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Artigo 1
Dos Servos Fiéis a Deus
pelo
Venerável Luiz de Blois

Os servos fieis; inteiramente desprendidos de si mesmos, não procuram senão a Deus somente; renunciam a todo amor próprio, vêem em tudo a vontade e a gloria de Deus, sem se ocuparem de sua própria consolação. Embora o Senhor lhes retire seus dons, ou deixe cair sobre suas almas algumas gotas de eterna suavidade, sempre os mesmos, sempre serenos, não cessam um só instante de amar, de louvar a Deus. Nem as nuvens interiores, nem o cansaço dos sentidos, nem o adormecimento do espírito, nem o abatimento da alma, nem as angústias das tentações, nem os golpes da adversidade, nem os acessos da prosperidade, nada os pode fazer titubear.

Posto que, nesses diversos estados, eles possam, quiçá, experimentar algumas vezes, na parte inferior da alma, o aperto de uma excessiva tristeza, ou o novo impulso de uma alegria sensível, contudo, nunca se abatem, porque se esforçam em manter em paz, as altas regiões da alma, conformando sua vontade com a vontade divina, e afligindo-se em sentir em si mesmos os mais ligeiros movimentos de uma culpada contradição.

Fundados sobre pedra sólida, permanecem firmes na caridade de Deus, sua Santa vontade constitui em tudo o seu supremo consolo. Sua piedade não acusa alternativa alguma, porque detestam e fogem com horror tudo o que desagrada a Deus e que assim nada pode manchar mesmo ligeiramente, a pureza de seus corações. Abandonando a Deus o êxito de todas as coisas, essas almas são sempre calmas, livres e sem macula. Tal é a verdadeira devoção, a que é mais agradável a Deus.

Há uma outra devoção, sensível, mais familiar aqueles que começam ou que se converteram há pouco. Menos durável e menos segura, não deixa, entretanto, de ser muito útil, se usada com prudência. Os servos fiéis (nomeio assim aqueles que Jesus Cristo chama «não mais seus servidores, porém seus amigos» [Jo 15, 15] ), procuram às vezes, esses mesmos, a eficaz e encantadora doçura da graça, «a alegria pura da benção do Senhor» [Sl 50, 14]); procuram seu semblante amável e seus deliciosos ósculos; mas com o pudor de um desejo todo espiritual, e não com uma avidez sensual, com uma leviandade pueril ou uma impaciência cheia de alvoroço.

Procuram os dons de Deus não para gozar deles vergonhosamente, como de uma voluptuosidade serena, mas afim de que esses dons acresçam seu fervor, e, "purificando-os de toda a mácula, tornem-se mais agradáveis ao celeste Esposo. Elevam-se, sustentados pela graça, até ao Autor da mesma graça, até ao Ente soberanamente bom, em quem unicamente é permitido repousar. Felizes, perfeitamente felizes; pois, quanto menos apegados a seus dons, tanto mais recebem em abundância.

Que o Senhor os enriqueça de suas bênçãos, seus corações estão longe de orgulhar-se disso; eles não desprezam os outros, eles desprezam-se a si mesmos, e reconhecem-se indignos de qualquer graça espiritual. Consecutivamente recordam-se que tudo o que possuem lhes vem da pura misericórdia de Deus, e que, quanto mais receberem, tanto mais se lhes exigirá [Lc 12,48]). Um santo temor desperta sem cessar sua vigilância; e, aproveitando humildemente dos dons celestes, consideram-se como os últimos de seus irmãos.

Os favores extraordinários, os arrebatamentos de espírito, as visões, os milagres, mesmo deslumbrantes, não é este o motivo de suas alegrias, mas si, humildes servos de Cristo, são manchados por uma injusta difamação, carregados! de ultrajes e opróbrios, mergulhados na mais extrema abjeção, glorificam-se e regozijam-se em si mesmos. Apressam-se em afastar, com o sinal da cruz, as pérfidas sugestões do espírito de trevas, que se esforça em seduzi-los pelo atrativo da vanglória e da própria complacência, e todas as astúcias da serpente malogram-se contra sua resistência.

Não é nem no número, nem no mérito de suas boas obras que depositam a esperança de salvação; mas põem toda a sua confiança em Jesus Cristo, que lhes obteve, por seu sangue, a liberdade de filhos de Deus.

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