Sagradas Escrituras
« Na terra de Hevilat nasce ouro e esse ouro é puríssimo » (Gn 2,11-12)
Introdução | A amplidão da Sagrada Escritura | A profundidade das Sagradas Escrituras | A edição da Vulgata da Bíblia e o modo de interpretação |
Sobre o Cânon Bíblico | Comentários Bíblicos
I- Introdução
Ensina-nos o Doutor Evangélico que, « Hevilat interpreta-se parturiente e significa Sagrada Escritura, a qual é como a terra, que primeiramente produz a erva, depois a espiga e, finalmente, o grão maduro na espiga.
Na terra de Hevilat nasce, portanto, ouro puríssimo, pois que no texto das páginas divinas se forma a ciência sagrada; e como o ouro está acima de todos os metais, assim a ciência sagrada sobressai a toda a ciência: Não conhece as letras quem ignora a Escritura Sagrada ». 1
Segundo Cornélio a Lapide, « Santo Atanásio, Santo Agostinho e Santo Antônio Abade chamavam a Sagrada Escritura, carta enviada pelo Céu aos homens. A Sagrada Escritura é pois segundo São Gregório Magno, uma epístola do Onipotente à sua criatura.
O mesmo Espírito Santo tem ditado a Sagrada Escritura, disse São Cipriano; os profetas (como também os Evangelistas e os Apóstolos) não eram mais que amanuenses, ou também a pluma do Espírito Santo ». 2
Ensina-nos também o Doutor Seráfico que, « a fonte da Sagrada escritura não está, pois, na investigação humana, mas na revelação divina que flui do Pai das luzes, do qual toma nome toda a paternidade do céu e da terra, de quem, por seu Filho Jesus Cristo promana em nós o Espírito Santo, Espírito este que divide e distribui os dons a cada um assim como quer, sendo por ele dada à fé, e pela fé Cristo habita em nossos corações. Deste conhecimento de Jesus Cristo, promana originariamente a firmeza e a inteligência de toda a Sagrada Escritura. Por isso, é impossível que alguém nela penetre, e a conheça, sem que antes tenha infusa em si a fé de Cristo, que é como o luzeiro, a porta e também o fundamento de toda a Escritura. De fato, enquanto caminhamos para o Senhor, esta fé é o fundamento que confere solidez, o luzeiro que conduz e a parte introdutória para todas as iluminações sobrenaturais. Segundo sua medita deve-se igualmente medir a sabedoria que nos foi dada por Deus, para que alguém não saiba mais do que convém saber, mas que (saiba) com temperança e conforme a medida da fé distribuída por Deus a cada um. Mediante esta fé, pois, nos é dado o conhecimento da Sagrada Escritura, pela influência da Trindade Santa, do qual foi dito: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes” (Tg 1,17) ». 3
« Deus dispôs o homem para um fim sobrenatural » 4
Pois « Deus providentíssimo, que no Seu admirável designo do seu amor, desde o princípio conduziu o gênero humano a participar da natureza divina (...), para manifestar-lhe de maneira sobrenatural os mistérios de sua divindade, da sua sabedoria e misericórdia(...) E essa revelação sobrenatural, segundo a fé universal da Igreja, está contida nas tradições não escritas, e também nos livros escritos que são chamados sagrados e canônicos, porque tendo sido escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor e como tais foram confiados a Igreja » 5
E « Primeiramente falou-nos Deus pela boca dos profetas, depois ele mesmo, e posteriormente pela boca dos apóstolos, é também autor das Escrituras, que são chamadas ‘Canônicas’ » 6
São Clemente Romano, São Policarpo de Esmirna e Santo Irineo de Lião dizem que « as Sagradas Escrituras são oráculos e locuções divinas ».
« Uma Carta, como dizia São João Crisóstomo, Santo Agostinho e São Gregório, enviada pelo Pai Celeste e transmitida ao gênero humano peregrino, longe da pátria, por meio dos autores sagrados ».
Por isso que diz São Paulo que « toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda obra » 7
« Com efeito, a Igreja recebe todos os livros das Sagradas Escrituras, na sua integridade, como sagrados e canônicos. E em todas as suas partes, foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo, e portanto, é impossível que a inspiração divina contenha algum erro, que ela, pela sua própria natureza, não somente exclui até o mínimo erro, mas o exclui e rejeita tão necessariamente, como necessariamente Deus, Verdade Suma, não pode, da maneira mais absoluta ser autor de algum erro » 8
« O Concílio de Trento, com solene decreto, determinou que deve reconhecer-se como Sagrados e canônicos os livros inteiros das Sagradas Escrituras, com todas as suas partes conforme se costuma ler na Igreja Católica e estão na antiga Vulgata Latina » 9
Santo Agostinho dizia que « Nosso Senhor com seus milagres conciliou-se a autoridade, com a autoridade obteve a fé e com a fé atraiu as multidões » 10
Costumava Nosso Senhor, como disse o Papa Leão XIII, « no exercício de seu mandato divino, recorrer às Escrituras Sagradas, e delas tirar os argumentos para ensinar os seus discípulos, e para confirmar a sua doutrina. Serviu-se delas até o fim de sua vida, e, ressuscitado, explicou-as aos discípulos até sua ascensão à glória do Pai. Usou-as também contra as calúnias de seus desabonadores e as apresenta para responder, aos saduceus e aos fariseus e recorre-as até contra o próprio Satanás » 11
« As armas da nossa milícia, dizia o Doutor Máximo nas Sagradas Escrituras, não são carnais, mas todo nosso poder nos vem de Deus » 12
Continua o mesmo Doutor: « A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo; e aquele que é fortalecido pelo testemunho das Sagradas Escrituras, com certeza é poderoso baluarte para a Igreja » 13
O já mencionado Papa, (Leão XIII), disse que « os oradores sagrados, os quais, agradecidos a Deus, afirmam que a sua fama se devia de maneira especial ao uso assíduo e à meditação piedosa da Sagrada Escritura » 14
Os Santos Padres, tendo experimentado muito bem essas coisas, quer especulativamente, quer praticamente, nunca cessaram de louvar as letras divinas e os seus frutos. Assim São João Crisóstomo, chama-as de « tesouro riquíssimo das doutrinas celestes » 15
Santo Atanásio por sua vez, chama-as de « fontes perenes de salvação » 16
Santo Ambrósio de Milão, dizia « são campos férteis e hortos ameníssimos nos quais o rebanho do Senhor é admiravelmente alimentado e recriado » 17
São Jerônimo exortava dizendo: « Lê com freqüência as Escrituras divinas, e esta leitura sagrada nunca seja deposta de tuas mãos » 18 E referindo aos clérigos dizia: « aprende o que ensinas, a fala do sacerdote seja condimentada pela leitura das Escrituras » 19
Escreveu mais sapientemente do que qualquer outro as tarefas dos pastores da Igreja, dizia o Papa Leão XIII referindo-se a São Gregório Magno, o qual nos diz que: « É necessário que os que têm o encargo da pregação nunca deixem de lado o estudo do texto sagrado » 20
Referindo-se ao sacerdote dizia Santo Agostinho que « está vazio aquele pregador que não seja discípulo íntimo das Sagradas Escrituras » 21
E por ventura São Gregório em outra parte diz: « Antes de pregar aos outros, pensem em si mesmos, para que não aconteça que prestando atenção aos outros esqueçam-se de si mesmos » 22
São João Crisóstomo se referindo aos sacerdotes, dizia: « é necessário muito estudo, para que o verbo de Cristo habite abundantemente em nós (Cl 3,16) ; pois não devemos estar preparados para um só gênero de luta, sendo multíplice a batalha e vários os inimigos, os quais geralmente não se servem todos da mesma armas, nem usam tática única para entrar em luta contra nós. Por isso é preciso que aquele que deverá combater contra toda espécie de inimigos tenha conhecimento profundo de todos os instrumentos e artes dos adversários para ser assim ao mesmo tempo arqueiro e fundibulário, tribuno, e chefe, capitão e soldado, soldado de infantaria e cavaleiro, perito em guerras navais e cidades assediadas; com efeito, se não conhecer todas as artes do combater, o diabo, quando uma das partes for deixada sem defesa, saberá fazer penetrar por ela os seus salteadores e dilacerar todo o rebanho » 23
Pois « verdadeiramente nas Sagradas Escrituras, são oferecidas ajudas preciosas para a salvação e perfeição própria e dos outros, ilustradas mais abundantemente nos Salmos; porém para aqueles que prestam à palavra divina não só uma mente dócil e atenta, mas também uma vontade habitualmente íntegra e piedosa. Com efeito não se deve atribuir o valor de tais livros na mesma proporção que aos outros; pois eles, sendo inspirados pelo Espírito santo, e contendo coisas importantíssimas, e, sobre muitos pontos, recônditas e muito difíceis precisamos sempre da intervenção do mesmo Espírito, isto é, de sua iluminação e da sua graça. Esses meios, como com freqüente insistência admoesta a autoridade do Salmista divino, devemos implorar com oração humilde e guardar em nós com a santidade de vida » 24
II- A amplidão da Sagrada Escritura
« Se queremos, diz São Boaventura, examinar a amplidão da Sagrada Escritura, ocorre-nos imediatamente a idéia de dividi-la em dois Testamentos, o Antigo e o Novo. O Antigo Testamento se nos apresenta com uma multidão de livros. Encerra, com efeito, livros legais, históricos, sapienciais e proféticos. Os legais são cinco; os históricos, dez; os sapienciais, cinco; e os proféticos, seis, num total de 26 livros. O Novo Testamento também possui os livros correspondentes a estas quatro classes. Aos livros legais, correspondem os Evangelhos; aos históricos, os Atos dos Apóstolos; aos sapienciais, as epístolas, principalmente as de São Paulo; e aos proféticos, o Apocalipse. Deste modo, há uma conformidade admirável entre o Antigo e o Novo Testamento, não só quanto ao conteúdo, mas também na quadriformidade das partes. Como imagem e significação disso, Ezequiel viu as rodas de quatro faces em uma roda no meio de outra roda, porque o Antigo Testamento encontra-se no Novo, e vice-versa, devido à excelência da doutrina; nos históricos, a do boi, pelos exemplos de virtude; nos sapienciais, a do homem, por causa da prudência sagaz; e nos proféticos, a da águia, devido à perspicácia da inteligência ». 25
Com razão, dizia o Doutro Seráfico, pois, « divide-se a Sagrada Escritura em Antigo e Novo Testamento, e não em teórica e prática, como a filosofia: a Escritura possui seu fundamento específico no conhecimento da fé, cuja virtude é base dos costumes, da justiça e de todo o viver com retidão, e por isso nela não se pode separar o conhecimento das coisas (daquilo que se deve crer) do conhecimento dos costumes (daquilo que se deve praticar). Diferente é o caso da filosofia, que se ocupa não só da verdade dos costumes, mas também da mera especulação da verdade. Pelo fato, pois, de ser a Sagrada Escritura um conhecimento que move para o bem e afasta do mal – graças ao temor e ao amor – por isto divide-se em dois Testamento, cuja « curta diferença é o temor e o amor ».
E como alguém pode ser movido para o bem e afastado do mal de quatro modo, a saber: pelos preceitos da majestade onipotente, pelos documentos da verdade sapientíssima, pelos exemplos e benefícios da bondade inocentíssima, ou por todos estes meios em conjunto, por isso, tanto no Antigo como no Novo Testamento, foram-nos legadas quatro classes de livros, que contêm a Escritura, e que corresponde às quatro maneiras de seguir o bem e evitar o mal. Assim os livros legais movem pelos preceitos de majestade onipotente; os históricos, pelos exemplos da bondade inocentíssima; os sapienciais, pelos documentos da verdade providentíssima; os proféticos, pelo conjunto dos modos preditos. Por isso, estes são como que rememorativos de toda a sabedoria legal e da doutrina.
A Sagrada Escritura assemelha-se, pois a um rio larguíssimo que, pela afluência de muitas águas, cresce sempre mais, à medida que vai se distanciando. De fato, como houvesse inicialmente, na Escritura, os livros legais, sobreveio após a água da sabedoria dos livros históricos, adicionou-se em terceiro lugar a doutrina do sapientíssimo Salomão, após a qual, a doutrina dos santos profetas. Em fim, foi revelada a doutrina evangélica, proferida pela boca carnal de Cristo, escrita pelos evangelistas e divulgada pelos apóstolos, acrescentando-se ainda os documentos que o Espírito Santo, descendo sobre os mesmos apóstolos, por eles nos ensinou, afim de que, segundo a promessa divina, instruídos pelo Espírito Santo em toda a verdade, legassem à Igreja de Cristo, a doutrina de toda a verdade salvadora e, consumando a Sagrada Escritura, difundissem o conhecimento da verdade ». 26
III- A profundidade das Sagradas Escrituras
«A Sagrada Escritura, contém, em fim, como dizia o Doutor Seráfico, uma profundidade, que consiste na multiplicidade dos sentidos místicos. Além do sentido literal deve ela, em diversos tópicos, ser exposta de tríplice maneira, a saber: alegórica, moral e anagógica.
Há alegoria, quando por um fato é indicado outro, em que se há de crer. Há tropologia ou moralidade quando, pelo que foi feito, dá-se a entender outra coisa, que deve ser feita. Há anagogia, que é como que a condução para cima, quando se dá a entender o que se deve desejar, isto é, a felicidade dos santos ».27
Também nos diz a mesma coisa o Doutor Evangélico quando comparando a Terra de Hevilat, com a Sagrada Escritura e diz a respeito dela que, « primeiramente produz a erva, depois a espiga e, finalmente, o grão maduro na espiga. A erva constitui a alegoria, que edifica a fé, segundo dito: Produza a terra erva verdejante; na espiga, chamada assim de spiculus (ponta), entende-se a moralidade, que informa os costumes, e com a sua doçura transpassa e fere o ânimo; no grão maduro, anagogicamente, figura-se quando respeita à plenitude do gozo e à felicidade angélica».28
Também concorde está Cornélio A Lapide quando nos diz:
« As Sagradas Escrituras tem principalmente quatro sentidos; o sentido literal, que refere os fatos; o sentido alegórico, que indica o que temos de crer; o sentido tropológico ou sentido moral, que indica o que temos de fazer, e o sentido anagógico, que indica o que devemos esperar ».29
Termina o mesmo autor dando-nos um exemplo clássico:
«Por via de exemplo, nos diz ele, a Cidade de Jerusalém literalmente, significa a capital da Judéia; no sentido alegórico, figura a Igreja; no sentido tropológico ou moral, significa a alma fiel; e no sentido anagógico, significa a pátria celeste » 30
Assim também nos exprime o Doutor Angélico que, « a primeira significação, pela qual as palavras exprimem as coisas, é a do primeiro sentido, que é o histórico e ou literal; mas quando as coisas da lei antiga significam as da nova, o sentido é alegórico; quando as realizadas em Cristo, ou nos que significam, são sinais das que devemos fazer, o sentido é moral; e quando significam as coisas da glória eterna, o sentido é anagógico ».31
O Doutor Seráfico deduz então que, « toda a Sagrada Escritura nos ensina três coisas: a geração eterna e a Encarnação de Cristo, a norma de viver, e a união entre Deus e a alma. A primeira refere-se à fé, a segunda aos costumes, e a terceira ao fim de ambas. Sobre a primeira deve concentrar-se a atenção dos Doutores; sobre a segunda, a dos Pregadores, sobre a terceira, a das almas Contemplativas. A primeira é ensinada principalmente por Santo Agostinho, a segunda por São Gregório, e a terceira por Dionísio. Santo Anselmo segue a Santo Agostinho, São Bernardo a São Gregório e Ricardo de São Vitor a Dionísio, pois Santo Anselmo distingue-se pelo raciocínio, São Bernardo pela pregação e Ricardo pela contemplação. Mas Hugo de São Vitor sobressai em todas elas ». 32
Concluindo nos diz São Boaventura que, « é justo que deva existir na Escritura esse tríplice sentido além do literal, porque isto convém à matéria mesma, ao ouvinte ou discípulo, a origem e ao fim da mesma. Digo que convém à matéria porque é a doutrina sobre Deus, sobre Cristo, sobre as obras da reparação e sobre o que e crível. Sua matéria, pois, quanto à substância, é Deus, quanto à virtude, Cristo; quanto à operação, a obra de reparação e quanto a este conjunto todo, aquilo mesmo que é crível. Deus, de sua parte, é trino e uno; uno na essência, trino nas pessoas. Por isso a Escritura, que Dele provém, encerra, na unidade da letra, a triformidade do sentido. – Cristo também, sendo um só Verbo, diz-se que todas as coisas foram feitas por Ele e Nele reluzem, de forma que sua sabedoria é multiforme e uma. – As obras de reparação, sendo muitas, voltam-se todas para a oblação principal de Cristo. O Crível enquanto crível resplandece de modos diversos, segundo o estado diverso dos crentes. Portanto, devido à conformidade, contudo o que se disse, à Escritura, em uma letra, encerra sentido multiforme » 33
Então como dizia Jerônimo « Sem negar o sentido literal, nós adotamos de preferência o sentido espiritual (...) e não atendo apenas no sentido literal, devemos cavar mais fundo para ai achar o sentido divino (espiritual), do mesmo modo que se procura o ouro no seio da terra, o núcleo debaixo da casca, o fruto que se oculta sob a pele eriçada da castanha. Por isso dizia ele indicando a São Paulino que ‘a senda a seguir no estudo da Sagradas Escrituras, embora cada passagem dos livros divinos tenha uma casca viva e cintilante, mais doce ainda é o miolo. Quem quer saborear a amêndoa, deve quebrar a casa » 34
Finalizamos com o texto do Concílio de Trento referente o modo de interpretação:
IV-A edição da Vulgata da Bíblia e o modo de interpretação
O Concílio de Trento diz em seu canone 785: « Além disso, considerando que poderá resultar em não pequena utilidade para a Igreja de Deus, dando-se a conhecer qual de tantas edições latinas que correm dos Livros Sagrados se deve ter por legítima, esse mesmo sacrossanto Concílio determina e declara: que nas preleções públicas, nas discussões, pregações e exposições seja tida por legítima a antiga edição da Vulgata, que pelo longo uso de tantos séculos se comprovou na Igreja; e que ninguém, sob qualquer pretexto, se atreva ou presuma rejeitá-la ».
E no 786: « Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas. Os que se opuserem, sejam denunciados pelos Ordinários e castigados segundo as penas estabelecidas pelo direito. [Seguem uns preceitos sobre a impressão e aprovação dos livros, onde se estabelece entre outras coisas o seguinte:] que para o futuro a Sagrada Escritura, principalmente essa antiga edição da Vulgata, seja publicada do modo mais exato possível; e que a ninguém seja permitido imprimir ou fazer imprimir qualquer livro sobre assuntos sagrados sem o nome do autor, nem vendê-los ou retê-los consigo, se não forem primeiro examinados e aprovados pelo Ordinário… » 35
Sobre o Cânon Bíblico
O Sagrada Concílio de Trento falando dos Livros Sagrados e da Tradição dos Apóstolos diz na sua Sessão IV de 8 de abril de 1546:
Os Livros Sagrados e as Tradições dos Apóstolos
« 783. O sacrossanto Concílio Ecumênico e Geral de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo, e com a presidência dos mesmo três legados da Sé Apostólica, tendo sempre isto diante dos olhos que, rejeitados os erros, seja na Igreja conservada a pureza do Evangelho, prometido antes nas Escrituras Santas pelos profetas, o qual Nosso Senhor Jesus Cristo Filho de Deus, primeiramente com sua própria palavra o promulgou e depois, por meio de seus Apóstolos, mandou pregá-lo a toda criatura (Mt 18, 19 s; Mc 16, 15), como fonte de toda a verdade salutar e disciplina dos costumes. Vendo que esta verdade e disciplina estão contidos nos livros escritos e nas tradições orais, que – recebidas ou pelos Apóstolos dos lábios do próprio Cristo, ou dos próprios Apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo – chegaram até nós como que entregues de mão em mão, fiéis aos exemplos dos Padres ortodoxos, com igual sentimento de piedade e reverência aceita e venera todos os livros, tanto os do Antigo, como os do Novo Testamento, visto terem ambos o mesmo Deus por autor, bem como as mesmas tradições que se referem tanto à fé como aos costumes, quer sejam só oralmente recebidas de Cristo, quer sejam ditadas pelo Espírito Santo e conservadas por sucessão contínua na Igreja Católica. E para que não surja dúvida a alguém a respeito dos
livros que são aceitos pelo mesmo Concílio, resolveu ele ajuntar a este decreto o índice dos Livros Sagrados. São portanto os que a seguir vão enumerados:
Do Antigo Testamento: os 5 de Moisés, a saber: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; Josué, Juizes, Rute, os quatro dos Reis, os dois do Paralipômenos, o primeiro de Esdras e o segundo, que se chama Neemias; Tobias, Judite, Ester, Job, o Saltério de David com 150 salmos, os Provérbios, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias, com Baruque, Ezequiel, Daniel; os 12 profetas menores, isto é: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Nahum, Habacuc,
Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias; o primeiro e o segundo dos Macabeus.
Do Novo Testamento: Os quatro Evangelhos: segundo S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João; os Atos dos Apóstolos escritos pelo evangelista S. Lucas; as 14 epístolas de S. Paulo: aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Felipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a
Timóteo, a Tito, a Filêmon, aos Hebreus; duas do Apóstolo S. Pedro; três do Apóstolo S. João; uma do Apóstolo S. Tiago; uma do Apóstolo S. Judas; e o Apocalipse de S. João.
Se alguém não aceitar como sacros e canônicos esses livros na íntegra com todas as suas partes, como era costume serem lidos na Igreja Católica e como se encontram na edição antiga da Vulgata Latina; e desprezar ciente e premeditadamente as preditas tradições: - seja excomungado.
Portanto, depois de lançado o fundamento da confissão da fé, saibam todos em que ordem e em que sentido há de prosseguir o próprio Concílio e principalmente quais os testemunhos e argumentos que empregará na confirmação dos dogmas e na restauração dos costumes na Igreja »
Quantas vezes você já ouviu de algum protestante a afirmação de que a Igreja Católica teria acrescentado vários livros apócrifos à Bíblia durante o Concílio de Trento, no séc. XVI? Quando eles falam isso, estão querendo se referir a sete livros do Antigo Testamento que não se encontram em suas bíblias: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois livros dos Macabeus (além de alguns trechos dos livros de Daniel e Ester). Porém, a própria História - que é imutável - desmente tal argumento, vistos os testemunhos abaixo:
• "Cânon 36 - Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis1, dois livros dos Paralipômenos2, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão3, doze livros dos Profetas4, Isaías, Jeremias5, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras6 e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos7, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo8, uma do mesmo aos Hebreus9, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João.10 Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar11. É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários12" (Concílio de Hipona, 08.Out.393).
• "Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João12. Isto se fará saber também ao nosso santo irmão e sacerdote, Bonifácio, bispo da cidade de Roma, ou a outros bispos daquela região, para que este cânon seja confirmado, pois foi isto que recebemos dos Padres como lícito para ler na Igreja" (Concílio de Cartago III (397) e Concílio de Cartago IV (419)).
• "Tratemos agora sobre o que sente a Igreja Católica universal, bem como o que se dever ter como Sagradas Escrituras: um livro do Gênese, um livro do Êxodo, um livro do Levítico, um livro dos números, um livro do Deuteronômio; um livro de Josué, um livro dos Juízes, um livro de Rute; quatro livros dos Reis13, dois dos Paralipômenos; um livro do Saltério; três livros de Salomão: um dos Provérbios, um do Eclesiastes e um do Cântico dos Cânticos; outros: um da Sabedoria, um do Eclesiástico. Um de Isaías, um de Jeremias com um de Baruc e mais suas Lamentações, um de Ezequiel, um de Daniel; um de Joel, um de Abdias, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias, um de Malaquias. Um de Jó, um de Tobias, um de Judite, um de Ester, dois de Esdras, dois dos Macabeus. Um evangelho segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas, um segundo João. [Epístolas:] a dos Romanos, uma; a dos Coríntios, duas; a dos Efésios, uma; a dos Tessalonicenses, duas; a dos Gálatas, uma; a dos Filipenses, uma; a dos Colossences, uma; a Timóteo, duas; a Tito, uma; a Filemon, uma; aos Hebreus, uma. Apocalipse de João apóstolo; um, Atos dos Apóstolos, um. [Outras epístolas:] de Pedro apóstolo, duas; de Tiago apóstolo, uma; de João apóstolo, uma; do outro João presbítero, duas14; de Judas, o zelota, uma. (Catálogo dos livros sagrados, composto durante o pontificado de São Dâmaso [366-384], no Concílio de Roma de 382)
• "Quais os livros aceitos no cânon das Escrituras, o breve apêndice o mostra: Cinco livros de Moisés, isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Um livro de Josué, filho de Num; um livro dos Juízes; quatro livros dos Reinos; e Rute. Dezesseis livros dos Profetas; cinco livros de Salomão; o Saltério. Livros históricos: um de Jó, um de Tobias, um de Ester, um de Judite, dois dos Macabeus, dois de Esdras, dois dos Paralipômenos. Do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos; quatorze epístolas do apóstolo Paulo, três de João, duas de Pedro, uma de Judas, uma de Tiago; os Atos dos Apóstolos; e o Apocalipse de João" (papa Inocêncio I, 20.02.405; Carta "Consulenti Tibi" a Exupério, bispo de Tolosa).
• "Devemos agora tratar das Escrituras Divinas. Vejamos o que a Igreja Católica universalmente aceita e o que deve ser evitado: (1) Começa a ordem do Antigo Testamento: um livro da Gênese, um do Êxodo, um do Levítico, um dos Números, um do Deuteronômio, um de Josué (filho de Nun), um dos Juízes, um de Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, um livro de 150 Salmos, três livros de Salomão (um dos Provérbios, um do Eclesiastes, e um do Cântico dos Cânticos). Ainda um livro da Sabedoria e um do Eclesiástico. (2) A ordem dos Profetas: um livro de Isaías, um de Jeremias com Cinoth (isto é, as suas Lamentações), um livro de Ezequiel, um de Daniel, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Joel, um de Abdias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias e um de Malaquias. (3) A ordem dos livros históricos: um de Jó, um de Tobias, dois de Esdras, um de Ester, um de Judite e dois dos Macabeus. (4)A ordem das escrituras do Novo Testamento, que a Santa e Católica Igreja Romana aceita e venera são: quatro livros dos Evangelhos (um segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas e um segundo João). Ainda um livro dos Atos dos Apóstolos. As 14 epístolas de Paulo Apóstolo: uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Efésios, duas aos Tessalonicenses, uma aos Gálatas, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon e uma aos Hebreus. Ainda um livro do Apocalipse de João. Ainda sete epístolas canônicas: duas do Apóstolo Pedro, uma do Apóstolo Tiago, uma de João Apóstolo, duas epístolas do outro João (presbítero) e uma de Judas Apóstolo (o zelota)" (papa S. Gelásio, ~495; Decreto Gelasiano; repetido em 520 pelo papa S. Hormisdas. Seguido também pelo Concílio Ecumênico de Florença15 [1438-1445], e novamente ratificado pelos Concílio de Trento16 [1546-1563] e Vaticano I [1870])).
• Outras Fontes:
Concílio Regional de Trulos, realizado no ano 692.
1Trata-se dos dois livros de Samuel (1Rs/2Rs) e os dois livros de Reis (3Rs/4Rs).
2Isto é, os dois livros das Crônicas (1Cr/2Cr).
3Ou seja: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico.
4A saber: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
5Incluindo as "Lamentações" e "Baruc", segundo a Septuaginta.
6Isto é, o livro de Esdras e o livro de Neemias.
7Mateus, Marcos, Lucas e João.
8Aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito e a Filemon.
9Curiosa distinção resultada, provavelmente, dos escrúpulos que a Igreja Africana tinha a respeito da autenticidade literária paulina dessa epístola.
10Percebe-se, assim, que o cânon coincide perfeitamente com o cânon definido pelo Concílio de Trento.
11Trata-se da Igreja de Roma.
12Alusão ao culto dos santos mártires.
13Os Concílios regionais de Cartago simplesmente repetem, com as mesmas palavras, o conteúdo do cânon 36 do Concílio regional de Hipona. A diferença está somente na conclusão.
14Interessante distinção, já que antiquíssima tradição de Éfeso distinguia o João Apóstolo de um João Presbítero, da mesma região.
15cf. Decreto "Pro Iacobitis" (da Bula "Cantate Domino", de 04.02.1441): "...O Sacrossanto Concílio professa que um e o mesmo Deus é o autor do Antigo e do Novo Testamento, isto é, da Lei, dos Profetas e do Evangelho, pois os santos de ambos os Testamentos falaram sob a inspiração do mesmo Espírito Santo. Este Concílio aceita e venera os seus livros que vêm indicados pelos títulos seguintes: Cinco livros de Moisés (isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, Jó, o Saltério de Davi, as Parábolas (Provérbios), Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze Profetas menores (isto é, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias) e dois livros dos Macabeus. Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), catorze epístolas de Paulo (uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon, uma aos Hebreus), duas epístolas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João".
16cf. Decreto sobre o Cânon (sessão IV, de 08.04.1546).
Notas:
1- Santo Antônio de Pádua, Obras Completas – Prólogo.
2- Cornélio A. Lapide – Obras completas.
3- São Boaventura de Bagnorea – Obras Completas – Breviloquium
4- Concílio Vaticano I – Sessão III
5- Papa Leão XIII – Encíclica « Providentissimus Deus » de 18 de novembro de 1893
6- Ibidem.
7- II Tm 3,16-17.
8- Papa Leão XIII – Encíclica « Providentissimus Deus » de 18 de novembro de 1893
9- Papa Pio XII – Encíclica « Divino Afflante Spiritu » de 30 de setembro de 1943.
10- Santo Agostinho « De Utilitate Crendendi »
11- Papa Leão XIII – Encíclica « Providentissimus Deus » de 18 de novembro de 1893
12- São Jerônimo « Carta Nº 53 »
13- São Jerônimo « Comentário sobre o Profeta Isaías »
14- Papa Leão XIII – Encíclica « Providentissimus Deus » de 18 de novembro de 1893
15- São João Crisóstomo « Comentário do Gênesis, Homilia 21 »
16- Santo Atanásio « Carta 39 »
17- Santo Ambrósio de Milão « Comentário do Salmo 118 – Sermão XIX »
18- São Jerônimo « Carta 52 »
19- Ibidem.
20- São Gregório Magno - « Regula Pastoralis »
21- Santo Agostinho « Sermão 179 »
22- Ibidem do 20.
23- São João Crisóstomo « Sobre o Sacerdócio »
24- Papa Leão XIII – Encíclica « Providentissimus Deus » de 18 de novembro de 1893
25- São Boaventura de Bagnorea – Obras Completas – Breviloquium
26- Ibidem.
27- Ibidem.
28- Santo Antônio de Pádua, Obras Completas – Prólogo.
29- Cornélio A. Lapide – Obras completas.
30- Ibidem.
31- São Tomás de Aquino, Suma Teológica, prólogo.
32- São Boaventura, Obras Completas , Redução da Ciência a Teologia.
33- São Boaventura - Obras Completas – Breviloquium
34- Papa Benedito XV – Encíclica « Spiritus Paraclitus »
35- Concílio de Trento – Sessão IV
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