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Biografia de
Santo Ambrósio de Milão
(../../340 † 04/04/397)
Bispo, Padre da Igreja
Doutor da Igreja

Nasceu Santo Ambrósio em 340, nas Gálias, onde o pai residia como prefeito que era das Gálias e da Espanha. Diz-se que, um dia, quando dormitava ao ar livre, um enxame de abelhas, surgindo de repente, foi pousar-lhe na boca, como um presságio da doce eloquência.

Morto o pai, a mãe, com os três filhos, tornou a Roma. Os dois irmãos de Ambrósio chamavam-se Sátiro e Marcelina, ambos santos também.

Como o jovem Ambrósio visse a irmã beijar a mãos dos bispos, achegava-se a ela e lhe dava a beijar a própria mão, dizendo:
— Um dia, Marcelina, também serei bispo!

Em 374, Auxêncio, bispo ariano de Milão, falecendo, levou os demais bispos da província a reunir-se com o povo da cidade para a eleição dum novo prelado. A massa achava-se dividida: os católicos e os arianos queriam, cada qual, um bispo que pertencesse à crença deles. A sedição fermentava e a cidade via-se ameaçada.

Ambrósio era então governador da província na qualidade de consular de Ligúria e de Emília. Probo, prefeito do pretório, testemunha da eloqüência do Santo, e da capacidade, elevara-o à condição de conselheiro e, depois, à de governador.

Propondo-se apaziguar os ânimos, uma vez que a sedição estava a chegar ao auge, misturou-se ao povo, e pôs-se a parlamentar, segundo as máximas políticas, longamente, em favor da paz e da tranquilidade públicas. E tão bem o fez, que a massa elevando a voz, numa aclamação ruidosa, passou a exigir que fosse ele o bispo.

Diz-se que foi um menino que começou a gritar: "Ambrósio para bispo! Ambrósio para bispo!" Assim, contaminando o povo todo, passaram todos a aclamar o Santo.

O que é certo é que os espíritos todos, como por milagre, uniram-se, e todos, católicos e arianos, concordaram em tê-lo como pastor, embora fosse ainda catecúmeno.

Ambrósio, extremamente surpreso, deixou a igreja, onde então se dava a reunião, procurando fugir, mas em vão. Seguiram-no e não cessavam de aclamá-lo, de solicitá-lo.

— Sou um pecador! gritou-lhes Ambrósio. Estou carregado de pecados! O povaréu respondeu:

— Não importa! Invocamos para nós todos, todos os teus pecados!

Ambrósio correu para fora da cidade, procurando fugir para Pavia. Escondeu-se. E, à noite, rumou para a porta de Milão, que se chamava Porta Romana. Lá, porém, como se o pressentisse, estava o povo atento.

Afinal, conseguiu esconder-se nas terras dum homem chamado Leôncio, e lá se deixou ficar.

Entrementes, enviava-se uma relação do que se passava ao imperador Valentiniano. Rogava-se-lhe consentisse na ordenação do governador, consentimento esse necessário por causa do cargo que Ambrósio então exercia, Valentiniano despachou favoravelmente, dizendo que quem assim reunia os espíritos tão acirradamente divididos não podia ser mais do que um enviado de Deus.

Chegada a resposta do imperador, a alegria, que já era grande, aumentou. É Ambrósio? Onde estaria?

O lugar-tenente do prefeito do pretório foi incumbido de descobri-lo sem tardança. Fez, então, afixar uma esperta ordem, que determinava que todas as pessoas, sem distinção, eram obrigadas a procuiar o fugido, sob penas severas. Ora, Leôncio mesmo, em cujas terras Ambrósio se refugiara, foi quem lhe desvendou o paradeiro.

Assim, levado para Milão, cumpriu o Santo, o que lhe parecia fosse da vontade de Deus.

Como ainda era catecúmeno, pediu para ser batizado por um bispo católico, imensamente temeroso de cair nas mãos dos arianos. Batizado, envidou todos os esforços para retardar a ordenação, uma vez que não desejava violar a regra que interdiz a ordenação de neófitos. Como, porém, a razão que São Paulo dá desta regra é com medo de que o neófito se encha de orgulho, a humildade de Ambrósio e a necessidade premente da Igreja levaram-no à ordenação.

Oito dias depois do batismo, foi ele feito bispo a, como se crê, 7 de dezembro de 374. Todo o povo cheio de jubilo, estava encantado, e todos os bispos do Ocidente e do Oriente, não menos, aprovavam o acontecido com efusão. Estava então Ambrósio com trinta e quatro anos.

Tão cedo se tornou bispo, deu à igreja e aos pobres tudo o que possuía. Quanto às terras, deu-as à igreja, reservando o usufruto à irmã Marcelina, que vivia em Roma, onde havia feito voto de virgindade perante o papa Libério.

Como o irmão Sátiro chegara a Milão para o ver, a terna amizade de ambos os levou a não mais se separar. Ambrósio, àquele que tão paternalmente governara incumbindo da direção da casa, deixou-se ficar tranquilamente e todo dado unicamente ao ministério.

Aplicou-se o Santo, primeiramente, com um trabalho assíduo, ao estudo das santas Escrituras, porque até aquela data não havia lido senão autores profanos. À leitura, empregava todos os momentos que conseguia furtar aos afazeres, e mesmo boa parte da noite.

Além das Escrituras, lia os autores eclesiásticos, entre outros Orígenes e São Basílio, que foi ao que mais se apegou. À medida que estudava, ia ensinando. Pregava todos es domingos e oferecia todos os dias o santo sacrifício.

Aplicando-se a instruir, obteve tal sucesso, que trouxe toda a Itália à fé ortodoxa, banindo o arianismo. Pouco tempo depois da ordenação, queixava-se ao imperador de qualquer coisa que os magistrados haviam feito contra as regras, e o imperador respondeu-lhe:

— Já conhecia de há muito tua liberdade de falar, o que não me impediu de consentir em tua ordenação. Continua, pois, a apontar os remédios para nossos pecados, aqueles que a lei divina ordena.

Sente-se nestas palavras que, se Valentiniano sempre tivesse ao lado um Santo Ambrósio, teria domado a violência do caráter e teria sido um príncipe completo.

Um dos primeiros cuidados do santo bispo foi transferir da Capadócia para sua cidade episcopal o corpo de São Dionísio, um dos predecessores. Enviou, para tal, os mais consideráveis do clero à Capadócia, com cartas para São Basílio, pelas quais regava corroborasse na empresa. São Basílio deu-se a ela de todo o coração, e tudo se conseguiu. Encarregou os clérigos de Milão, de a Santo Ambrósio enviar uma carta em resposta a que lhe escrevera, e na qual testemunhava extrema alegria de o conhecer e de saber que Deus havia confiado o rebanho a um homem tirado da cidade real, igualmente recomendável pelo nascimento, pela sabedoria, pela eloquência e pelo brilho da vida.

E acrescentcu que os clérigos que Ambrósio enviara para a translação do corpo de São Dionísio haviam feito o elogio de todo o clero de Milão pela gravidade dos costumes. E que Terásio, padre muito virtuoso da igreja de Cesaréia, que lhe havia dado para auxiliar na tarefa, contribuíra grandemente para o bom êxito de tudo.

Com apenas três anos de bispado, já era Santo Ambrósio olhado como o principal doutor da Igreja latina. Sua reputação estendia-se até a Mauritânia. Virgens, atraídas pela santidade do grande bispo, constantemente chegavam a Milão, vindas de toda parte, para receber o véu de suas mãos, principalmente das cidades vizinhas, de Palisanzio e de Bolonha. De Milão, porém, muito poucas, o que levava o Santo a dizer:

— Que coisa esquisita! Eu prego aqui e elas vêm de lá. Estou tentado a ir pregar além para persuadir aqui!

Muita gente se queixava de que o Santo dignificava demasiadamente a virgindade, e as mães encerravam as filhas, com medo de que não as servissem, ou de que não fossam consagradas por suas mãos. Às pregações que fizera sobre tal assunto obtiveram tanto sucesso, que Santa Marcelina, a irmã, que fizera voto de virgindade, ao irmão felicitava, por carta, de Roma, dizendo que, impossibilitada de ir ouvi-lo, lhe rogava que enviasse tudo por escrito. Foi assim que, às instâncias de Santa Marcelina, reuniu Ambrósio, em três livros, intitulados Das Virgens, os sermões que escrevera sobre a matéria, dos quais o primeiro contém o elogio de Santa Inês, pronunciado no dia da festa daquela Santa.

Neste primeiro diz que as virgens de Bolonha eram vinte, que trabalhavam, não somente para viver, mas para fazer esmolas, cheias dum zelo e duma indústria singulares para atrair outras jovens a tão santa profissão.

No terceiro livro, relembra o discurso que o papa Libério, que qualifica de bem-aventurado, de santa memória, fez a Santa Marcelina, ao dar-lhe o hábito de virgem na igreja de São Pedro no dia do Natal. Não viviam elas em comunidade, mas com os pais, como muitas virgens daquele tempo. Possuíam na igreja um lugar reservado, separado, e ali viam sentenças da Escritura sobre as paredes, para instruir-se.

O livro Das Viúvas apareceu pouco depois, motivado pela ação duma mulher que, sob o pretexto de que fora exortada a deixar o luto e a se consolar da morte do marido, propusera-se tornar a casar-se, tendo já filhas casadas e outras noivas. Realça, então, a indecência de tais casamentos.

Santo Ambrósio, contudo, não condenava as segundas núpcias: como nos livros Das Virgens, não deixa de estabelecer a santidade do casamento. No livro Das Viúvas, fala também da invocação dos santos: manda que se rogue aos anjos que nos são dados para a guarda, e aos mártires, cujos corpos nos são como uma garantia de proteçãc: são os inspetores de nossa vida e de nossas ações.

Santo Ambrósio escreveu, pouco depois, um tratado Da Virgindade. Como o verberassem por acoroçoar as jovens àquela prática, pelas exortações que lhe dirigia, e se opusesse ao casamento daquelas que se consagravam a Deus, escreveu:

"Praza a Deus que possam convencer-me dos crimes que me imputam por fatos, por exemplos, e não por palavras! Praza a Deus, ainda, que eu possa fazer desistir do casamento aquelas mesmas que a ele se destinam, e consiga levá-las a tomar o véu das virgens. Será uma indignidade de minha parte não permitir que se arranque uma virgem consagrada aos pés do altar para que as levem ao casamento secular? Não tiveram elas a liberdade de escolher esposo? Não escolheram livremente? E que melhor esposo que um Deus?"

Mostra Santo Ambrósio, em seguida, que ninguém poderia censurar-lhe o zelo pela virgindade, uma vez que não é má, nem nova, nem inútil, já que merecera elogios do Cristo mesmo, e que São Paulo a preferia ao casamento.

"Queixam-se, continua ele, de que o gênero humano irá desfalcar-se. Pergunto: quem jamais procurou uma mulher sem que a não encontrasse? Que guerra ou que morticínio vimos por uma virgem? Matar um adúltero, fazer a guerra são coisas que nada tem de ver com as virgens".

A devastação dos godos na Trácia e na Ilíria estenderam-se até os Alpes, e deram motivo a Santo Ambrósio para exercer a caridade. Pô-se a resgatar cativos, empregando mesmo os vasos da Igreja, que mandou fundir, mas, somente aqueles que ainda não estavam consagrados, reservando os outros para casos de maior necessidade.

Os arianos, então, não deixaram passar a oportunidade de repreendê-lo e de exprobá-lo. E Santo Ambrósio, defendendo-se daquelas acusações, dizia:

— Não será, porventura, mais vantajoso consagrar a Deus almas, ao invés de ouro?

Dizia isso porque, resgatando os cativos, não só salvava a vida dos homens e a honra das mulheres, mas a fé das crianças e dos jovens, que os bárbaros haviam ccnstrangido à idolatria.

Disse Santo Ambrósio naquela ocasião:
— A Igreja possui ouro, não para guardá-lo, mas para dele se servir nas oportunidades que se lhe oferecerem, nas extremas necessidades. Reconhecemos, então, o vaso do sangue de Senhor, quando se viu a Redenção de uns e de outros, quando o cálice resgatou do inimigo os que o sangue resgatara dos pecados.

Naquela mesma ocasião, Ambrósio ia perder o irmão Sátiro. Por certo tempo desobrigado dos encargos que lhe conferira, embarcou para a África, para tratar de assuntos particulares com um tal Próspero, "que, dizia Ambrósio, gabava-se de crer que meu sacerdócio lhe seria ocasião para não restituir o que me devia".

Sátiro embarcou pelo inverno, num velho navio, que veio a naufragar, e pensou que fosse morrer. Apavorou-se, porque ainda não estava batizado, e resolveu solicitar que o fizessem aqueles que já o eram. Não havia, contudo, tempo a perder, que o navio fazia água e afundava rapidamente. Atirou-se, então, ao mar e nadou rapidamente. Longe, avistava-se terra.

Sátiro foi o primeiro a chegar à praia e pôs-se a ajudar os demais, que se aproximavam também a nado, ou abraçados a destroços do barco. Terminado o serviço de salvamento, Sátiro procurou o bispo do lugar, aparentemente a Sardenha, mas, desconfiado de que era cismático desistiu, pensando que melhor seria lançar-se às águas novamente de que receber o batismo das mãos de quem professava erros da fé.

Chegando a um país católico, recebeu a graça do batismo, conservando-a até a morte. Diz-se que, ao arrojar-se ao mar, quando do naufrágio, recomendara-se Sátiro a São Lourenço, pedindo-lhe ardorosamente que lhe conservasse a vida para que pudesse ser batizado. Propôs-se, então, guardar a continência, o que passou a fazer secretamente, ocultando do próprio irmão o voto que fizera.

Depois de ter satisfatoriamente resolvido os afazeres na África, voltou, pela Sicília, a Roma, onde o Senador Símaco, um bom amigo, a quem tinha como a um pai, esforçcu-se por retê-lo, já que Milão estava exposto às incursões bárbaras. Justamente isso o apressou. E correu para o pé do irmão, ansioso para não o deixar sozinho em horas de perigo.

Santo Ambrósio e a irmã Marcelina sentiram grande alegria ao revê-lo. Jamais se viram irmãos mais unidos, e que mais se quisessem. Ambrósio e Sátiro eram tão parecidos, que quem os não conhecesse bem, se confundia, julgando tratar com este quando de fato tratava com aquele.

Aquela alegria, contudo, durou pouco. Sátiro faleceu, pouco depois da chegada, entre os braços e os beijos dos dois bons irmãos, aos quais, sem deixar testamento, passou todos os bens.

Ambrósio e Marcelina acreditaram que ao irmão seria doce ver tudo o que possuía distribuído aos pobres; assim o fizeram.

Os funerais de São Sátiro foram feitos solenemente, e Santo Ambrósio pronunciou a oração fúnebre em presença do corpo exposto. Não se lhe viu nada mais afetuoso nem mais terno. Santo Ambrósio chorava e Marcelina acompanhava-o. Todos choravam, homens, mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres, principalmente os pobres.

Finalmente, consolando a irmã, Ambrósio disse o último adeus a Sátiro, deu-lhe o último beijo. E, recomendando-lhe a Deus a alma, conjurou-o a lhe permitir que, em breve, seguisse o bom irmão.

Sete dias depois, voltando ao túmulo de Sátiro com todo o povo, pronunciou a oração Da Fé na Ressurreição. A Igreja honra a memória de São Sátiro a 17 de setembro.

Santo Ambrósio e Santo Áscolo, bispo da Tessalônica, conheciam-se e queriam-se desde longo tempo, sem que, porém, tivesse um visto o outro, o que aconteceu, pela primeira vez, quando do concílio de Roma. Ambrósio estava doente, e à primeira entrevista, atiraram-se um nos braços do outro, afetuosamente, deixando-se ficar longamente entrelaçados, a chorar copiosamente, a falar dos males do século.

Um dia, Ambrósio foi convidado por uma senhora da estirpe dos claríssimos, para ir à sua casa, para lá do Tibre, para oferecer o sacrifício. Uma mulher entrevada, paralítica, ao saber que Ambrósio estava naquela casa, fez com que a transportassem, numa cadeira, até ele. E, lá chegando, enquanto pedia que lhe impusesse as mãos, tocou-lhe as vestes, beijou-as, e viu-se curada imediatamente. Levantou-se da cadeira e pôs-se, alegremente a andar com desembaraço.

Paulino, secretário de Santo Ambrósio, que referiu o milagre, diz que, anos depois, em Roma mesma, de muitas pessoas consideráveis, ouviu a relação do prodígio.

Quanto a Santo Áscolo, voltando à sua igreja, morreu pouco depois. Os bispos da Macedônia e o clero da Tessalônica escreveram a Ambrósio, que, na resposta, fez o mais afetuoso panegírico de Santo Áscolo, felicitando-os pela eleição de Anísio, o discípulo, que haviam escolhido para preencher a vaga.

Também ao novo bispo escreveu Ambrósio, exortando-o a imitar, as virtudes do predecessor. As duas cartas terminam com estas palavras:

"Passai bem, irmãos, e me queirais bem, porque vos quero bem a vós".

Pode ver-se na história da Igreja, os trabalhos e os sofrimentos de Santo Ambrósio, em defesa da fé católica contra os pagãos, que dominavam o senado de Roma, e contra os arianos espalhados pela corte da imperatriz Justina, ariana ela também.

Em meio às perseguições que Justina movia aos católicos, Deus outorgou uma consolação sensível à igreja de Milão, revelando a Santo Ambrósio as relíquias de São Gervásio e de São Protásio, irmãos e mártires, esquecidos de há muito os nomes e o lugar da sepultura.

Pelo auge da perseguição de Justina, Santo Ambrósio foi fazer a dedicação duma basílica, a Ambrosiana, e o povo, a uma só voz, pediu-lhe que a dedicasse como basílica romana. Era uma outra igreja de Milão, que ele havia consagrado perto da Porta Romana, em honra dos apóstolos.

Santo Ambrósio respondeu:

— Eu o farei, se encontrar relíquias de mártires.

Imediatamente, sentiu um ardor, como dum feliz presságio. Com efeito, Deus revelou-lhe que os corpos de São Gervásio e de São Protásio estavam na basílica de São Félix e de São Nabor.

Apesar do temor do clero, Santo Ambrósio pediu que cavassem a terra em frente a balaustrada que cercava os sepulcros dos mártires. Achou sinais significativos: talvez palmas gravadas ou qualquer instrumento de suplício. Fez, então, Àmbrósio, que lhe trouxessem possuídos do demônio para impor-lhes as mãos. E, antes que o fizesse, um deles, livre do diabo, caiu ao chão, justamente onde se encontravam os mártires que procuravam.

Descobertos os corpos, que eram de homens de grande estatura, com as cabeças separadas do corpo, transportaram-nos para a basílica de Fausto, onde se celebrou a vigília por toda a noite, e muitos possuídos receberam a imposição das mãos. A concorrência de povo foi enorme, e, no dia seguinte, foram os corpos transferidos para a basílica Ambrosiana.

Então, os velhos lembraram-se de ter ouvido o nome daqueles mártires e de lhe ter visto as inscrições na tumba. Havia em Milão um cego chamado Severo, conhecido de toda a cidade, antes de perder a vista carniceiro de profissão, e cego há já muitcs anos. Ouvindo a bulha da alegria que ia por toda parte, quis saber de que se tratava. Ao saber que se havia descoberto o corpo de santos mártires, rogou que o levassem ao pé deles. Lá chegando, reverentemente, tocou com a mão a maca em que um dos corpos jazia e levou os dedos aos olhos, e tornou a ver.

Tal milagre ocorreu diante duma multidão de pessoas, entre as quais estava o grande Santo Agostinho, então em Milão, e que rendeu testemunho do prodígio em vários passos de sua vasta obra. Severo, recuperando a vista, não quis nada mais fazer senão servir a Deus, e passou o resto da vida a prestar serviços na basílica Ambrosiana, onde ficaram os corpcs dos mártires. Severo vivia ainda quando Paulino escreveu a vida de Santo Àmbrósio.

Aquela translação foi acompanhada dum grande número de outros milagres: de possuídos que se livraram do demônio, de doentes que se viram completamente curados ao lhes tocar as vestes e, mesmo, só com o passar da sombra das macas em que iam. Havia os que jogavam lenços sobre os corpos, depois do que, recuperando-os, guardavam-nos como remédios para as mais variadas enfermidades. A tudo, num dos sermões, Santo Ambrósio emprestou o testemunho. Foi naqueles dias mesmos, e rendeu graças a Jesus Cristo, que dava assim à Igreja um socorro em hora de grande necessidade, acrescentando:

"Depositemos estas vítimas triunfais no mesmo lugar em que Jesus Cristo é hóstia. Ele, sobre o altar, Ele que sofreu por todos, e estes, sob o altar, estes que foram resgatados peles sofrimentos d'Ele. É o lugar que eu havia escolhido, que me destinara, porque é justo que o servidor de Deus repouse onde costuma oferecer. Contudo, cedo o lado direito a estas vítimas sagradas".

Santo Ambrósio queria enterrar as santas relíquias imediatamente, mas o povo desejava-o no domingo, instando com o Santo para que assim consentisse. Afinal, Santo Ambrósio conseguiu que lhe permitissem fazê-lo no dia seguinte, quando pronunciou novo sermão, no qual a resposta às calúnias dos arianos foi o principal objeto. É que diziam que o Santo havia, a poder de dinheiro, contratado homens para que fingissem estar possuídos do demônio, ao mesmo tempo que propalavam que os corpos encontrados não eram de mártires.

Santo Ambrósio, então dizia, depois de ter citado o milagre do cego:

— Eu pergunto: não crêem em nada? Os mártires não podem socorrer ninguém? É não crer em Jesus Cristo, porque Ele disse: Vós fareis coisas maiores. Qual, pois, o objeto da inveja? Serei eu, porventura? Mas não sou eu que faço milagres!"

Ambrósio escreveu à irmã Santa Marcelina, contando-lhe tudo o que sucedera quando da translação dos santos mártires, juntando à carta os dois sermões que fizera naquela ocasião.

Para mais confundir os arianos, um homem na multidão foi tomado do demónio e começou a gritar:

— Eu não cria nos mártires nem cria na Trindade que Ambrósio ensina!
Os arianos agarraram-no e atiraram com ele a um canal. Um dentre eles, dos mais ardentes na disputa e dos mais endurecidos, converteu-se e contava que, estando na igreja quando Ambrósio pregava, vira-lhe um anjo ao lado, falando-lhe ao ouvido o que então o Santo ia pregando. Este convertido passou o resto da vida, ardorosamente, a defender a fé que ardorosamente combatera.

Assim, a poder de milagres, os arianos foram reduzidos ao silêncio, e a imperatriz constrangida a deixar Santo Ambrósio em paz.
Em 387, na vigília da Páscoa, o grande bispo teve outra consolação, qual seja a de batizar Santo Agostinho. Foi nesta ocasião, como se crê, que Santo Ambrósio deu aos novos batizados a instrução que compõe o livro Mistérios, explicando a natureza e a cerimônia dos três sacramentos que então recebiam: o batismo, a confirmação e a eucaristia.

O que diz da eucaristia, sobretudo, é admirável. Os neófitos assistiam pela primeira vez ao santo sacrifício. Para fazer ver a excelência daquilo, falou dos antigos símbolos, de Melquisedec, do maná que Deus fez cair no deserto, da água que Moisés fez que brotasse da pedra, provando claramente que a eucaristia contém o corpo de Jesus Cristo.

"Considerai, diz ele, qual dos dois domina: o pão dos anjos ou a carne do Cristo, a qual é o corpo e a vida mesma. O primeiro maná descendo dos céus. Aos antigos, a água fluiu dum rochedo. O sangue corre do Cristo. A água mata a sede por algumas horas, mas o sangue do Cristo purifica para a eternidade. Assim como a luz domina as trevas, a verdade o símbolo, assim o corpo do Criador supera o maná do céu".

"Direis, talvez: "Como podeis assegurar-nos que recebemos o corpo do Cristo?" Moisés transformou um cajado numa serpente. As águas dos rios, fê-las que se tornassem sangue, e depois deu-lhes o natural estado. Fez sair água da rocha. Se a bênção dum homem pode transformar a natureza, que diremos nós da bênção divina, ou das palavras do Salvador? Porque o sacramento que recebeis é produzido pelas palavras do Cristo. Se a palavra de Elias pôde fazer descer fogo do céu, a palavra do Cristo não poderá porventura transformar a natureza dos elementos? Vós lestes na criação do universo: "Ele disse, e tudo se fez". A palavra do Cristo, pois, não poderrá fazer do nada o que não era? Não poderá a palavra do Cristo transformar as coisas que são naquelas que então não eram? Para que mais? Sirvamo-nos do exemplo da encarnação. Foi conforme a ordem natural que Jesus Cristo nasceu de Maria.

Não é evidente que foi um prodígio nascer duma virgem? Ora, o corpo que nós consagramos é o mesmo que nasceu da Virgem. Porque, então, procurar a ordem natural? É a verdadeira carne do Cristo que foi crucificado e sepultado. É, pois, verdadeiro também o sacramento de sua carne. O Senhor Jesus Cristo mesmo o proclama: Isto é meu corpo. Antes da consagração, que se faz por estas palavras celestes, dá-se-lhe outro nome, mas depois da consagração, o corpo está então assinalado. Ele mesmo disse que o que estava no cálice era seu sangue. Antes da consagração tem outro nome, mas depois é o sangue e tem esse nome. E vós respondeis: Amém, quer dizer, isto é verdade. Que a boca o diga, o espírito confesse, a palavra proclame, o coração sinta: Cristo está no sacramento, porque é o corpo do Cristo! Eis aí, que temos um alimento, não corporal, mas espiritual, porque o corpo de Deus é um corpo espiritual".

Finalmente, Santo Ambrósio, no final das instruções, recomenda aos novos fiéis o segredo dos mistérios.

O cardeal Mai reencontrou a explicação do símbolo aos neófitos por Santo Ambrósio, bem como uma carta do mesmo Pai a São Jerônimo, sobre a fé. O símbolo, marca do cristão, é um resumo da fé, composto pelos apóstolos. Antes de o recitar, os neófitos faziam o sinal da cruz. Santo Ambrósio, numa curta explicação, dá a ordem até duas vêzes.
O símbolo vem em doze artigos, segundo os doze apóstolos que o compuseram.

No Oriente, juntou-se-lhe algo, para refutar mais diretamente as novas heresias. Mas, diz Santo Ambrósio, a Igreja romana, onde se sentou Pedro, o primeiro dos apóstolos, e onde ele levou a comum sentença, nada se lhe acrescentou.

Em Milão, seguia-se o símbolo da Igreja romana, e era tido como remédio contra os males da alma e mesmo do corpo, lendo-o e relendo.

Santo Ambrósio gostava muito do imperador Teodósio, mas como bispo, por Deus e para a salvação da alma, sem que o adulasse no que quer que fosse. Foi o que se viu em 390. Uma sedição popular havia eclodido no circo da Tessalônica, e o governador da cidade ali fora morto.

Num primeiro movimento de cólera, Teodósio ordenou um massacre geral do povo reunido no mesmo circo. Santo Ambrósio escreveu-lhe uma carta, para que visse a grandeza da falta, dizendo-lhe da necessidade que tinha de fazer penitência, antes de se apresentar à Santa Mesa.

"Eu te amo, concluiu ele, e te prezo muito. Rezo todos os dias por ti. Se crês, reconhece a verdade de minhas palavras. Se não crês, não aches mal que eu dê a Deus a preferência".

Teodósio não deixou de querer ir à igreja, segundo o costume, mas Ambrósio, que acabava de vir dos arredores, pôs-se diante dele, fora do vestíbulo, para impedir que entrasse, mostrando-lhe a enormidade da carnificina que havia feito.

— Como poderias, disse ao imperador, elevar para o Senhor essas mãos que ainda estão a gotejar sangue inocente? Como receber o corpo do Senhor sacratíssimo? Como levar à boca o preciosíssimo sangue de Jesus, se tu, enfurecido, fizeste correr tanto sangue? Retira-te daqui! Não aumentes o teu crime com o acréscimo de outro!

Como o imperador quisesse desculpar a falta de qualquer maneira, e falasse do exemplo de Davi, culpado ao mesmo tempo de adultério e de homicídio, Santo Ambrósio respondeu-lhe imediatamente:

— Já que o imitaste no pecado, imita-o na penitência!

Teodósio submeteu-se, aceitando a penitência, segundo a disciplina da Igreja. Em lágrimas, retirou-se para o palácio. Era pelo mês de abril de 390.

Oito meses, passaram-se sem que o imperador, afligido, ousasse entrar na igreja. Como as festas do Natal estavam próximas, maior tornava-se-lhe a dor que o consumia. Rufino, o mais familiar dos cortesãos, perguntou-lhe:

— Que tens tu, assim todo aflito? Teodósio, chorando e soluçando redobradamente, respondeu-lhe:

— Estou a pensar, e choro por isso, no templo de Deus, aberto para os escravos, para os mendigos, para todos, enfim, menos para mim. Fechada para mim a casa de Deus, não tenho também fechado o céu? Sim, tenho-o trancado, porque, não vês que se disse: Tudo o que desligares na terra, no céu também será desligado?

Rufino propôs:
— Se quiseres, correrei ao bispo, e a ele insistentemente pedirei que te absolva. Queres? Consentes? Dize, e eu irei!

Teodósio sorriu tristemente:
— Tu não o conheces, Rufino. Tu não serás capaz de persuadi-lo. Eu o conheço. Conheço a justiça com que revestiu a censura que me fez.

— Mas tu és o imperador! exclamou Rufino. Não és o imperador?
Teodósio tornou a sorrir, mais tristemente ainda:

— Bem disse eu que não conhecias o bom do bispo! Não há nada, nem o respeito pelo poder imperial, que faça com que se ponha contra a lei de Deus.

Rufino insistiu:
— Autoriza-me a ir falar com o bispo. Prometo-te que hei de persuadi-lo.

— Bem, se queres, e agradeço-te o empenho, vai, vai depressa!
Rufino saiu, e Teodósio, na esperança que o cortesão lhe havia dado, ficcu a aguardá-lo com ansiedade.

Assim que Santo Ambrósio ouviu o cortesão, reprovou-o;
— Tu, autor, pelos maus conselhos, do massacre, vens interceder pelo imperador?

Rufino, porém, porfiou:
— O imperador está a ponto de chegar.
E, para ver se demovia o Santo, acrescentou:

— Ele vem para cá!
Santo Ambrósio, inflamado de zelo, retrucou:

— Eu o adverti, Rufino, eu o adverti: está impedido de entrar na igreja. Assim, se vier e usar de violência, digo-te: deixarei que me degolem com grande, muito grande alegria, porque me oporei!

Rufino, ao ouvir aquelas palavras e ver aquele rosto todo esplendor, atemorizou-se. Deixou o santo bispo e voltou ao palácio: ia aconselhar Teodósio a esperar mais um pouco...

- Será melhor, senhor, será bem melhor.
Teodósio, que a esperança de que o amigo conseguisse a absolvição levara a tê-la como certa, desesperou-se:

— Eu irei, disse, e receberei a afronta que mereço.
Chegando perto do lugar sagrado, Teodósio parou e ficou olhando a igreja. Em seguida, foi procurar o bispo, que estava na sala de audiências.

— Dá-me a absolvição, pediu humildemente a Ambrósio.

— Vindo assim, disse o Santo, desta maneira, é levantares-te contra Deus, calcar-lhe as leis.

— Eu as respeito, retrucou Teodósio. Não quero entrar na igreja contra as regras. Eu suplico que me livres do liame, considerando a clemência de nossa mãe comum. Não me feches a porta, a porta que está aberta para todos os que fazem penitência.

— E que penitência fizeste? perguntou o Santo. Com que remédios curaste as feridas da alma? Teodósio respondeu:

— Está em tuas mãos o que devo fazer, Dize, para que o execute.

Santo Ambrósio respondeu-lhe, então, que devia sempre impor silêncio às paixões temerárias e furiosas, ordenando-lhe que, por uma lei, as sentenças de morte e de confiscação não tivessem execução senão depois de trinta dias, a contar do dia em que fossem pronunciadas, para que, assim, tudo, com o tempo, pudesse ser esclarecido, e, sem precipitações, não prejudicasse inocentes.

Teodósio aprovou o conselho, fez com que a lei fosse elaborada imediatamente e assinou-a. Teve, então, a desejada absolvição.

Foi um imperador piedoso o que entrou na igreja. Teodósio, despojado de todos os ornamentos imperiais, não orou de pé ou de joelhos: fê-lo prosternado sobre o chão, a dizer as palavras de Davi:

— Minha alma está atada à terra: dai-me a vida, segundo vossa palavra.

E, à medida que orava, ia arrancando os cabelos e inundando a nave de lágrimas, a implorar, cheio de dor;

— Misericórdia! Ó Senhor, misericórdia!
O povo, diante de tanta humildade, crava, suplicava e chorava com o imperador. E aquela dor de Teodósio acompanhou-o por toda a vida.
Eis como este memorável acontecimento foi relatado peles historiadores, principalmente per Teodoreto, que o referiu nos mínimos detalhes, dizendo, claramente, que, naquelas circunstâncias, o imperador, absolvido e penitente, apresentou oferenda à missa e recebeu a comunhão.

Vemos, então, que a penitência que Teodósio fez à igreja foi, sobretudo, uma penitência pública. Pública e regular, tal qual a prescrita nos cânones de certas igrejas particulares. E o que é mais admirável de ver, é Ambrósio e Teodósio, dois cristãos, dois amigos, um bispo, outro monarca absoluto: um a interdizer ao outro à entrada da igreja, firme destermeroso do poder, do poder humano, porque o poder de Deus é infinito e tudo pode, e Teodósio, já cônscio da enormidade do pecado que cometera, medroso da cólera de Deus, descabela-se diante do povo, ele, um imperador. Mas, que vem a ser afinal, um imperador diante de Deus!

Um homem como outro qualquer, com a agravante de ser julgado mais severamente, porque um governante.

Aquela amizade dos dois, do bispo e do imperador, durou até a morte deste, em 395. Nos últimos momentos, quando se preparava para a saída deste século, Teodósio chamava por Ambrósio.

Quarenta dias depois da morte do imperador, Santo Ambrósio pronunciou sua oração fúnebre. Depois de ter feito desfilar as virtudes todas do amigo, detendo-se principalmente na clemência que lhe era característica, abandonou-se ao estravaza-ento da amizade e da dor:

— Eu amei o homem misericordioso e humilde sobre o trono! O homem de coração puro e cheio de mansidão! Eu amei o homem que mais desejava ser repreendido do que elogiado, que chorou publicamente na igreja o pecado que outros o haviam levado a cometer por artifícios e pelo qual, ainda, chorou todos os dias da vida! Que dizer mais? Que obteve uma vitória estrondosa? Sim, porque os inimigos, os artificiosos, abstiveram-se da participação dos mistérios! Eu amei o homem que, nos últimos suspiros, me chamava! Eu amei o homem que, neste momento tremendo, estava mais ocupado com o estado das igrejas que dos próprios perigos! Sim, amei este homem, e é por isso que choro no mais fundo da alma!

E é chorando que suplico ao Senhor, pelos méritos que teve, para que o tenha na verdadeira terra dos vivos!

Só o renome de Santo Ambrósio convertia bárbaros. Uma rainha dos marcomanos, chamada Fretigila, apenas por ouvir falar do Santo a um cristão vindo da Itália, creu em Jesus Cristo, e enviou embaixadores a Milão, com presentes para a igreja, rogando a Santo Ambrósio que lhe desse por escrito tudo aquilo em que devia crer.

Ambrósio respondeu-lhe numa carta belíssima, em forma de catecismo, onde a exortava a induzir o marido a guardar a paz com os romanos.

A rainha, ao receber a carta, fez mais ainda: persuadiu o rei a se dar aos romanos com todo o povo. E, um belo dia, aparecendo em Milão, teve a imensa dor de não mais encontrar o Santo com vida.

Um ano antes da morte, Santo Ambrósio descobriu num jardim as relíquias dos santos mártires Nazário e Celso. Paulino, o secretário, que estava presente, diz:

"Nós vimos no sepulcro, onde repousava o corpo do mártir Nazário o sangue tão fresco como se fora daquele mesmo dia, daquele momento mesmo. A cabeça, cortada, tão perfeita, com os cabelos e a barba tão brilhantes, que, dir-se-ia, fora enterrado naquele instante. Sentimos, então, um perfume tão suave como jamais sentíramos.

"As relíquias foram transportadas para a basílica dos Apóstolos. Lá, quando Santo Ambrósio pregava, um homem, tomado do demônio, pôs-se a gritar, dizendo que Ambrósio o atormentava. O santo bispo foi até o pobre e disse-lhe: "És tu, demônio! Não é Ambrósio que te atormenta, mas a presença dos santos mártires e a tua inveja, porque tu vês homens subirem ao lugar donde tu foste precipitado!"

A essas palavras, o possuído do espírito imundo caiu por terra, e lá se deixou ficar sem mais bulhas.

Em 396, o imperador Honório deu ao povo de Milão um espetáculo com feras da África. Um criminoso, chamado Crescônio, refugiara-se na igreja, mas o povo, reunido no anfiteatro, obteve do Conde Stilichon a permissão de o capturar cem os soldados.

Crescônio refugiara-se no altar, de Santo Ambrósio, com o clero que se encontrava presente, rodeava-o, para defendê-lo.

Os soldados, porém, eram em grande número. Conduzido por arianos, foram os mais fortes. Levaram Crescônio, que se debatia, atemorizado, e entraram no anfiteatro.

Os que estavam na igreja ficaram grandemente afligidos, e Santo Ambrósio, chorando, prosternou-se aos pés do altar e pôs-se a orar longamente.

Eis que dois leopardos, conseguindo escapar, lançaram-se sobre os soldados e fizeram, antes de ser recapturados, muito estrago, menos a Crescônio. Stilichon, tocado, arrependeu-se da violência que tivera contra a Igreja, e correndo a Santo Ambrósio, penitenciou-se. Quanto a Crescônio, como era culpado de grandes crimes, foi exilado, mas, pouco depois, era repatriado.

Um escravo mesmo de Stilichon, livre do demônio que o atormentava, ficou prestando serviços na basílica Ambrosiana, e o mestre, que dele gostava, recomendou-o a Ambrósio. Descobriu-se, depois, que ele manufaturava falsas cartas, pelas quais eram nomeados tribunos e generais. A pedido do Santo, Stilichon dispersou os que de tal maneira foram empossados. Ambrósio, então, interrogou o escravo, convencendo-o do crime, e, naquele instante, o demônio, manifestando-se-lhe no corpo, pôs-se a ultrajá-lo, aos berros. Era um espetáculo amedrontador. "Todos ficamos grandemente apavorados", diz Paulino na Vida de Santo Ambrósio.

E acresdenta: "Vimos, naquele dia mesmo, muitos possuídos do espírito imundo ficar livres pelas ordens e pela imposição das mãos de Santo Ambrósio".

Nicétio, anteriormente general e conselheiro de estado, tinha os pés tão doloridos, que quase não podia sair de casa. Um dia, quando, ao assistir à santa missa, aproximava-se do altar para receber o sacramento, Santo Ambrósio, por acaso, pisou-lhe num dos pés, fazendo-o gritar de dor. Pesaroso, desculpando-se disse-lhe o Santo:

— Não te impressiones: doravante ficarás curado!

De fato, quando da morte de Santo Ambrósio, Nicétio testemunhara, em lágrimas, que desde aquele dia jamais sentira a menor dor nos pés.

Ambrósio tinha o particular cuidado de dar à Igreja dignos ministros. Poder-se-iam citar muitíssimos exemplos tirados dos próprios escritos. Recusara-se a admitir, e isso por muitas vezes, no clero, a um dos amigos, porque tinha qualquer coisa de esquisito e de indecente no andar. A outro, este do clero, mesmo, proibiu-o de andar quando em sua presença, pelo mesmo motivo. É que Santo Ambrósio estava persuadido de que os movimentos desregrados do corpo são efeito do desregramento da alma. E tinha razão, supõe-se, porque, pouco tempo estiveram ambos na fé: abandonaram-na para sempre.

São dois exemplos que deixou no Tratado dos Ofícios ou dos Deveres, composto para a instrução do clero, à imitação de Cícero e dos gregos, que Cícero mesmo havia imitado nos ofícios. Santo Ambrósio tomou o que sua moral tinha de bom, apoiando-a pela autoridade da Escritura, e engrandecendo-a com as máximas do Evangelho.

Uma das ultimas ações de Santo Ambrósio foi a ordenação de Santo Honorato, bispo de Verceil. À morte de Limênio, o predecessor, a sede ficou por longo tempo vaga pela divisão que se deu naquela igreja. Ambrósio escrevieu ao clero e ao povo de Verceil uma longa carta para conciliar os espíritos. Afinal, foi obrigado a ir pessoalmente tratar do caso. Pelos cuidados que tinha, elegeu-se Honorato, homem de grande mérito, ao qual a Igreja conta entre os santos.

Alguns dias antes de ficar doente, Àmbrósio predisse a própria morte, dizendo que viveria até a próxima Páscoa. Continuou estudando, e levava avante a explicação do Salmo XLIII. Quando estava a ditar um trecho do trabalho ao secretário, Paulino viu sobre a cabeça do Santo uma flama em forma dum pequenino escudo, e que, a pouco e pouco, descendo, foi-se-lhe entrando pela boca. "Fiquei tão amedrontado, diz ele, que perdi os movimentos, sendo-me impossível escrever o que Ambrósio me ditava. E isto enquanto a visão durou. Ele repetia então uma passagem da Escritura, que bem me lembro. Depois daquele dia, não mais leu nem escreveu, de sorte que não pôde terminar a explicação do salmo.

Ambrósio ainda ordenou um bispo para Pávia. Estava tão mal que foi obrigado a buscar o leito. O Conde Stilichon ficou extremamente aflito, o que o levou a dizer que "a morte daquele grande homem ameaçava a Itália duma ruína bem próxima". E, às instâncias do Conde, passou-se a orar fervorosamente a Deus, para que se dignasse prolongar a vida do fiel servidor.

O Conde, à cabeceira do Santo, rezava. No fundo do quarto, que era grande, quatro diáconos conversavam baixinho, muito imperceptivelnuente, como num suave murmúrio, quase inaudível. Discutiam sobre quem cairia a sucessão. Quando ciciaram o nome de Simpliciano (que de fato foi o sucessor do Santo) Ambrósio, embora afastado, gritou-lhes por três vezes:

— É muito velho, mas é ótimo! Os diáconos ficaram tão aturdidos e espantados de que os ouvisse, que, brancos, sem saber onde se enfiar, acabaram por esboçar o riso mais amarelo que se possa conceber, estatelados no lugar.

Pouco depois, a orar, viu Ambrósio o Salvador, que se aproximava, o rosto belíssimo aberto num belíssimo sorriso. Com Santo Ambrósio, então, estava o bispo de Lodi, Bassiano, ao qual referiu a visão. Bassiano, depois, por sua vez, relatou-a a Paulino. Uns dias mais e falecia, depois de estar a orar quietamente por cinco horas. Era pouco mais de meia-noite. Estivera rezando, com as mãos estendidas em forma de cruz, tão baixinho que se não percebia nada do que lhe saía dos lábios que se moviam brandamente. Honorato, bispo de Verceil, que estava presente na ocasião, cansado, levantou-se e foi buscar, num aposento ao lado, um pouco de repouso.

Nem bem se deitara e uma voz lhe dizia, por três vezes;

— Levanta-te depressa, porque ele vai partir!
Honorato deixou o quarto que buscara, precipitadamente. Chegou à cabeceira do Santo e deu-lhe o corpo do Senhor. E Ambrósio, recebida a santa hóstia, morreu. Era pela noite de aexta-feira para o sábado santo, 4 de abril de 397. Estava Ambrósio com cinquenta e sete anos, cumprindo vinte e dois anos e quatro meses de bispado.

Levado para a igreja, lá ficou exposto até a noite seguinte. Muitas crianças batizadas naquela noite, que era a vigília da Páscoa, viram-no sair da pia batismal: umas diziam que o Santo estava sentado numa cadeira, sobre o tribunal da Igreja; outras, que andava, e mostravam-no, apontando-lhe o dedo, aos pais, que, entretanto, nada viam. Muitas, que trazia uma bela estrela sobre o corpo.

Pela manhã, celebrados os santos mistérios, transportaram-no para a basílica Ambrosiana, onde foi enterrado. E os demônios, testemunhando a raiva incontida, gritavam terrivelmente, o que também sucedeu em várias províncias, durante muitos anos.

Gente de todas as condições e de todas as idades, pagãos e judeus, acompanhou o enterro. Ao corpo, procuravam tocá-lo com lenços, que eram guardados como relíquias.

No dia em que morreu, Ambrósio apareceu para muitas santas personagens no Oriente, rezando com elas e impondo-lhes as mãos. Apareceu também em Florença, segundo a promessa que havia feito aos que lhe rogaram que fosse visitá-los. Viram-no muitas vezes a orar diante do altar da basílica Ambrosiana, que erigira. É sob o testemunho de São Zenon, bispo de Florença, que Paulino relata estes fatos na Vida de Santo Ambrósio, escrita pouco depois, a pedido de Santo Agostinto, sobre o que ele mesmo, Paulino, viu, ou soube: por Santa Marcelina, irmã do Santo, o por outras personagens dignas de fé.

.Fonte: Padre Rohrbacher, Vida dos Santos XXI

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