Artigo 2 Aspiração à Perfeição pelo Venerável Luiz de Blois
« O Religioso é obrigado, em virtude de sua profissão, a Aspirar à Perfeição »
Vós me direis: Essa perfeição está muito acima de mim; por esse motivo não trabalharei por atingi-la, temendo parecer trabalhar em vão. Mas eu vos respondo, que, se fizerdes o que dizeis, não sois um religioso; pois, embora esse santo caráter não voz obrigue a ser perfeito, ele vos obriga a nada renunciardes para consegui-lo. Lisonjeai-vos tanto quanto quiserdes, persuadir-vos de tudo quanto vos seja agradável, forjai pretextos e desculpas, não sois por isso menos obrigado a tender à perfeição, com todas as vossas forças. Eis a verdade: Si a ignoraste até aqui, agora não a ignorais. Vós vos enlaçastes, vós vos submetestes; permanecei enlaçado e submisso.
Eu não posso, dizeis vós, galgar uma perfeição tão alta. De onde vos vem essa desconfiança?
Ignorais que o poder divino pode operar infinitamente mais que a fraqueza humana nem sequer pode imaginar?
Não podereis ai chegar por vós mesmo, confesso-o mas Deus vos pode conduzir. Confie em Deus, esperai em Deus, e nunca em vós mesmo; repousai-vos na graça e no auxílio de Deus, e não sobre as vossas próprias forças. Entretanto, se desejai que Deus vos assista com a sua graça, não falteis a vossa cooperação, por moleza e indolência. Fazei o que estiver em vosso poder: Mãos à obra, estendei os vossos braços, animai vossa alma à destruição do vício, à perfeita abnegação de si mesmo; recolhei vosso coração, abrasai vosso amor, elevai vosso espírito à contemplação das coisas eternas;
habituai-vos a pensar constantemente na presença de Deus.
Afim de preencherdes mais facilmente o grande trabalho, proponde-vos cada dia meditar, da maneira que indicamos acima, alguma passagem da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e para ela dirigir continuamente vossos olhares interiores, misturando vossa meditação de doces colóquios com Jesus, ou com vossa alma, a respeito de Jesus. Que o vosso pensamento seja, tanto quanto possível, perpetuamente ocupado com as coisas de Deus. É o verdadeiro de vosso espírito; é o fim para o qual deveis constantemente tender, com uma solicitude pacífica e
tranqüila.
Embora experimenteis, quase a todos os instantes, quedas e distrações involuntárias, não vos deixeis abater. Não vos empregueis a um receio covarde; porém, perseverai e voltai sempre ao vosso objeto. Triunfareis das dificuldades pela constância de vossos esforços. O trabalho mesmo vos parecerá mais agradável e mais doce; e, regenerado por uma nova luz, até então desconhecida, começarei a desfrutar das delícias reservadas aos Santos.
Não sereis mais o que éreis, mas, felizmente, transformado em outro homem e revestido de uma graça angélica, estimareis o que
desprezáveis, e desprezareis o que estimáveis; o mal, que vos agradava, vos
aborrecerá e amareis o bem que odiáveis; suportareis facilmente e com alegria o que antes vos parecia insuportável. Ó feliz
metamorfose! Ó transformação pela destra do Altíssimo! Enfim, este hábito louvável, transformando-se em natureza, e o amor divino preenchendo inteiramente o íntimo mais profundo do vosso coração, não sentireis mais o vosso trabalho; mas, como o vosso espírito produzia por si mesmo uma quantidade de pensamentos vergonhosos, impuros, insensatos, vãos, levianos e semelhantes a sonhos, assim, de agora em diante, ele se ocupará de Deus e das coisas de Deus; pois o espírito torna-se sempre o que ama ao coração.
Desgraçados, desgraçados dos religiosos perversos, tíbios e negligentes, desde homens que trazem o nome de religiosos e que não o são pelos costumes; que, desonrando este santo caráter, e violando abertamente os deveres que ele impõe, jazem numa orgulhosa indolência e se volvem na lama das paixões, sem pudor e sem remorso!
Felizes, porém, duas vezes felizes esses verdadeiros servos de Deus que, ainda que fracos e imperfeitos, entregam-se com todas as forças o trabalho de atingir à perfeição, pois são do número dos filhos adotivos de Deus, a quem o terno Salvador Jesus dirige essas consoladoras palavras: "Não temais, pequeno rebanho, pois aprouve a vosso Pai dar-vos o reino" (Lc 12,32).
Embora longe ainda da santidade, à qual aspiram, que esperem a morte com segurança, pois ela será preciosa diante do Senhor. Que esperem, digo, a morte com segurança, antes, não a morte, mas o sono de paz, o fim da morte, a passagem da morte à vida.
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