História da Igreja
Por Monsenhor Ernest Cauly Vigário geral de Reims Honrado com um breve de Leao XIII
Primeira Parte
Da História da Religião
Lição Preliminar
1. Objeto da historia da Religião A Religião,segundo explica santo Agostinho, une o homem a Deus.
A historia da Religião deve portanto ser a narração das comunicações de Deus com a humanidade,desde a origem do mundo até a época em que estamos.Deus é um,e a verdade religiosa é uma ,como o seu autor. Por isso, ela não muda; somente pode aperfeiçoar-se , e , na verdade ,Deus quis que realmente ela tivesse um progredir continuo ; a palavra de São Paulo , porém , fica sempre verdadeira: “Não há senão um único Senhor ,uma única fé religiosa” (Ef
4,5) Portanto os historiadores da Religião e da Igreja consideram a criação do homem como sendo o inicio da Religião cristã e católica . De fato , a verdadeira Religião consiste essencialmente em adorar um só Deus ,criador do universo , e em acreditar no Redentor da humanidade.Esta fé ,que forma o fundo do cristianismo ,sempre tem sido a parte principal do culto verdadeiro , e o meio necessário para alcançar a salvação ;remonta até a promessa que foi dada a Adão , logo depois s do seu pecado.
As gerações que precederam a vinda do salvador ,esperavam este salvador e , pela prática da Religião que o anunciava, preparavam – se ao seu advento ; as que se seguiram a Encarnação acreditam no Messias, e só podem ter parte na sua Redenção pela fé nos seus ensinos e obediência Moisés seus preceitos : aí está toda a Religião.
2. Divisão geral da história da Religião.
Todavia com este titulo : história da Religião contemplou mais especialmente os tempos decorridos desde o começo do mundo até Jesus Cristo , ou melhor , até o fim completo da sua missão pessoal que coincide com a ruína de Jerusalém e do templo e põe termo à religião mosaica pela dispersão dos judeus. Os fatos religiosos ulteriores formam a história da Igreja. A história eclesiástica ,com efeito , considera a Igreja na sua origem , e nos dá a conhecer a sua marcha através dos séculos , desde a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos até os nossos dias.
Quanto à história da Religião , dividi-la-emos em três partes ,correspondentes a três grandes épocas da história do povo de Deus, e as três principais manifestações da verdade religiosa. Deus , que concebera desde toda a eternidade , o plano de uma religião digna de sua sabedoria infinita , marcou ,como que três estágios na revelação que dela fez ao mundo.
Houve, primeira , uma Religião primitiva , que constava das mais puras noções da lei natural e das primeiras revelações que Deus houve por bem fazer a Adão e depois aos patriarcas até Moisés , do ano de 4004 até 1491 (1) (ou de 4963 até 1645) antes de Cristo: será o objeto de um primeiro estudo, com o titulo de Religião primitiva ou Lei da natureza.
Depois , do intuito de levar a efeito as promessas, de trazer o seu povo à terra de Canaã, e de escolher uma nação fiel , que havia de guardar os princípios da verdadeira religião ,Deus enviou Moisés e lhe transmitiu sua lei. Exarou na pedra os dez mandamentos , confiando a Moisés a tarefa de explicá-los. O legislador obedece e escreve para os vindouros a relação das suas comunicações com o Altíssimo. Os historiadores sacros continuam-lhe seu trabalho; os profetas ali trazem igualmente os seus ensinos e a este conjunto dá-se o nome de Religião mosaica,também chamada lei escrita. O seu estudo formará uma segunda parte, que abrangerá de Moisés a Jesus Cristo ,desde 1491(1645) até a era cristã.
Enfim , ao terminar dos tempos,e depois do mundo,por quatro mil anos ,experimentou a sua desgraça e a extrema necessidade que tinha de um salvador ,Deus manda a terra seu Filho único ,Nosso Senhor Jesus Cristo. É a luz que deve iluminar todo o homem que vem a este mundo: fala ,comunica uma Religião inteiramente divina; aperfeiçoa as crenças , a moral , o culto; deixa ao gênero humano o legado imortal desta doutrina sublime que há de durar até o fim dos séculos: é a Religião cristã ou Lei evangélica. O exame atento e demorado que ela exige , faz o objeto de uma terceira parte, que resume a vida e os ensinos de Nosso Senhor, e continua até a dispersão do povo judeu, fato que termina a história da Religião.(Do ano 1 até 70 da era cristã)
Por entre essas peripécias , é a mesma Religião que avança e se desdobra. ”uma mesma luz, diz Bossuet, aparece em toda a parte; desponta com os patriarcas; aumenta com Moisés e os profetas; Jesus Cristo , maior que os patriarcas, mais autorizado que Moisés , mais ilustrado que todos os profetas, no-la mostra em toda a sua plenitude.” É esta Religião que a Igreja recebe das mãos do Filho de Deus , e que ela terá de transmitir até o fim dos tempos , iluminando-a com comentários e definições , conforme as necessidades das diferentes épocas.
3. As fontes da história sagrada.
A história da Religião tem as fontes nos livros sagrados que chamamos a Escritura Sagrada. Com este nome, designam-se os escritos deixados pelos homens inspirados por Deus.
Constituem a Bíblia, ou livro por excelência . A Bíblia abrange o Antigo e o Novo Testamento.
O antigo Testamento encerra todos os fatos da história sagrada que se deram desde a criação do homem ate Jesus Cristo. Vêm narrados nos livros inspirados escritos antes da vinda do Salvador.
São quarenta e cinco os livros do Antigo Testamento e dividem-se em livros históricos ,que abrangem a história propriamente dita da verdadeira Religião; livros morais, que dão os preceitos da moral revelada; livros proféticos,que relatam as predições inspiradas por Deus aos homens chamados profetas.
Os livros históricos são : o Gênesis , o Êxodo,o Levítico ,o Deuteronômio, e os Números . Estes cinco livros, obra de Moisés, são compreendidos sob o nome geral de Pentateuco. Os livros de Josué e dos Juízes continuam a história sacra debaixo do sucessor de Moisés e debaixo dos chefes que, por quatro séculos , governaram a nação em nome do Senhor,1451 – 1095 (1645 – 1080) antes de Cristo. Os quatro livros de Reis relatam os sucessos ocorridos nos reinos de Israel e de Judá,desde o advento de Saul até o cativeiro de Babilônia, 1095 até 598 (1080 – 588) A. C. Os dois livros dos Paralipómenos completam a volta do cativeiro, a reconstrução de Jerusalém e do templo (536 – 454. A. C.). Os dois livros dos Macabeus narram a libertação da Judéia sob as ordens desses príncipes valorosos que fizeram tremer o rei da Síria, e conseguiram,por algum tempo, restituir a sua nação o antigo prestigio. (167 – 135. A. C.) Enfim os livros de Rute, de Jó, de Tobias,de Ester, são outros tantos episódios interessantes, desligados da narração histórica e cuja data se acha no período que decorreu entre Moisés e a volta do cativeiro.
Os livros morais ou sapienciais são : o livro dos Salmos,sendo quase todos de Davi e alguns de Salomão ; os livros dos Provérbios , do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos, atribuídos ao mesmo Salomão ; enfim os livros da Sabedoria,compêndio de máximas e sentenças de um autor desconhecido, e do eclesiástico que se julga ser obra de Jesus , Filho de Sira.
Os livros Proféticos do Antigo Testamento são dezesseis e trazem o nome dos seus autores. Contam –se quatro grandes profetas e doze menores. Os grandes profetas são : Isaías,Jeremias,em cujo livro se insere a profecia de Baruc, seu discípulo e secretário,Ezequiel e Daniel. Os profetas menores são : Oséias,Joel,Amós ,Abdias,Jonas,Miquéias, Naum, Sofônias, Habacuc, Zacarias, Ageu e Malaquias. Estes profetas todos viveram nos tempos decorridos desde a monarquia de Ozias, rei de Judá ,até o regresso do cativeiro de Babilônia, sucedendo-se de 800 até 454 A. C.
É portanto destes livros do Antigo Testamento que tiramos os documentos relativos à história da Religião antes de Jesus Cristo. O que respeita à Religião primitiva só se encontra no primeiro livro de Moisés, o Gênesis. A Religião mosaica acha-se especialmente no Êxodo,no Levítico, e no Deuteronômio. Mas os livros morais e proféticos a completam vantajosamente no tocante as regras de proceder correto e a idéia que o povo de Israel devia conservar acerca do Messias prometido e esperado.
Quanto à Religião Cristã, achamos há um tempo sua origem, sua noção e primeira história nos livros do Novo Testamento.
Em número de vinte e sete, dividem-se estes livros,como os precedentes, em livros históricos, onde vemos escrita a história de Jesus Cristo e da sua doutrina; em livros morais,que contêm a moral evangélica desenvolvida pelos apóstolos ; há mais um livro profético que traz predições sobre a Igreja e o fim do mundo.
Os livros históricos do Novo Testamento são : os quatro Evangelhos escritos por são Mateus , são Marcos , são Lucas e são João. O mais antigo é o de são Mateus, escrito cerca do ano 42 de Jesus Cristo; o último composto é o de são João que o escreveu pelos fins do primeiro século. – Entre os livros históricos , devem –se contar ainda os Atos dos Apóstolos, livro escrito por são Lucas pelo ano de 64, em que são referidos os primeiros fatos sucedidos depois da ascensão do Salvador, os trabalhos e as viagens dos apóstolos , especialmente de são Paulo , de quem o escritor sacro era companheiro fiel.
Os livros morais do Novo Testamento constam de vinte e uma Epístolas ou cartas dirigidas pelos apóstolos as Igrejas que tinham fundado. – Quatorze são de são Paulo e foram enviadas do ano 52 até 66 de Jesus Cristo: uma é dirigida aos Romanos; duas aos Coríntios; uma aos Gálatas;uma aos Efésios ; uma aos Filipenses ; uma aos Colossenses; duas aos Tessalonicenses; duas a Timóteo, bispo de Éfeso ; uma a Tito , bispo de Creta; uma a um personagem por nome Filemon; e a ultima aos Hebreus . – Uma epístola é de são Tiago, composta para todo o mundo católico. – Duas são de são Pedro, igualmente para toda a cristandade. – Três são de são João : uma devia acompanhar o seu Evangelho, e as duas outras são dedicadas a Electa, mãe católica, e a Caio discípulo do Apostolo. – Enfim a ultima Epístola é a de são Judas.
O Novo Testamento só tem um livro profético: é o Apocalipse, ou revelações de são João, escrita por este Apóstolo, pelo ano 94, na ilha de Patmos, para onde Domiciano o tinha exilado. Ali vêm descritas as lutas e perseguições da Igreja, assim como as cenas do fim do mundo e do ultimo juízo.
Rigorosamente falando , os quatro Evangelhos , completados pela Tradição , são as únicas fontes da história evangélica. Os Atos dos Apóstolos ,as Epístolas e o Apocalipse formam antes os primeiros monumentos inspirados da história da Igreja.
4. O teatro das divinas Escrituras.
Antes de entrarmos no assunto da história sagrada, não será ocioso determos a vista no país onde se desenrolam os fatos religiosos,e onde se produzem as manifestações sucessivas da verdade que há de iluminar todos os povos e todas as inteligências .
Primeiro a Bíblia aponta o centro da Ásia como berço do gênero humano. A mesopotâmia , situada entre o Tigre e o Eufrates deve ter sido a região do Paraíso terreal. Da imensa varsea de Senar, do pé da torre de Babel, partiram as famílias que povoaram a terra.
Quando Deus escolheu Abraão para ser o pai dos crentes, marcou-lhe a residência na Terra de Canaã; é o país que foi chamado: Terra prometida, desde a vocação de Abraão até a entrada de Josué e do povo escolhido nesta herança prometida aos seus antepassados; Terra de Israel, depois da conquista e da divisão entre as doze tribos; Reino de Judá e de Israel , depois do cisma que dividiu o império de Salomão. Desde o cativeiro da Babilônia até o tempo de Nosso Senhor, foi denominado Judéa; nas idades cristãs , Terra Santa; enfim os geógrafos designam esta mesma região pelo nome de Palestina, em razão de uns seus antigos habitantes , os Filisteus.
Limita-se ao norte e pelo Líbano e o Antilíbano, duas serranias que se desprendem dos montes da Síria e correm paralelas. O Líbano faz frente ao Mediterrâneo, sem se afastar nunca mais de sete para oito léguas da costa; o Antilíbano tem a leste as planícies de Damasco, terminando , no sul, pelos altos cumes do Grande Hermon.
Do Líbano, designam –se muitas ramificações , uma das quais atravessa o centro da Judéia com o nome de montes de Efraim e montes de Judá, outra forma o Carmelo, cuja extremidade setentrional penetra ao longe no mar. Outros pontos culminantes são o Tabor,os picos de Gelboé, Garizim,Silo, o Gólgota ou Calvário,o monte das Oliveiras, a montanha de Sião, a de Moriá.
Do Antilíbano, baixam os montes de Galaad, que ladeiam o Jordão na margem direita. Na fralda destas montanhas,desdobram algumas veigas, ora áridas , ora ubérrimas.
A Palestina só tem um rio , o Jordão , com tríplice nascente no Hermon. Depois de ter atravessado as águas do Merom e do mar da Galiléia ou lago de Tiberíades, desliza no lindo vale de Aulon até o mar Morto em que se lança.
O mar Morto , ou lago Asfaltito, que recebe o Jordão , possui um nível muito inferior ao mar Mediterrâneo e suas praias apresentam o aspecto de uma terra silenciosa e maldita.
Antes da conquista de Josué , a Terra prometida era habitada por sete nações, oriundas de Canaã: os Hebreus, os Jebuseus, os Amorreus, os Hevéus, os Fariseus, os Cananeus e os Gergeseus. Estes povos eram idolatras e entregues aos vícios mais hediondos.
Os povos vizinhos da Terra prometida eram : ao norte , os Fenícios ou Cananeus, que tinham escapado da conquista , e os Coele-Syrios,ou Sírios de Damasco; a leste , os Ammonitas e os Moabitas, descendentes de Ló, sobrinho de Abraão; no meio –dia ,os madianitas, descendentes de Abraão por Madiã,filho de Cetura,os Idumeus, descendentes de Esaú ou Edom, irmão de Jacob, eos Amalecitas descendentes de Amalec, neto de Esaú ; enfim , no ocidente , no litoral os Filisteus , de origem egípcia. Estes por fim dominados ou submetidos ao imposto , pelo povo de Deus.
Por sua posição geográfica no centro do mundo se aprendia e se perpetuava a verdade religiosa nesses primeiros séculos da humanidade.
Os historiadores da Religião, Bossuet primeiro , dividiram em idades diferentes os tempos decorridos, tendo o especial cuidado , para caracterizar cada época, de escolher a um tempo um homem celebre e um grande acontecimento para melhor despertar a atenção. Assim é que o ilustre autor da História universal divide seu discurso em doze épocas, desde Adão e a criação até Carlos Magno e o estabelecimento do novo império. Assim também , a história sagrada vem geralmente dividida em seis épocas , salientando os seis fatos magnos da nacionalidade e da religião judaicas. Agora veremos as ultimas divisões, geralmente aceitas. Três delas quadram com a duração da Religião primitiva: a primeira, desde a criação até o dilúvio, 4004 – 2348 (ou 4963 – 3308) A. C. ; a segunda do dilúvio até a vocação de Abraão, 2348 – 1925 (ou 3308 – 2296) A. C. ; a terceira desde a vocação de Abraão até Moisés,1925 – 1491 (ou 2296 – 1645) A. C. Entretanto, já que tencionamos estudar particularmente a continuidade da Religião , demoraremos mais , nestes três capílutos , nos nomes e fatos históricos que têm, como nosso fim , uma relação mais imediata . Estes acontecimentos levar-nos-ão desde o berço do gênero humano até as fraldas do Sinai, isto é , até a aurora da Lei escrita.
Capítulo I
Da criação até o dilúvio
(Primeira época)
4004 – 2348 A. C. (4963 – 3308)
Princípio da historia sagrada
Na primeira pagina do Genesis, deparamos esta palavra : “no começo , Deus criou o céu e a terra .”
É a primeira frase traçada por Moises , o mais antigo dos historiadores , o mais sublime dos filósofos , o mais sábio dos legisladores . Senão , veja-se : nos tempos em que os historiadores profanos nada têm que relatar a não ser fabulas , ou , quando muito, fatos confusos e meios esquecidos, a Bíblia , isto é , sem contestação o livro mais antigo do mundo, lembra- nos o ser inicial e necessário que tudo fez, lembra-nos sua obra, maravilha de poder e sabedoria: a criação do universo. Presenciamos a origem do homem, a formação da primeira mulher ; ouvimos as condições postas pelo criador para a existência perpetua do estado de inocência e felicidade , a sentença de condenação pronunciada contra eles , a promessa de salvação e redenção; vemos finalmente as primeiras conseqüências e o terrível castigo dos pecados cometidos pela raça decaída.
Neste capitulo, faremos algumas reflexões : 1° sobre a criação em geral, e a do homem em particular ; 2° sobre a queda e os resultados que traz a respeito da Religião ; sobre a história dos primeiros homens : Caim , Abel, Set. e seus descendentes.
Artigo 1
A Criação
I- Criação em geral. II- Criação do primeiro homem e da primeira mulher. III- A Religião no estado de inocência.
I – Criação em geral.
No começo ,Deus criou o céu e a terra. A terra estava informe e nua , as trevas cobriam o abismo , e o espírito de Deus andava sobre as águas.
Deus disse :”Que a luz seja!” e a luz foi . Então separou a luz das trevas, e assim houve o dia e a noite .
Este foi o primeiro dia, ou , querendo , a primeira época da criação .
“No segundo dia, Deus falou:” Estenda o firmamento sobre as águas e as separe.” Assim fez Deus o firmamento, separou as águas superiores das águas inferiores , e deu ao firmamento o nome de céu.
No terceiro dia, Deus falou ainda : “ajuntem – se as águas que estão debaixo do céu e apareça o elemento árido.” Logo e para sempre, ficaram a terra e o mar distintos. Em seguida, mandou que a terra produzisse plantas e arvores de todas as espécies , que trouxessem sementes e tivessem o poder de reproduzir-se.
No quarto dia , Deus disse:” Haja no céu corpos luminosos para separar o dia da noite, sejam eles sinais que limitem o tempo e as estações , brilhem eles no céu e iluminem a terra.
E assim Deus fez o sol , a lua e as estrelas.
No quinto dia , Deus disse: “produzam as águas animais para viver no mar e povoem-se os ares de aves.” E criaram os peixes , maiores e menores , todos os animais que vivem e nadam no seio das águas; criou também todas as aves , cada uma segundo a sua espécie.
Enfim , no sexto dia , Deus falou: “Produza a terra animais vivos , cada um segundo a sua espécie , animais domésticos, repteis e bichos selvagens.” E desta forma, criou todas as espécies de animais que deviam habitar a terra.
II- Criação do primeiro homem e da primeira mulher.
Preparado estava o palácio ; mas na criação faltava o rei. Ate então ; uma palavra é quanto Deus quis empregar para tudo criar ; ora , eis que na tarde deste sexto dia , o Criador , por assim dizer, entrou a refletir. Adivinha-se que uma coisa maior está para se fazer. Ele disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; mande ele aos peixes do mar, as aves do céu, aos bichos e a todos os repteis que se movem debaixo do sol.” Então , com o barro da terra, Deus formou o corpo do homem; bafejou nesta matéria ainda vivente , e Deus o nomeou Adão , que significa: tirado da terra.
Mas, em meio de todos estes seres vivos, o homem estava sozinho, sem criatura alguma de sua espécie. “não é bom que fique assim, disse o Senhor ; façamos ao homem uma companheira que lhe seja semelhante.” E Ele mandou a Adão um sono profundo durante o qual lhe tirou uma das costelas para com ela formarem a primeira mulher. Ao acordar , Adão contemplando este ser novo exclamou: “Eis aqui osso de meus ossos ,carne de minha carne.” Desta origem maravilhosa , o Senhor deduz o principio do matrimonio cristão indissolúvel, o qual une dois seres para formarem um só coração . E Deus , a esta primeira mulher , chamou Eva ,isto é , mãe dos vivos.
No sétimo dia, Deus tinha acabado a sua obra ; então , descansou, e tendo abençoado este dia, santificou-o.
Depois , colocou nossos primeiros pais num lugar de delicias chamado Éden ou paraíso terreal.
III- A Religião no estado de inocência.
"Não há coisa alguma mais antiga entre os homens , diz Bossuet, do que a Religião"; como efeito , si nisto atentarmos ,veremos logo aparecera nesta primeira pagina da Bíblia ,todos os elementos essenciais e constitutivos da Religião.
Primeiro o, revela-se o Ser todo poderoso, eterno e infinito que chamamos Deus; é o espírito criador e soberano de todas as coisas. Não ordenou somente o mundo; criou também do nada a matéria com a qual o formou; cada planta,cada animal, o homem finalmente, foram , por sua vez, o objeto de uma criação direta e imediata. Este Ser infinito e eterno, poderoso e sábio , que vem a ser ele, na sua natureza? Não havemos de descortinar a Santíssima Trindade nesta palavra, significativa do conselho divino. “Façamos o homem à nossa imagem ?...” Não será evidente também que este Deus é distinto da sua criação , pois ele a faz surgir, não de si mesmo , senão do nada? Enfim não há de ser o homem um ente privilegiado por ser criado à semelhança de Deus?
De fato , mostra-se o homem debaixo do seu aspecto verdadeiro: é uma alma vivente. Parecido com Deus, ele há de ter, como o seu autor, inteligência, vontade, liberdade, imortalidade.
Entre estes dois seres, o Criador infinito e sua criatura finita e limitada, dotada porem de inteligência e liberdade, hão de nascer naturalmente relações recíprocas. Por sua parte, o Deus criador e atraído para sua criatura predileta, pela bondade, pelo amor, pela comunicação de sua palavra de verdade; por outra parte, o homem inteligente volve-se para Deus afim de adorá-lo , agradecer-lhe , cantar seus louvores e reconhecer a sua doce autoridade paterna.
Neste primeiro estado de inocência, extremava-se nisso de algum modo , toda a Religião; já porem , eis que estes deveres naturais, a divina bondade acrescenta preceitos positivos: a santificação do sétimo dia , por exemplo, e , pouco depois, a ordem terminante para nossos primeiros pais de não comerem da fruta da arvore da ciência do bem e do mal.
Igualmente, na ordem moral, manifestava-se a lei do amor e da caridade: estes dois seres inteligentes , Adão e Eva, devem se amar mutuamente, assim como cada um ama a própria pessoa; sua união é indissolúvel e não será licito separar o que Deus uniu.
Enfim ,na criação de Eva divisaram os santos Padres uma figura profética da Igreja , tirada na cruz do lado de Nosso Senhor Jesus Cristo , seu divino esposo. O sono de Adão , diz santo Agostinho , representava a morte de Cristo, e do lado aberto pela lança do soldado romano, saiu sangue e água , isto é, os dois sacramentos que constituem a Igreja.
Artigo 2
A queda do homem
I- O estado de inocência e seus privilégios. II- A desobediência e suas conseqüências. III- Primeira promessa de um Redentor. IV- A Religião no estado de decadência.
I- Estado de inocência e seus privilégios
Ao saírem das mãos de Deus , Adão e Eva eram inocentes e puros; estado esse que se chama de justiça original. Não haviam de sofrer nem de morrer; o corpo, isento do trabalho e das misérias da vida , devia passar desta existência terrestre para uma vida sem fim e sempre feliz; o espírito nada sabia das trevas da ignorância ; a alma estava inclinada para o bem. Deus não somente presenteará o homem com uma natureza de semelhança consigo , mas mimoseara ainda com todos os dons da graça : cá na terra , a sua amizade e comunicação eram intimas; no céu , a própria felicidade divina havia de ser o galardão de Adão e Eva e de toda a sua posteridade.
Deus , entretanto, usando do seu direito de soberano e de senhor, tinha posto uma condição para a conservação desta ventura terrena e desta felicidade sobrenatural: queria um ato de submissão e dependência,e dissera: “Podeis comer das frutas de todas as arvores do jardim, com exceção da fruta da arvore da ciência do bem e do mal; pois , no próprio dia em que dela comerdes , caireis nas garras da morte.”
“Deus , diz Bossuet, dá um preceito ao homem para ele saber e sentir que tem um senhor ; um preceito ligado a uma coisa sensível , porque o homem possuía sentidos; um preceito fácil, pois queria que a vida corresse agradável ao homem , enquanto este se conservasse inocente.”
II- A desobediência e sua conseqüência.
Antes do homem, Deus tinha criado os anjos, puro espíritos destinados a viver sem que fossem, como a nossa alma, unidos aos corpos. Ele , cujas obras todas eram boas,os criará na santidade, e eles podiam perpetuá-la , obedecendo a seu Criador. Os anjos, igualmente , tiveram que passar por uma provação . Alguns –foi a maior parte –permaneceram fieis e foram confirmados para sempre no seu estado de perfeição e de felicidade. São os bons anjos que adoram a Deus no céu , cumprem as suas ordens no universo e zelam pela salvação dos homens.Os outros , com Lúcifer na frente , cegos pelo orgulho, negaram a Deus o ato de submissão que lhes pedia. O Criador todo poderoso os castigou atirando-os do céu para os eternos abismos do inferno, criado de propósito . São os maus anjos ou demônios , inimigos de Deus por vingança , e tentadores do homem por inveja.
Devorado de ciúmes a vista da ventura do homem e dos seus altos destinos , o demônio resolveu perde-lo. Debaixo da forma de serpentes, então inofensiva, chegou-se à mulher; lisonjeou o orgulho e a independência , e rematou com a sensualidade a cilada que lhe estava armando. Eva colheu a fruta proibida e comeu. Levou –a depois ao marido que também comeu, instigado pelo exemplo da companheira. Então , abriram os olhos; foram esconder-se depois de se encobrir o corpo com folhagem , a ver sim podiam assim ocultar a vergonha e o pecado.
Isto era apenas o indicio, o sinal da mudança que acabava de produzir –se na sua alma cuja nudez era muito triste e mais para lamentar. O Senhor todo poderoso presenciara a desobediência; sentenciou contra os culpados o devido castigo. Amaldiçoou a serpente , primeiro autor da desgraça ; depois disse a Eva: “Multiplicarei tuas magoas e tuas dores, e à de ficar sob o poder do homem;” falou a Adão:” Maldita será a terra por causa do teu pecado; há de produzir sarças e espinhos e comeras teu pão com o suor do rosto ate voltares a terra donde foste tirado; pois tu és pó , e pó te hás de tornar”. Deus então expulsou-os do paraíso de delicias.
Foi esta a desobediência; deixou na alma e no corpo dos nossos primeiros pais vestígios lamentáveis; mas a sentença pronunciada contra os culpados foi também a nossa. A alma perdeu a graça , a amizade de Deus , e o direito a bem- aventurança eterna que havia de ser a sua recompensa; as faculdades foram entibiadas e enfezadas ; o espírito há de conhecer a ignorância , a vontade propendera para o mal, o coração será depravado. O próprio corpo tem que sofrer o terrível abalo da queda ; não são é condenado ao trabalho, ao sofrimento e a morte, mas os sentidos fazem-se cúmplices da vontade rebelde e levam para o mal. Aqui esta com suas conseqüências , a culpa original que herdamos , todos , menos Maria Santíssima , de nossos primeiros pais.
III- A primeira promessa de um Redentor.
No entanto, Deus ,que podia abandonar os infelizes a sua nefanda sorte , não quis deixá-los sem esperança. Ao lado da justiça que pune ,surge a misericórdia a perdoar, a prometer a salvação. Dirigindo-se a serpente infernal , Deus lhe disse: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre sua raça e a tua, ela esmagar-te-á a cabeça, e tu lhe ferirá o calcanhar.” Todos os doutores e interpretes consideram estas palavras como a promessa de um Redentor. A semente abençoada , nascida da raça humana será Nosso Senhor Jesus Cristo ; único , ele não pecou em Adão , por ter sido concebido pelo Espírito Santo . Esta mulher misteriosa , divinamente prometida , que há de derrubar o império do demônio , é a Virgem Maria , preservada da mancha original por causa de sua futura maternidade divina.
Nossos primeiros pais, ao sair do paraíso terrestre, levavam esta promessa e esta esperança que passaram para todos os povos da terra com a lembrança da queda. Em todos os países conservou-se a memória da idade áurea, fruto do estado de inocência ; em toda a parte esta a serpente metida na historia da desobediência; o papel da mulher é o mesmo em todas as narrações da queda original ; em toda parte purificam-se as crianças logo depois do nascimento , porque se julgam culpadas. Enfim, as nações todas acreditaram num Redentor que devia reparar o mal e restituir à humanidade seus antigos privilégios.
IV- A Religião no estado de decadência.
Pode-se dizer que a espera de um Salvador e a fé neste Messias prometido foram , a partir da queda, o fundo da Religião inteira . Era lógico : pois,para o homem pecador não havia mais remédio possível que não fosse pela mediação do Redentor que Deus lhe prometeu por misericórdia completamente gratuita . Logo , todos os exercícios da Religião , todas as praticas do culto e da moral, tiveram que esteiar-se nos méritos futuros do Messias e são tinham valor por sua união com eles. A Fé no Redentor é portanto , na verdade, o alicerce da Religião.
O culto , depois da queda, reveste um caráter novo; vem a ser, ao mesmo tempo, expiatório e emblemático; expiatório , pois o homem culpado não pode mais contentar-se com tributar a Deus uma simples homenagem de adoração , louvor e agradecimento, como era seu dever nos dias da inocência, não; doravante, como expiação acrescentara a oferta dos produtos da terra, e já que, segundo explica são Paulo , não há expiação sem efusão de sangue , há de oferecer em sacrifício os animais que vivem ao seu lado. Nisto , o homem confessa que é pecador; concorda em que não tem direito à vida, e para externar esta disposição , derrama o sangue de uma vitima em lugar do próprio sangue. Esta é a origem dos sacrifícios sangrentos que formavam, em todos os povos , a parte principal do culto publico.
O culto da Religião primitiva , dissemos mais ,era emblemático. Com efeito, o sangue das vitimas , por si mesmo, não era apto a satisfazer a justiça de Deus. Todavia , o Senhor não queria o sangue do homem , o qual, aliás, não teria valor para ele. Mas ele aceita os sacrifícios porque representam e anunciam o único sacrifício que devia expiar o pecado,isto é , a imolação de Jesus Cristo no Calvário.
Esta Fe no Redentor e esta Religião reparadora foram o consolo de nossos primeiros pais durante os longos anos de sofrimentos. Adão , nosso pai segundo a natureza, mereceu assim ser a figura de Jesus Cristo , nosso pai segundo a graça ; e Eva , mãe dos vivos , veio a ser a figura de Maria , a nova mãe de todos os filhos de Deus.
Artigo 3
Historia dos primeiros homens
I- Caim e Abel. II- A piedade de Set e seus descendentes. III- Corrupção geral, ameaças de castigo.
I- Caim e Abel
O pecado , uma vez entrando no mundo , causou em pouco tempo estragos medonhos. A desobediência de nossos primeiros pais , seguiu-se breve um crime horroroso: pela primeira vez o sangue do homem enxovalhou a terra, num fratricídio . Adão e Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel. Caim lavrava a terra. Abel apascentava rebanhos . Ambos ofereciam sacrifícios a Deus . Abel , por sua piedade, atraiu sobre si e sobre seus presentes, os olhares de Deus ; uma fé robusta vivifica suas ofertas,e , na imolação dos primogênitos de seu rebanho, havia mais generosidade . Caim apresentava a Deus os frutos da terra; mas fazia-o sem piedade com mesquinhez. Deus prezava os dons de Abel e desviava as vistas de Caim. Este deixou nascer no coração uma raiva secreta contra o irmão. “Para que ficardes triste assim? Disse-lhe o Senhor. Se fizeres o bem, não ás de receber o prêmio? E si praticares o mal, não serás punido? A inclinação que te impele, está nas tuas mãos; querendo, podes sofrê-la .” Nestas palavras, vê-se que o homem é livre, mesmo depois do pecado original; é por isso que somos responsáveis por nossos atos, bons ou maus.
Caim aferrou-se no ódio; propôs ao irmão um passeio pelo campo, e, quando estiveram sozinhos , precipitou-se sobre Abel e o matou. A voz de Deus perseguiu o culpado, o remorso entrou-lhe na alma; fugindo da sociedade, Caim construiu uma cidade no oriente do Éden e nomeou Enoch, como seu primeiro filho.
Este fato mostra-nos, desde a origem, a virtude perseguida pelo vicio; o justo Abel, morto apesar da sua inocência, é viva imagem do Justo por excelência, que havia de morrer sob os golpes de um ódio cego e violento, aborrecido e crucificado pelos Judeus, seus irmãos. Caim, amaldiçoado por Deus, errante, vagabundo e fugitivo, simboliza o povo decaído, espalhado em todos os países, objeto de ódio por parte de todas as nações.
II- A piedade de Set e seus dissidentes.
Os descendentes de Caim foram malvados como o pai, e, para Adão e Eva, tornaram-se uma fonte de novas dores. Deus os consolou da perda de Abel dando-lhes outro filho por nome Set, que muito se distinguiu na piedade.Teve numerosa posteridade que conservou as tradições religiosas e viveu na inocência e a santidade quase até o dilúvio. A esta raça pertenciam os homens virtuosos chamados patriarcas. Moises fala de dez desde Adão até Noé: Adão, Set, Enos, Cainan, Malaleel, Jared, Henoch, Matusalem e Lamech, pai de Noé.
A longevidade destes patriarcas é mencionada pela Bíblia, mas a lembrança deste fato conservou-se por igual nas tradições de todos os povos antigos da Chaldéa, do Egito e até da Grécia. Por esta vida dilatada, Deus tencionava, num intuito providencial, facilitar a conservação, em toda a pureza primitiva, das promessas divinas.
Deus escolhera pois, servos fieis, na descendência de Set, e é para notar que beneficio da Redenção já produzia efeitos, logo no principio do mundo. Desde Abel até Jesus Cristo, sempre Deus teve na terra adoradores verdadeiros, a quem salvou da corrupção e do erro por efeito da sua Graça. Estes justos foram santificados pela fé no Messias prometido e pelas obras que praticavam com o auxilio da Graça.
III- Corrupção geral; ameaças de castigo.
Os descendentes de Caim formaram uma raça perversa e foram co-nomidos filhos dos homens. Enquanto a família de Set viveu separada da de Caim, guardou a inocência. Seus descendentes tinham merecido o nome de filhos de Deus. Mas depois da morte de Adão, avizinharam-se as duas famílias e ligaram-se com casamentos. Dali se originou a perda dos filhos de Deus; breve estavam eivados dos mesmos vícios que deturpavam a descendência de Caim. Destas alianças saiu uma raça de gigantes cujas abominações irritavam o Senhor. No correr do tempo, a corrupção tornou-se geral. A tais extremos chegaram as desordens, que Deus, de certa maneira, arrependeu-se por ter criado o homem. “Ei de exterminar, disse ele, o homem que tenho criado e tudo quanto está na terra, desde o homem até os animais.” Mas, na sua justiça, não se esqueceu da misericórdia. Lembrou-se de que prometera a Eva um filho que havia de salvar aos homens, e então quis conservar um herdeiro desta posteridade donde sairia o Salvador esperado.
Em meio da depravação geral ,havia um homem justo da família de Set, de nome Noé. O Senhor deu-lhe a conhecer o plano que tinha ideado de submergir a terra por causa dos crimes dos seus habitantes.” Deus , diz Bossuet, só precisava de si próprio para destruir o que fizera com uma palavra , mas julgou mais conveniente usar das suas criaturas para elas servirem de instrumento á sua vingança e lançou mão das águas para assolar a terra coberta de crimes.” Mandou pois a Noé que construísse uma arca para abrigar-se com a família. Noé acreditou e obedeceu. Por cem anos labutando neste trabalho não deixando de pregar a penitencia , por ser Eterno , Deus sempre preadiava o castigo . Desde Henoch , isto é, durante quase mil anos, os avisos tinham sido multiplicados; mas os abusos da graça fatalmente ha de acarretar a punição : desta feita , será terrível e deixara uma lembrança imoredoura.
Capítulo II
Do dilúvio até a vocação de Abraão (segunda época)
2348-1925 antes de J.C. (3308-2296)
Sumário desta épica - Divisão do capítulo
A segunda época da história do mundo é assinalada por um grande acontecimento que purifica a terra e a renova. É este um dos fatos que os povos antigos, nas suas tradições, relatam com mais intensidade: os anaes da China mostram o primeiro imperador Fohé entretido em fazer escoar as águas que cobriam as colinas; os da Índia lembram rei Sathyavatra salvo das águas com os três filhos. A história do Egito e da Caldéia fala de uma imensa inundação. A memória do dilúvio conservou-se entre os Gregos e Romanos na fábula de Deucalião. Os próprios Mexicanos e todos os povos da América representaram o dilúvio nas suas pinturas ou gravaram-no nos seus hieroglifos.
Além destes testemunhos históricos, reparemos que o globo trás sinais de transtornos e submersões que só se podem atribuir a um cataclismo da qualidade deste descrito por Moisés.
Um século após o dilúvio começa a confusão das línguas e a dispersão dos povos: é outro sucesso importante que devemos notar. Neste capítulo estudaremos portanto: 1º- O dilúvio e suas conseqüências; 2º- Babel e a dispersão dos povos.
Artigo 1
O dilúvio
I. Narração bíblica: ensinos. II. Revelações e promessas feitas a Noé. III. Nova fase da história do mundo e da Religião. IV. Os descendentes de Noé.
I. Narração bíblica do dilúvio: ensinos. – Estavam ultimados os preparativos; Noé entrou na arca, ele a mulher, os três filhos e as suas mulheres. Mandou entrar também sete casais de todos os animais puros, dois casais dos animais chamados impuros, sete casais das aves do céu para não se perder a espécie. Depois ajuntou na arca o alimento indispensável para o sustento dos homens e dos animais. E então todas as fontes do grande abismo romperam-se, as cataratas do céu abriram-se, a chuva caiu durante quarenta dias e quarenta noites, e as águas subiram quinze côvados acima dos mais altos píncaros. Tudo pereceu; a arca sozinha, levada de manso pelas águas, escapou a este desastre assombroso, 2348 (2482) A.C.
Durante cento e cinqüenta dias, as águas cobriram a face da terra. No fim do sétimo mês, tornaram a baixar, e a arca deteve-se no vértice do monte Ararat, na Armênia.
Tal é o grande cataclismo que purificou a terra. Não é uma expiação somente: é também a figura do batismo que lava hoje os nossos pecados, como a água, diz São Pedro, limpou das suas máculas a terra culpada. Noé, salvando a humanidade da destruição, pressagiava o futuro Redentor que purificou do pecado a raça humana em peso e a preservou da morte eterna. A arca era a figura da Igreja fora da qual não há salvação. As vagas que tudo aniquilavam, carregavam a arca, livrando-a dos cachopos; assim as tempestades, que deviam assaltar a Igreja, levantariam as almas para Deus e dariam um brilho novo á santificação dos eleitos.
II. Revelações e promessas feitas a Noé. – O primeiro ato de Noé, ao sair da arca, foi uma oração e uma homenagem de gratidão. Ergueu um altar e, tomando um casal de todas as aves e animais puros, ofereceu-os em holocausto, isto é, queimou-os depois de tê-los imolado. Satisfeito com a piedade do seu servo, Deus manifestou que lhe agradara este sacrifício e disse: « Não lançarei mais a minha maldição na terra por causa dos homens. Não ferirei mais com a morte as criaturas animadas como fiz ».
Então, abençoou a Noé e a seus filhos dizendo: « Crescei e multiplicai-vos na terra. Alimentai-vos com tudo quanto é vivo e animado; deixo-vos todas estas coisas como os legumes e as ervas, porém proíbo-vos de comer carne de animais sufocados ». Tinha por fim inspirar o horror do sangue, pois a terra já fora por demais conspurcada pela efusão do sangue do homem.
Deus ainda disse a Noé: « Hoje, faço aliança convosco e vosso descendentes por todos os séculos do porvir ». E o sinal que deu desta aliança nova, foi o arco-íris que, pela primeira vez, apareceu nas nuvens e cuja cores suaves despertam a esperança.
III. Nova fase da história do mundo e da Religião. – Com o dilúvio iniciou-se por assim dizer, uma nova ordem de séculos. Segunda investidura do domínio terrestre está feita a favor de Noé e sua raça; outra aliança celebra-se entre Deus e a humanidade. Mas, conforme repara Bossuet, neste renovo, permanece uma impressão da vingança divina. A natureza perdeu uma parte do seu vigor; as plantas, o seu viço; a vida humana também achou-se sensivelmente reduzida, e careceu de uma comida mais substancial: a carne dos animais.
« Assim tinham de desaparecer e apagar-se aos poucos os restos da primeira instituição; e a natureza modificada dava aviso ao homem de que Deus, para ele, já não era o mesmo desde que tinha sido irritado por tantos crimes ».
Esta novas modificações impostas á humanidade marcam uma nova fase da Religião. Vemos o antigo uso dos sacrifícios outra vez posto em vigor por Noé, saindo da arca e confirmado solenemente por Deus que aceita esta oferta das vítimas, e abençoa o sacrificador. Nota-se a distinção dos animais puros, únicos admitidos nos holocaustos. A efusão do sangue da vítima inculca a idéia de expiação. Enfim, a lei moral e a lei religiosa recebem ali seu desenvolvimento em dois preceitos positivos: o primeiro, é a proibição de tomar o sangue dos animais ainda que e permitido o uso da carne, e de alimentar-se com a carne dos animais chamados impuros; o segundo é a interdição formal do homicídio, com a sanção de ser o criminoso punido pela efusão do próprio sangue.
IV. A descendência de Noé. - O patriarca Noé transmitiu a seus filhos Sem, Cam e Jafet, o conjunto das verdades e prescrições religiosas, junto com a tradição da promessa divina de um futuro Redentor. Noé plantou a vinha e descobriu o uso que se podia fazer da uva, espremendo o benéfico licor que é o vinho. Abençoou os dois filhos que lhe respeitavam. « Deus, disse ele, multiplique as posses de Jafet e more debaixo da tenda de Sem! » Essas palavras proféticas indicaram que Jafet povoaria as regiões longínquas e encontraria a graça do Redentor sob a tenda de Sem, que havia de ser o herdeiro da promessa de salvação feita a nosso primeiro pai. Mas o patriarca amaldiçoou Cam na pessoa de Canaã, seu filho, dizendo: « Seja ele, entre seus irmãos, o escravo dos escravos! » A posteridade de Cam veio a ser a raça negra que ainda parece vergada ao peso desta maldição.
Artigo II
A dispersão dos homens
I. Babel e a confusão das línguas. II. Formação dos idiomas dos povos. III. Decadência e idolatria geral.
I. Babel e a confusão das línguas. – Os três filhos de Noé e seus descendentes habitavam primeiro no mesmo país, situado entre Tigre e o Eufrates: era a planície de Sennar, depois Mesopotâmia. Quando se multiplicaram a ponto de não poderem mais habitar juntos, disseram entre si: « Edifiquemos uma cidade e uma torre cujo vértice alcance o céu e façamos célebre o nosso nome antes de espalhar-nos por toda a terra ». Deus não gostou da empresa porque era sinal de orgulho. Até então os homens falavam uma só e mesma língua. Para baldar seus projetos de soberba, o Senhor pôs a diversidade nas línguas, de maneira que não se entendiam mais uns aos outros. Tiveram que largar o trabalho. O nome de Babel, ou confusão, ficou posto nesta torre cujos destroços foram achados. Tais, ruínas, trazidas á luz pelos arqueólogos modernos, vêm dar depois de tantos séculos, uma confirmação da história de Moisés. Segundo refere o narrador sagrado, os alicerces são formados de tijolos grudados com betume: monumento eterno, proclamado á face do gênero humano, que é o orgulho a fonte da divisão e da perturbação entre os povos. Já que não se compreendiam mais, os descendentes de Noé espalharam-se em todos os países do mundo. Este fato se dava cerca de um século depois do dilúvio, 2247 (2907) antes de Jesus Cristo.
II. Formação dos idiomas e dos povos.- Dois grandes fatos históricos foram o resultado desta confusão de Babel: a formação de vários idiomas e a dispersão dos homens para fundarem diversas nações. O nome de Babel ou confusão, dado por Moisés e conservado ao monumento erguido na várzea de Sennar, dá a entender que esta confusão das línguas antes foi instantânea do que progressiva.
O capítulo décimo do Gênesis traz a epígrafe: Genealogia dos filhos de Noé; podiam denominá-lo igualmente o Livro das origens do gênero humano. Ali aparecem os nomes dos diferentes chefes de família que foram os pais dos povos antigos. Encontramos os filhos de Sem, Cam e Jafet com as raças primitivas da Ásia, da África e da Europa.
Importa notar que os homens, ao separarem-se, levaram por toda a parte as tradições dos acontecimentos anteriores: a idade áurea ou estado de inocência, a queda do homem, o século de ferro, isto é, uma época de desordem e desgraça; a promessa de um Salvador, a audácia e impiedade dos gigantes, o dilúvio universal, a salvação de um só homem junto; e com estas tradições, as do culto devido a Deus, dos sacrifícios, da semana e da santificação do sétimo dia, dos anjos e dos espíritos maus; numa palavra, toda a Religião fundamental: crenças e culto, moral natural completada por uma revelação primitiva, e acima de tudo, a idéia de um Deus criador e único, de um mundo e de um gênero humano tirados do nada por sua palavra, conservados por sua bondade governados por sua sabedoria, castigados por sua justiça, libertados por sua misericórdia, e sempre sob o jugo do seu poder.
III. – Decadência e idolatria geral. – Porém, ao passo que se iam afastando de seu berço, os homens perdiam as sãs tradições que tinham recebido dos antepassados. « Os filhos teimosos ou malcriados não queriam mais acreditar os seus avós alquebrados » (Bossuet). Este defeito é comum a todos os tempos. A soberba dos homens também atirava os espíritos para os erros mais grosseiros; já os homens não queriam mais dar fé senão no que viam: era a impiedade; não quiseram mais adorar senão as coisas que podiam contemplar: foi a idolatria. A pouco e pouco, a posteridade de Sem e Jafet sofreu o influxo dos maus exemplos; como a descendência de Cam, foi se esquecendo de Deus e das suas promessas. A corrupção, com a idolatria que a gera, tornou-se universal. Deus desconhecido, o culto supremo rebaixado ás criaturas e negado a Deus só; o fogo, o ar, as estrelas, o sol, a lua, divinizados, a cegueira levada até tributar a adoração a estátuas de ouro, prata ou madeira, as plantas e os animais substituindo a divindade: em resumo « tudo feito Deus, afora o próprio Deus »: aqui temos o espetáculo que apresentava o mundo outra vez povoado. Finalmente, o homem foi divinizando as próprias paixões; abafando o remorso, chegou a cometer, por princípio de religião, crimes horrorosos que revoltam a natureza.
« Como o homem parecia então afastado da sua primeira instituição, exclama Bossuet, e a imagem de Deus estragada nele! »
O mal já tão grande grassava de modo espantoso. Para que não invadisse o gênero humano em peso, o Todo poderoso chamou a Abraão para ele ser o chefe de uma raça fiel.
continua... (por favor aguarde...)
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