemente, para ser-lhe o sucessor. Fez tudo o que pôde, tanto por argumentos, como por orações, para não aceitar o cargo. Por fim, aceitou-o, determinado principalmente pelo que Maurílio lhe dissera, quando quis renunciar ao cargo de prior. Essa função exercera-a durante quinze anos. Contava quarenta e cinco anos, quando foi eleito abade, em 1078. Recebeu a bênção abacial de Gilberto, bispo de Evreux, no dia da Cadeira de São Pedro, no ano seguinte, ou seja, em 1079. Governou a abadia de Bec durante quinze anos.

Os bens que esse mosteiro possuía na Inglaterra obrigaram Santo Anselmo a por ele passar algumas vezes. Aliás, era ainda atraído a esse mosteiro pela amizade do antigo mestre, Lanfranc. Por toda parte aonde ia, era recebido com calor, tanto nos mosteiros de monges, como nos de cônegos e religiosas, bem como nas cortes dos senhores. Por seu turno, procurava adaptar-se a todos, enquanto lhe permitia a inocência, para poder ter ocasião de dar-lhes instruções convenientes, coisa que fazia, sem adotar, como os demais, um ar doutoral. Não.

Utilizava-se de estilo simples e familiar, empregando razões sólidas e exemplos sensíveis. Estava sempre pronto a dar conselhos a quem lhos pedisse. Quem o ouvisse falar, sentia-se feliz. Os maiores eram os que mais se apressavam a servi-lo. Não havia, na Inglaterra, nem conde, nem condessa, nem pessoa poderosa, que não acreditasse ter perdido o mérito diante de Deus, por prestar um bom oficio ao abade de Bec. O próprio rei, Guilherme o Conquistador, temido do resto dos homens, era tão afável com Santo Anselmo, que parecia transformar-se em outro homem, na presença do santo.

Em meio a tantas ocupações, Santo Anselmo não deixava de ensinar, tanto de viva voz, como por escrito, as matérias mais elevadas, mais profundas, mais difíceis, como a teologia e a filosofia. E tudo isso com justeza, precisão, clareza que lhe mereceram um lugar dos mais distintos entre os Padres e os doutores da Igreja, mesmo entre os que se convencionou chamar de filósofos e metafísicos. Coisa notável: no século dezessete, três homens célebres, Malebranche, Fénelon e Bossuet trataram das mesmas questões ou de problemas análogos. Ora, certamente Malebranche não é igual a Santo Anselmo. E duvida-se que Fénelon e Bossuet o sobrepujem.

O novo rei da Inglaterra, Guilherme o Rúivo, portava-se mais como tirano do que como rei cristão. Quando um bispo ou um abade morria, o rei se apossava de todos os bens da igreja ou da abadia e não permitia que o cargo fosse preenchido, enquanto seus oficiais ainda lá encontrassem algo do que se aproveitar. O bem-aventurado Lanfranc, arcebispo de Cantuária, uma vez morto, em 1089, Guilherme deixou essa grande sede vacante por quatro anos completos, para dilapidar-lhe as rendas. Jurou mesmo que ninguém ocuparia esse arcebispado durante o seu reinado. Mas como falasse por obra do acaso, violenta doença o acometeu. Progredindo continuamente, a moléstia o deixou depauperado. Todos os bispos e os senhores do reino se reuniram e aconselharam-no a pensar na salvação da alma, abrir as prisões e perdoar as dívidas, dar a liberdade às igrejas e poder aos pastores, principalmente ao de Cantuária. O rei estava doente em Gloucester e Santo Anselmo, sem de nada saber, se encontrava numa região vizinha. Foram chamá-lo para assistir ao rei, agonizante. Anselmo lá foi. Pediram-lhe o conselho. Disse ele que o rei deve começar por uma confissão sincera de todos os pecados, e prometer, se recuperar a saúde, reparar de boa fé todos os erros que cometeu. Em seguida, acrescentou, fará o que lhe aconselhastes. O rei concordou, pediu aos bispos que fossem seus defensores diante de Deus e mandou fazer essa promessa em seu nome, sobre o altar. Foi redigido e selado um edito, declarando que todos os prisioneiros seriam libertados, todas as dívidas remidas e as ofensas perdoadas; e que, para o futuro, seriam dadas boas leis ao povo, bem como justiça. Todos louvavam a Deus e pediam pela saúde do rei.

Todavia, propuseram-lhe preencher a vaga de Cantuária. Ele disse que já estava pensando nisso. E, como se procurava uma pessoa digna, foi o primeiro a pronunciar o nome de Anselmo. Todos receberam com aplausos a indicação. Mas Anselmo empalideceu de espanto, e resistiu tanto quanto pôde a ser apresentado ao rei para receber a investidura.

Os bispos o levaram à parte e lhe disseram: « Que pretendes fazer? Por que resistes a Deus? Vês que a religião está quase perdida na Inglaterra por causa da tirania deste homem; e, podendo concorrer com um remédio, não o queres fazer! Em que pensas? A igreja de Cantuária, cuja opressão a todos nós envolve, clama por teu socorro; e sem te inquietares pela libertação dela ou pela tua, não procuras senão o repouso! » Santo Anselmo respondeu:

— Atendei, vos peço, escutai-me. Juro que esses males são grandes e necessitam de remédio; mas já estou velho e incapaz de trabalho exterior (ele tinha sessenta anos). Se não posso trabalhar por mim próprio, como poderei carregar o fardo de toda a igreja da Inglaterra? Por outro lado, sei em minha consciência que, desde que sou monge, sempre fugi dos negócios temporais, porque neles não descubro qualquer atrativo.

Os bispos replicaram:

— Conduzi-nos somente no caminho de Deus; nós nos encarregaremos dos negócios temporais. Santo Anselmo ajuntou:

— O que pretendeis é impossível; sou abade em outro reino, devo obediência ao meu arcebispo, submissão ao meu príncipe, auxílio e conselho aos meus monges. Não posso romper todos esses laços.

— Não se trata de um negócio, replicaram os bispos, todos consentirão facilmente.

— Não, retrucou ele, absolutamente, nada disso se dará.

Levaram-no ao monarca enfermo e lhe fizeram ver a sua obstinação. O rei, sensivelmente aflito, lhe disse:

— Anselmo, que fazes? Por que me envias ao inferno? Lembra-te da amizade que meu pai e minha mãe tiveram por ti e tu por eles, e não me deixes perecer! Porque sei que estou condenado, se morrer conservando este arcebispado.

Todos os assistentes, comovidos com essas palavras, lançam-se sobre Anselmo e lhe dizem com indignação:

— Que loucura te acomete? Fazes morrer o rei, amargurando-o no estado em que se encontra. Sabe que te imputarão todos os crimes e turbulências que assolam a Inglaterra.

Santo Anselmo, assim instado, voltou-se para os dois monges que o acompanhavam e lhes disse:

— Ah, meus irmãos, por que não me socorreis? Um deles respondeu:

— Se esta é a vontade de Deus, quem somos nós para resistir-lhe?

— Eia! disse Santo Anselmo, vós vos rendestes mui prontamente!

Vendo que em nada progrediam, o rei ordenou-lhe que se lançasse ao chão, a seus pés; mas ele se prostrou do seu lado, sem ceder-lhe. Então, acusando-o de covardia, exclamaram:

— Uma cruz, uma cruz! E, tomando-lhe o braço direito, aproximaram-no do leito. O rei lhe apresentou a cruz mas ele fechou a mão; os bispos empenharam-se em abri-la; até fazê-lo gritar; e por fim lhe seguraram a mão com a cruz.

Gritaram:

— Viva o bispo!

Cantaram o Te Deum; levaram Anselmo até a Igreja vizinha, conquanto ele resistisse sempre, dizendo que eles nada faziam. Feitas as cerimônias de praxe, voltou a encontrar o rei e lhe disse:

— Declaro-vos, senhor, que não morrereis dessa enfermidade. Eis porque vos peço ver como podereis reparar o que acabam de fazer-me; porque não aprovei e não aprovo.

Tendo assim falado, retirou-se.

Os bispos reconduziram-no, juntamente com toda a nobreza. Voltando-se, ele falou:

— Sabeis o que pretendeis fazer? Quereis unir, sob um mesmo jugo, um touro indomável e um cordeiro fraco e velho. Que acontecerá? O touro arrastará o cordeiro pelos abrolhos e espinhos, fazendo-o em pedaços, sem que tenha sido útil para nada. O rei e o arcebispo de Cantuária disputam entre si o governo da igreja da Inglaterra, um pelo poder secular, outro pela doutrina e disciplina: vós me compreendeis suficientemente; considerai a quem ides associar-me, e desistireis de vossa empresa; senão, predigo-vos que o rei me fatigará de diversas maneiras e comigo acabará, e a alegria que vos dou agora pela esperança de vossa consolação se transformará em tristeza, quando virdes a igreja de Cantuária recair em viuvez ainda em minha vida. Quando o rei comigo tiver liquidado, não haverá mais ninguém que ousará opor-se a ele, e ele vos esmagará a todos, como lhe aprouver.

Assim falando, Santo Anselmo, que não podia reter as lágrimas, voltou ao seu alojamento.

Foi eleito arcebispo de Cantuária em 6 de março de 1093, e sagrado em 4 de dezembro do mesmo ano. O que havia predito, não deixou de acontecer. Pode-se verificar na história da Igreja: todas as perseguições e tropelias que teve de sofrer por parte dos dois reis normandos da Inglaterra, Guilherme, o Vermelho e Henrique I. Duas vezes saiu da Grã-Bretanha para ir a Roma, onde ofereceu sua demissão ao Papa Urbano II, que recusou aceitá-la: Urbano fê-lo assistir ao concílio de Bari em meados de outubro de 1098. Os gregos ali propuseram a questão da procedência do Espírito Santo, pretendendo provar, pelo Evangelho, que não procede senão do Pai. O Papa respondeu com várias razões, e empregou alguns argumentos tirados do — Tratado da Encarnação que Santo Anselmo lhe havia enviado outrora. Mas como a disputa continuasse, mandou fazer silêncio e disse em voz alta:

— Anselmo, arcebispo dos ingleses, nosso pai e nosso mestre, onde estás?

Santo Anselmo levantou-se e disse:

— Santíssimo Padre, que ordenais? Eís-me aqui.

O papa mandou que se aproximasse e sentasse ao pé de si, para grande espanto do concilio, onde todos perguntavam quem era ele e de onde vinha. Apaziguado esse movimento, o papa declarou publicamente a virtude e o mérito de Anselmo, e com que injustiça havia sido expulso de seu país.

Santo Anselmo estava prestes a responder à questão proposta; mas julgaram mais conveniente deixar para o dia seguinte. E então tratou da matéria com tanta força e clareza, que todos ficaram satisfeitos e lhe fizeram grandes elogios; e pronunciaram anátema contra os que negavam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Em seguida falaram do rei da Inglaterra no concílio de Bari, e fizeram muitas queixas contra ele; entre outras, no tocante à simonia e à opressão das igrejas; do que o papa falou fortemente, assim como do que o rei havia feito sofrer a Anselmo, acrescentando que havia admoestado várias vezes esse príncipe para que se corrigisse; pedindo conselho aos bispos, estes responderam:

— Se o tendes advertido até três vezes, é claro que não resta senão feri-lo com o anátema até que se corrija.

O papa concordou. Santo Anselmo havia ficado sentado e cabisbaixo até então, sem dizer palavra. Mas então levantou-se, e, pondo-se de joelhos diante do papa, tanto fez que obteve que não pronunciasse a excomunhão contra o rei. Todos os assistentes se admiraram da sua caridade para com o perseguidor.

Esse perseguidor era então Guilherme, o Vermelho. Um acidente funesto pôs fim à sua vida e às suas violências em 1100. Seu pai, Guilherme o Conquistador, era apaixonado pela caça. Conquanto possuísse sessenta e oito florestas, além de parques e lugares de caças em diversos lugares da Inglaterra, não ficou satisfeito senão quando, para conveniência particular de sua corte, enflorestou uma vasta extensão do país entre a cidade de Winchester e a costa do mar. Expulsaram os habitantes; queimaram os seus casebres e suas igrejas, e mais de quatro léguas quadradas de uma região rica e populosa foram arrebatadas à cultura e transformadas em deserto, para fornecer às feras um terreno suficiente, e um vasto espaço para deleite do rei. Esta nova floresta, criada por um ato de despotismo, tornou-se teatro de mais de um acontecimento funesto. Em 1081, Ricardo, filho primogênito do Conquistador, ali fora ferido de morte: no mês de maio de 1100, Ricardo, filho de Roberto, segundo filho do Conquistador, foi morto por uma flecha atirada por imprudência. Na mesma floresta e no mesmo ano, depois de uma caçada, Guilherme foi encontrado gemendo sobre a terra e nadando no seu próprio sangue.

Uma flecha, com a qual se ferira, havia-lhe entrado no coração. Seu irmão, Henrique I, sem ser bom, não era tão mau: acabou por reconciliar-se com Santo Anselmo, que voltou definitivamente para a Inglaterra em 1107. A grande dificuldade era impedir os reis normandos da Inglaterra de fazerem dos bispados, para suas finanças, o que haviam feito com as propriedades particulares para as suas caçadas. Santo Anselmo morreu dois anos após. Sua última enfermidade constituiu-se em náusea para com toda a espécie de alimento, e afligiu-o durante seis meses aproximadamente; conquanto se empenhasse em comer, suas forças diminuíam insensivelmente. Não mais podendo andar, fazia-se carregar todos os dias ao santo sacrifício, pelo qual tinha devoção particular. Os que o serviam, vendo que esse movimento o fatigava extremamente, queriam demovê-lo; com dificuldade conseguiram obtê-lo cinco dias antes de sua morte. Na quarta-feira da semana santa, pela tarde, perdeu a palavra: à noite, enquanto cantavam as matinas na igreja, leram-lhe a paixão que deviam ler à missa: durante a leitura, como viam que estava prestes a expirar, tiraram-no do leito e o colocaram sobre o cilício e a cinza. Ele entregou, assim, o espírito no começo do dia de sexta-feira santa, 21 de abril de 1109, décimo sexto ano de seu pontificado e septuagésimo de sua vida. Morreu em Cantuária e foi enterrado na sua catedral, perto do bem-aventurado Lanfranc, seu predecessor. Operaram-se muitos milagres na sua tumba. A Igreja honra-lhe a memória no dia de sua morte. Sua vida foi escrita por seu amigo, o monge Edmer.

Fonte: Padre Rohrbacher - Vida dos Santos - Tomo VII.



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