Santo Antônio de Pádua Doutor Evangélico da Igreja
Comentário do Evangelho de São Marcos Capítulo 16,1-7
« Naquele Tempo: tendo passado o dia de sábado, Maria de Magdala e Maria, mãe de Tiago e Salomé, compraram aromas para ir embalsamar Jesus. E partindo no primeiro dia da semana, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro, quando o sol já era nascido. Entretanto, iam dizendo entre si: « Quem nos há – de remover a pedra da boca do sepulcro? » Porém, quando repararam, viram removida a pedra, que era de fato, muito grande. Tendo, pois, entrado no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, coberto com um vestido branco, e ficaram assustadas. Mas ele disse-lhes: « Não temais: buscais a Jesus Nazareno, o crucificado? Ressuscitou, não está aqui; eis o lugar onde o depositaram. Ide, pois, e dizei a seus discípulos; e a Pedro, que Ele vai diante de vós para Galiléia; lá O vereis, como Ele vos disse »
Naquele tempo, Maria Madalena e Maria, Mãe de Tiago e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus (Mc 16,1), etc. Diz o Eclesiástico: O farmacêutico fará pigmentos de suavidade e comporá ungüentos saudáveis (Eclo 38,7). Chamam-se pigmentos porque agem sobre pele e sobre o pêlo, como piliguimentos. Pigmentos são aquelas substâncias de que fala a alma penitente no mesmo Eclesiástico: Espalhei, como mirra escolhida, suavidade de odor; e perfumei a minha habitação, como estoraque, gálbano, ônix e gota (Eclo 24,20.21.). Estas substâncias, segundo comenta a Glosa, são pigmentos apreciados pelos médicos e significam aqueles gêneros de virtudes que os verdadeiros médicos, os espirituais, empregam para a cura dos homens. Na mirra, designa-se a penitência, que não pode ser verdadeira, senão se lhe misturam estas quatro substâncias. O estoraque é goma de árvore, de aroma agradabilíssimo, cujo licor se assemelha ao mel; o gálbano é uma substância que afugenta as serpentes com o seu odor; o ônix, que em latim se diz ungula, e no Êxodo se lhe chama ónica, tem essa designação por assemelhar-se à unha; a gota é uma substância que cura algumas durezas e abranda os tumores. O estoraque designa a compunção das lágrimas, que derramam aroma na presença do Senhor e são mais doces à alma penitente do que o mel e o favo (Sl 18,11); o gálbano, a confissão, que afugenta as serpentes, isto é, os demônios, a gota, a humildade da satisfação que cura a dureza do entendimento e abranda a soberba do corpo. Mas porque será bem-aventurado, não todo o que começar, mas o que perseverar, por isso deve ajuntar-se o ônix, a unha, que é a parte extrema do corpo, ou seja, deve ungir-se com a perseverança final. Portanto, o farmacêutico, isto é, o pregador, com o pêlo da pregação, deve bater ou aplicar estes pigmentos na pele, isto é, no coração que está dentro do peito, e misturar-lhe o bálsamo puro da divina misericórdia, afim de que o paladar da alma penitente o sinta mais suaves.
Segue. E comporá ungüentos saudáveis. A unção, que ensina ao homem tudo o quanto lhe é necessário, compõem-se de dois elementos: vinho e azeite: Vinho, que fluiu da verdadeira videira, cujo fruto foi espremido no lagar da cruz; e azeite, com que no dia de Pentecostes foi ungida a primitiva Igreja: ungida com o sangue de Jesus Cristo e com a graça do Espírito Santo. Com estes dois elementos deve o farmacêutico compor as unções, para que possa ungir os membros de Jesus Cristo, os cristãos, feridos pelo pecado, juntamente com as três mulheres, mencionadas no Evangelho de hoje: Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé, compraram aromas, etc.
Neste Evangelho, observam-se quatro coisas: Primeiro, a devoção das santas mulheres e a mistura dos aromas, ao começar-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago. Segundo, a remoção da pedra, ao juntar-se: E diziam entre si. Terceiro, a visão do anjo: E entrando no túmulo. O quarto, a ressurreição de Jesus Cristo: o qual lhes disse: Não temais, etc. Digamos, portanto: Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé, compraram aromas. Nestas três mulheres se designam as três virtudes da nossa alma, a saber, a humildade do coração, o desprezo do mundo, a beleza da paz. Madalena, assim chamada por ser da aldeia de Magdala, que se interpreta torre, figura a humildade do coração; Maria, mãe de Tiago o Menor, que se interpreta o que suplanta, figura o desprezo do mundo, Salomé, chamada pacífica, mãe de João Evangelista, figura o encanto da paz. Estas mulheres, porém, tem o nome de Maria, e se traduz iluminadora, porque essas três virtudes iluminam a obra do homem em que habitam. Digamos umas palavras de cada uma delas. Maria Madalena: É a humildade do espírito, que se eleva para as alturas quando pensa não ser nada. Daí a palavra de São Tiago: Glorie-se o irmão humilde na sua exaltação (Tg 1,9), porque quem se humilha será exaltado. A cerca desta torre refere-se no Gênesis que Jacó levantou a tenda da outra parte da torre do rebanho (Gn 35,21). A torre designa a humildade, o rebanho a simplicidade pura. Jacó, portanto, ou seja o justo, ergueu a tenda da vida em que milita. De fato, a sua vida é uma milícia sobre a terra (Jó 7,1). Levantou-se na outra parte da torre do rebanho porque permanece constantemente na humildade, mãe da pura simplicidade.
E nota que diz da outra parte da torre, e não na torre, porque o justo, enquanto vive neste mundo, julga-se menos do que é. Por isso, de Madalena escreve São João: Maria estava da parte de fora do sepulcro, chorando. E enquanto chorava, inclinou-se e olhou para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
Nota cada uma das palavras. O sepulcro, assim chamado por criar em nosso espírito a recordação dos defuntos, significa o pensamento da nossa morte e a recordação da nossa sepultura. Estas considerações leva-nos a doer-nos sinceramente e a aplicar-nos a obras de penitência. Maria, pois, conservava-se junto do sepulcro. O homem humilde, de fato, conserva-se atento ao pensamento da sua morte, afim de que o Senhor, à sua vinda, o encontre vigilante (Lc 12,37). E de que modo se conservava? Da parte de fora, chorando. De fora, não de dentro; da parte de fora não há senão choro e grande alarido. Por isso, Raquel que se interpreta ovelha, ou seja, a alma simples do penitente, chora os seus filhos, isto é, as suas obras, mortas pelo pecado; e não quer consolar-se, porque já não existem, tão vivos como eram antes de serem mortos (Jr 31,15; Mt 2,18). Ai quão fácil é a descida, mas quão difícil é a subida! – Basta um momento para perder o fruto de longos esforços – E enquanto chorava, inclinou-se e olhou para o túmulo: Eis a verdadeira humildade do penitente.
Nota as três palavras: chorava, inclinou-se, olhou. Chorava: eis a contrição; inclinou-se: eis a confissão; olhou: eis a satisfação. Olha verdadeiramente para ela desde o instante em que se dirige a vista para o túmulo da sua morte. E viu dois anjos. Estes dois anjos, que se interpretam mensageiros, significam moralmente o mísero ingresso da nossa vida e a amarga saída. Nós, que somos o corpo de Jesus Cristo, tenhamo-Los um à cabeceira e outro aos pés, meditando em nosso miserável nascimento e morte. Estes dois pensamentos são verdadeiramente anjos, porque nos anunciam a fragilidade do corpo e a vaidade do mundo!. Estes são os dois anjos, que, segundo se referem no Gênesis, tiraram Lot de Sodoma e lhe disseram: Salva a tua vida e não olhes para traz, e não pares em parte alguma dos arredores deste país; mas salva-te no monte, para que não pereças com os outros. Todo aquele que meditar a sério em seu nascimento e em sua morte, sairá de Sodoma, isto é, do fedor do mundo e do pecado e salvará a própria alma; e não olhará para traz, ou seja, não voltará aos pecados passados; e não permanecerá em parte alguma dos arredores do país. Permanece nos arredores do país quem ainda não abandonou as circunstâncias do pecado nem as imaginações depois do pecado perdoado; mas salvar-se-á no monte, quer dizer, na excelência da vida. Com toda a razão, pois, Madalena designa a humildade.
Maria, mãe de Tiago, que se interpreta o que suplanta, faz boa companhia a Madalena. Representa, com efeito, o desprezo do mundo, que nos faz calcar aos pés, como se fosse lodo, todos os bens transitórios e nos purifica do fermento dos erros passados. Por isso, diz o Apóstolo na Epístola de hoje: Purificai-vos do velho fermento, para que sejais nova massa, assim como sois ázimos. Porquanto, Cristo, nossa páscoa, foi imolado (1 Cor 5,7). Fermento vem de fervor, porque não pode conter-se além de uma hora pois cai para fora ao crescer. Em grego, diz-se Zima. Por isso, canta-se na prosa: Zima vetus expurget, purifique-nos do velho fermento, para anunciar de coração sincero a nova ressurreição. O fermento é a cobiça dos bens terrenos e a concupiscência dos desejos carnais. Estes, depois de começar a ferver, excedem toda a medida, porque o avarento não se fartará de dinheiro, nem o luxurioso se saciará da petulância da carne. Daí a afirmação de Isaías: Os ímpios, isto é, os avarentos e os luxuriosos, são como o mar agitado, que não podem acalmar, e cujas ondas se elevam, para produzir lodo e lama (Is 57,20.21). E: Não há paz para os ímpios, diz o Senhor. As ondas do mar agitado e inquieto são os desejos do homem perverso, que conculcam a sua alma e a lançam à lama das fezes e da miséria (Sl 39,3), onde os porcos, ou seja, os demônios, gostam de habitar. Purificai-vos, portanto, do antigo fermento. Por isso o Senhor manda no Êxodo: Durante sete dias não se encontrará fermento em vossas casas; todo o que comer pão fermentado perecerá do meio da terra de Israel. Durante sete dias, isto é, durante todo o tempo da nossa vida, e se desenrola durante sete dias, não se encontre em vossas casas, isto é, em vossos corações, pão com o fermento da concupiscência mundana e carnal. De contrário, a alma daquele que o comer perecerá do meio da terra de Israel, isto é, da vida eterna, onde veremos Deus face a face. Purificai-vos, pois, do velho fermento, para que sejais uma nova massa, assim como sois ázimos. Daí o dizer-se no Êxodo: O povo tomou a farinha amassada, antes que levedasse; e, envolvendo-a nas capas, a pôs aos ombros. E pouco depois ajunta: E cozeram a farinha e tinham levado do Egito já amassada; e fizeram dela pães ázimos cobertos de cinza.
Nota que nesta sentença se observam três coisas: A contrição, a confissão e a satisfação. A farinha, assim chamada de farre, trigo, alimento de enfermos, é a penitência, alimento de pecadores. Devemos amassá-la com água da contrição e envolvê-la em capas, isto é, nas nossas consciências, com o vínculo da confissão, e pô-la aos nossos ombros, por obras de satisfação. Para que não fermente esta farinha, cozamo-la ao fogo, isto é, com o amor do Espírito Santo, e façamos dela pães cobertos de cinza, isto é o viático da nossa morte, os ázimos da sinceridade e da verdade, enquanto temos de viver com sinceridade em relação a nós, e sermos verdadeiros para com Deus e o próximo.
Portanto, Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Páscoa, segundo Santo Agostinho, não se diz de paixão, mas de passagem, porque naquele dia passou o anjo exterminador pelo Egito, ou então, porque o Senhor passou para libertar o seu povo. Com este nome se significava o cordeiro que havia de passar neste dia do mundo ao Pai.
E nota que se chama cordeiro à Páscoa à própria hora vespertina em que era morto o cordeiro, isto é, à décima quarta lua do primeiro mês. E a Páscoa disse ainda dia dos ázimos, e se prolongavam desde a décima quinta lua até o vigésimo primeiro dia do mesmo mês. Mas os Evangelistas trazem diferentemente dia dos ázimos por Páscoa e Páscoa por dia dos ázimos. Assim São Lucas escreve: Aproximava-se o dia da festa dos ázimos, que se chama a Páscoa. Cristo, portanto, nossa Páscoa, foi imolado (Lc 21,1). Comamos, nesta unidade pascal, com leitugas, ou seja, decoração cheio de amargura, este cordeiro, assado por nós na Cruz, imolado a Deus Pai para a reconciliação do gênero humano, de modo preceituado aos filhos de Israel: Cingireis os vossos rins e tereis calçados nos pés, segurando bordões nas mãos e comereis á pressa; porque é a Páscoa, isto é, a passagem do Senhor (Ex 12,11). Nota estas três palavras: rins, calçados e bordões. Os Rins assim se chamam por neles terem origem os canais do humor obsceno, pois as veias e as medulas difundem líquido tênue nos rins. Este líquido de novo escorre dos rins, transformado em ardor venéreo. A concreção dos rins é cálida e o rins são de muita gordura. Por isso, diz bem o Senhor. Cingireis os vossos rins, ou seja, com a mortificação da carne refreareis o ardor da luxúria. O calçado são os exemplos dos santos. Com eles devemos proteger os pés, isto é, os afetos do coração, afim de sem perigo podermos calcar as serpentes, que são as sugestões do diabo, e os escorpiões que são as falsas promessas do mundo. Os bordões na mão são as palavras da pregação, traduzidas em obras. Quem, portanto, quiser receber dignamente, o corpo do Senhor, cinge os rins com o cíngulo da castidade, proteja com os exemplos dos santos, os afetos do coração, segure as palavras com obras.
Assim, celebre com os verdadeiros israelitas a verdadeira Páscoa e passe desde mundo ao Pai. De tal passagem escreveu certo filósofo: O século compara-se à ponte: passa não te demores nela. E outro: O século é uma ponte instável, cuja entrada é o ventre da mãe e a sua morte será a saída. É bom, por tanto, edificar a torre da humildade juntamente com Maria Madalena, e, com Maria, mãe de Tiago, suplantar o século.
A estas duas se junta uma terceira, Salomé. Esta é o encanto da paz, da qual diz o Eclesiástico: De três coisas se compraz o meu espírito, as quais têm a aprovação de Deus e dos homens: a concórdia entre os irmãos, o amor do próximo, e um marido e mulher que se entendem bem (Eclo 25,1-2). Esta tríplice paz dá alegria a Deus e aos anjos e é fonte de doçura para os homens. Eis quão bom, escreve o Profeta, e quão encantador, etc. (Sl 132,1). Digamos, portanto: Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para vir ungir Jesus.
Conta São Lucas que as mulheres, que o tinham seguido desde a Galiléia, viram o túmulo e de que modo o corpo de Jesus fora nele depositado; e voltando prepararam aromas e bálsamos; no sábado, porém, estiveram em repouso, segundo a Lei (Lc 23,55-56). A lei mandava, diz a Glosa (Glosa Ordinaria, em P.L.114,350. Cf. S.Beda Venerável, in Lucae Evangelium expositio, 1.6, em P.L.92,622.) a São Mateus, guardar o repouso do sábado desde uma a outra tarde. Por isso, as religiosas mulheres, uma vez sepultado o Senhor, enquanto lhes foi permitido trabalhar, ou seja, desde o Parasceve até ao por do sol, ocuparam-se na preparação de bálsamos. E porque, por escassez do tempo, não tinham podido terminar, logo que passou o sábado, isto é, logo depois do por do sol, desde que lhes foi permitido retomar o trabalho, apressaram-se a comprar aromas, na intenção de vir de manhã ungir o corpo de Jesus. Estas devotas mulheres, apressavam-se, absorviam-se na preparação dos bálsamos, tal como as abelhas se absorvem na elaboração da cera e do mel. Por isso, disse em Ciências Naturais que as obras das abelhas são especializadas: Umas fazem a cera, outras o mel, umas terceiras trituram o mel, outras ainda trazem água e reúnem o mel, outras saem a trabalhar no princípio do dia e outras dormem até serem acordadas por alguma. Voam em seguida e vão juntas para o trabalho. Pela abelha que acorda as outras dormentes entendo a Maria Madalena. Ela, porque amava muito (Lc 7,47), excitava com certeza as companheiras a preparar os bálsamos. Maria Santíssima, porém, depois de o Senhor seu Filho ter sido sepultado, como alguns dizem, não se retirou nunca do sepulcro, mas ali de contínuo vigiou, toda lacrimosa, até ao momento que em primeiro lugar mereceu ver o ressuscitado. Por isso, é celebrado o sábado em sua honra pelos fiéis.
Semelhantemente, as almas fiéis, iluminadas pelo esplendor da humildade, da pobreza e da paz, compram com o dinheiro da boa vontade, cunhado com a imagem do imperador, aqueles aromas de que fala o Senhor a Moisés no Êxodo, dizendo: Toma os aromas, da melhor e mais escolhida mirra, cinamomo, cana, cássia e azeite de oliveira; e farás um óleo santo para as unções e um bálsamo composto segundo a arte de um perfumador. E ungirás com ele o tabernáculo do testemunho e a Arca do Testamento, e a Mesa com os seus vasos, o candeeiro e os seus utensílios, o altar dos perfumes e o dos holocaustos. Na melhor e mais escolhida mirra. Designa-se o espírito devoto, coisa que nós em primeiro lugar, devemos escolher; no cinamomo, de cor de cinza, a memória da morte; na cana, a melodia da confissão; na cássia, que se dá em lugares úmidos e se ergue para o alto, a Fé, alimentada nas águas do batismo e elevada ao alto pela caridade; no azeite de oliveira, a misericórdia do coração. Destes cinco elementos devemos fazer o bálsamo santo, que nos santifique, composto segundo a arte do perfumador, isto é, do Espírito Santo. Com este bálsamo deve ungir-se o tabernáculo do testemunho, que simboliza os pobres de Jesus Cristo, marcados com o caráter da pobreza, peregrinos do Senhor enquanto vivem neste mundo. Devem ungir-se ainda a Arca do Testamento isto é, aqueles que levam a arca da obediência num carro novo, que é o coração e o corpo renovados pela penitência. Em terceiro lugar deve-se ungir a mesa com os seus vasos, isto é, aqueles que põem diante de todos os dozes pães, que são a doutrina dos dozes Apóstolos, com um pouco de incenso, ou seja, com a humildade de espírito devoto, e com a patena de ouro, que é a claridade do amor fraterno. Unge depois todos os prelados da Santa Igreja, que não escondem o candeeiro da sua dignidade debaixo do alqueire, isto é, sob o lucro temporal, mas colocam-se sobre o monte, ou seja, na excelência da vida, afim de que ilumine e mostre o caminho á todos quantos estão em casa, isto é, na Igreja; e unja não só o candeeiro, mas também os seus utensílios, que figuram aqui todos os clérigos de ordens menores. Unge finalmente os altares dos holocaustos e dos perfumes: o altar dos holocaustos designa os ativos que todos se oferecem a socorrer as necessidades do próximo; o altar dos perfumes, os contemplativos que experimentaram a suavidade da celeste doçura. Portanto, com tal bálsamo, composto por obra do Espírito Santo, devem ser ungidos todos estes que dissemos, membros de Jesus Cristo, crucificados na cruz da penitência, mortos ao mundo, sepultados no túmulo da vida celeste, longe da perturbação dos homens. Digamos, pois:
Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para vir ungir o corpo de Jesus; e na madrugada do primeiro dia de sábado vêm ao túmulo, tendo já nascido o sol (Mc 16,1-2). São Mateus descreve assim: Mas na tarde de sábado, ao amanhecer o primeiro dia depois do sábado, veio Maria Madalena e outra Maria visitar o sepulcro (Mt 28,1). São Lucas, por sua vez: Mas no primeiro dia depois do sábado vieram muito cedo ao sepulcro, trazendo os aromas que haviam preparado (Lc 24,1). E São João, finalmente: No primeiro dia da Semana foi Maria Madalena ao sepulcro de manhã, sendo ainda escuro (Jo 20,1). São Marcos diz: Muito de manhã. Nisto não discorda São Lucas. São Mateus, com a primeira parte da noite, isto é, com a tarde significa a noite, ao fim da qual vieram ao sepulcro. Por isso, entenda-se desta forma: Na tarde, isto é, de noite, ao amanhecer, isto é, ao chegar-se ao termo da luz, porque a aurora não é a primeira parte da noite mas a última. Elas vieram na tarde, portanto, do sábado, isto é, na noite do dia de sábado; na tarde, de fato, começaram a vir, isto é, começaram a preparar os aromas, mas chegaram ao surgir a luz da manhã. O que Mateus por brevidade traz de forma obscura, outros o referem mais abertamente.
MORALMENTE. E na madrugada do primeiro dia depois do sábado, etc. A madrugada representa o alvorecer da graça. Sem ela, há noite na alma. A seu respeito, escreve o profeta: Na madrugada estarei junto de ti (Sl 5,5), justo e direito, tal como me fizeste justo e direito. No primeiro dia da semana, as almas santas vêm ao túmulo, porque, se o ânimo não repousa das solicitudes dos bens temporais, não se aproxima de Deus. Daí a fala do Senhor em Jeremias: Guardai as vossas almas, e não transporteis cargas no dia de sábado, nem as introduzais pelas portas de Jerusalém (Jr 17,21). Sábado interpreta-se descanso; Jerusalém simboliza a alma; as portas, os cinco sentidos do corpo. Transportam cargas, portanto, em dia de sábado aqueles, que implicados na inquietação de negócios temporais, introduzem na alma pelas portas dos cinco sentidos cargas de pecados, fardos de cuidados seculares. E por isso não a guardam dos pecados. Mas as almas fiéis, posposto todo zunido das moscas do Egito, vêm ao túmulo no primeiro dia depois do sábado.
Segue o SEGUNDO. E diziam entre si: Quem nos revolverá a pedra da boca do túmulo? E olhando, viram a pedra revolvida. Era na verdade muito grande (Mc 16,3.4.)
ALEGÓRICAMENTE. O revolver da pedra insinua a abertura dos sacramentos de Cristo, cobertos com o véu da letra da Lei. A Lei, de fato, foi escrita em pedra. Logo que lhe foi tirada a cobertura, mostrou-se a glória da ressurreição. E assim se começava a pregar em todo o orbe a vida perpétua por nós esperada e que a morte antiga fora abolida.
MORALMENTE. Revolve-se a pedra quando é tirada, pela infusão da graça, a carga do pecado. O momento e o modo de o homem se haver neste negócio, de forma que se realize nele isto, vêm expressos no Gênesis: Era o costume que depois de reunidas todas as ovelhas tirassem a pedra do poço (Gn 29,2). Se queres, portanto, que se tire a pedra do pecado, que impede de te levantares, reúne as ovelhas, isto é, reúne em Cristo os pensamentos puros. Daí o ajuntar-se: Eis que Raquel vinha com as ovelhas do seu pai (Gn 29,6), pois ela mesma apascentava o rebanho. Raquel, que se interpreta ovelha, apascenta ovelhas, porque o homem simples nutre os pensamentos puros.
O mesmo MORALMENTE. Vai ao túmulo quem propõe fazer penitência nalgum mosteiro ou religião, mas ao considerar na grandeza da pedra, no rigor da religião diz: Quem nos revolverá a pedra da boca do túmulo? A pedra, é grande; a entrada é difícil, as vigílias freqüentes, os jejuns reiterados, o alimento frugal, o vestido áspero, a disciplina dura, a pobreza voluntária, a obediência pronta... Quem nos revolverá esta pedra da boca do túmulo? Ó espíritos efeminados, aproximai-vos e vede, não desconfieis: eis que a pedra está revolvida. Um anjo, escreve São Mateus, desceu do céu e revolveu a pedra e estava sentado sobre ela (Mt 28,2). O anjo é a graça do Espírito Santo. Ela remove a pedra da boca do túmulo, conforta a fragilidade, amolece toda a aspereza, dulcifica toda a amargura com o bálsamo do seu amor. O cavalo, diz Salomão nas Parábolas (Pr 21,31), isto é, a boa vontade, prepara-se para a guerra e o Senhor dá a salvação, pois que ao amante nada é difícil.
Segue o TERCEIRO. E entrando no túmulo, viram um jovem sentado à direita, coberto com um vestido branco, e ficaram assustadas (Mc 16,5).
MORALMENTE. O túmulo figura a vida contemplativa. Nela se esconde e sepulta o homem, morto para o mundo, como se estivera em túmulo. Daí Jó: Entrarás com abundância no sepulcro, como se recolhe o montão de trigo a seu tempo (Jó 5,26). O justo, sacudida a palha dos bens temporais, ao sair do mundo, entra com a abundância da graça divina no sepulcro da vida contemplativa, à qual se recolhe como se recolhe o montão de trigo. A alma do justo, de fato, satisfaz-se com a celeste doçura da contemplação. E, ao entrar no sepulcro, vê um jovem sentado ao lado direito, coberto de vestido branco. O jovem, assim chamado porque pronto a ajudar, é o Filho de Deus, que nos ajuda como um jovem, e está sempre pronto a ajudar-nos. Por isso, com razão se diz: Estava sentado à direita. Direita quer dizer o que dá para fora. Bem nos ajudou quando nos ofereceu a divindade e assumiu a nossa humanidade, a fim de estarmos dentro, nós os que estávamos fora. Para nós entrarmos, saiu ele. – Cobriu-se dum vestido branco, ou seja, da carne imaculada. Escreve São Bernardo: Depois de todos os benefícios, quis que lhe trespassassem o lado direito, para mostrar que apenas da direita nos quis preparar um lugar à sua direita. O justo, saindo do mundo e entrando no túmulo, tem de ver este jovem, tem de contemplá-lo do modo que diz São Bernardo: Como animal novo e noviço de Cristo, deve ensinar-se-lhe a aproximar-se de Deus, a fim de que Deus se aproxime dele. Deve advertir-se-lhe com quanta pureza de coração pode contemplar aquele a quem oferece o sacrifício da sua oração. De fato, quanto mais vê e compreende aquele a quem oferece, tanto mais afeto lhe tem, e o seu mesmo afeto lhe servirá de inteligência para compreender a Deus, pois quanto mais afeiçoado lhe estiver, tanto mais saboreia isto mesmo, suposto que é digno de Deus o que lhe oferece e nele há bem para si. Todavia, a um homem desta natureza, orante ou meditativo, a imagem da humanidade do Senhor, da sua Natividade, Paixão e Ressurreição apresenta-se-lhe melhor, com mais nitidez, para que o seu ânimo débil, que não sabe pensar senão em corpos e em coisas corporais, tenha alguma coisa a que se afeiçoe, a que fixe o olhar, segundo a sua piedade. Existe, na verdade, na forma de mediador. Neste, como se lê em Jó, o homem vendo a sua própria natureza não pecará, isto é, quando dirige para o seu olhar, considerando a natureza humana em Deus, não deverá temer. E enquanto, através da fé, não separa Deus do homem, aprende a ver Deus algumas vezes no homem. Nele, o seu afeto para com os pobres de espírito e os filhos mais simples de Deus costuma ser de ânimo tanto mais doce, quanto mais vizinho é da natureza humana. Mas, logo depois, com a passagem da fé para o afeto, abraçando em doce amplexo de amor, no meio do seu coração, a Cristo Jesus, perfeito homem em razão da natureza humana assumida, e perfeito Deus como divindade que a assumiu, começam já a não reconhecê-Lo segundo a carne (2 Cor 5,16), posto que não o possam pensar plenamente Deus como Deus; e santificando-o nos próprios corações, gostam de lhe oferecer os seus votos e, justamente com as santas mulheres, os seus aromas. Delas se escreve: E entrando no túmulo, viram um jovem sentado ao lado direito, etc.
Segue o QUARTO. O qual lhes disse: Não temais; buscai a Jesus Nazareno, que foi crucificado: ressuscitou, não está aqui; eis o lugar onde o depositaram. Mas ide, dizei aos seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis, como ele vos disse (Mc 16,6.7.). A raiz amarga desvaneceu-se, a flor da cruz da vida rompeu com os frutos. Por outras palavras, aquele que jazeu na morte ressuscitou na glória. Ressuscitou de madrugada. De tarde foi sepultado, para que se cumprisse o dizer do Profeta: De tarde haverá choro, de manhã alegria (Sl 29,6). Sepultado, portanto, na sexta do Sábado (sábado aqui significa semana), que se chama o Parasceve, por volta de vésperas, tendo permanecido no túmulo na noite seguinte e no dia de sábado junto com a noite a seguir, e o terceiro dia, isto é, no primeiro dia depois do sábado ressuscitou. E com razão jazeu um dia e duas noites no sepulcro, porque ajuntou a luz da sua simples morte às trevas da nossa dupla morte. Com efeito, nós estávamos presos pela morte da alma e do espírito: Deu uma para nós, ou seja, a sua morte da carne, e pagou as nossas duas; deu-nos a sua simples morte pela nossa dupla, e com a sua morte acabou com essa nossa dupla.
Lê-se que o Senhor apareceu dez vezes depois da ressurreição: Cinco vezes no próprio dia da ressurreição: Primeiro, a Maria Madalena (Mc 16,9; Jo 20,11); segundo, às mulheres que regressavam do túmulo (Mt 28,9); terceiro, a Pedro (Lc 24,34; 1 Cor 15,6), segundo aquilo que se lê: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão (Lc 24,34); quarto, aos dois que se dirigiam a Emaús (Mc 16,12; Lc 24,13); quinto, a dez Apóstolos, de portas fechadas,e na ausência de Tomé (Mc 16,14; Lc 24,63; Jo 20,19; 1 Cor 15,5); a sexta vez foi ao oitavo dia, quando apareceu aos discípulos e Tomé estava com eles (Jo 20,24); a sétima, quando se manifestou a sete discípulos durante a pesca (Jo 21,1.2.); a oitava, no Tabor, onde o Senhor tinha mandado que se reunissem (Mt 28,16): e desta forma antes do dia da Ascensão apareceu oito vezes.
No próprio dia da Ascensão apareceu duas vezes: a primeira, quando comiam os onze no cenáculo; donde São Lucas: E enquanto comiam, mandou-lhe que não se afastassem de Jerusalém (At 1,4); e outra vez, depois da refeição (Mc 16,19; Lc 24,51, 1 Cor 15,7). Os onze discípulos e outros e a Santíssima Virgem com outras mulheres vieram ao monte das Oliveiras, onde lhes apareceu o Senhor, e à vista deles se elevou e uma nuvem o ocultou dos seus olhos. Vejamos o que significam moralmente estas dez aparições (O Doutor Evengélico omite as aparições do Senhor no capítulo 15 da primeira epístola de S. Paulo aos Coríntios).
Primeiro, apareceu a Maria Madalena. A graça do Senhor aparece à alma penitente, antes que às outras. Daí a palavra do Êxodo: Apareceu no deserto maná miúdo e como pisado num almofariz, à semelhança de geada sobre a terra (Ex 16,14). No deserto, isto é, no penitente aparece o maná da divina graça: miúdo na contrição, pisado no almofariz da confissão, à semelhança de geada na satisfação.
Em segundo lugar, apareceu à mulheres que regressavam do túmulo. O Senhor, de fato, aparece aqueles que voltam do túmulo, ou seja, da miserável saída da sua morte, para refletir na triste entrada do seu nascimento. Daí a afirmação no Gênesis: O Senhor apareceu a Abraão no vale de Mambré, quando ele estava assentado à porta da sua tenda, no maior calor do dia (Gn 18,1). Abraão interpreta-se varão justo; o vale, a dupla humildade; Mambré, a perspicácia; a tenda é o corpo; a porta, o ingresso na vida e a sua saída; o calor do dia é a compunção do ânimo. O Senhor, pois, aparece ao justo que vive na dupla humildade do coração e do corpo. Ela o conduz à perspicácia da glória celeste. Aparece ainda ao que está sentado à porta da tenda, ou seja, ao que reflete no nascimento do seu corpo e na morte. E tudo isto deve considerar com o fervor da compunção.
Depois apareceu a Pedro. Lemos em Jeremias: O Senhor apareceu-me. E eu amei-te com amor eterno. Por isso, compadecido de ti, atraí-te a mim. E de novo te edificarei (Jr 31,3-4). Diz Pedro: O Senhor, ao ressurgir dos mortos apareceu-me, a mim penitente, a mim a chorar amargamente! E respondeu o Senhor: Com amor eterno eu te amei; daí: Voltando-se o Senhor, olhou para Pedro (Lc 22,61). E olhou por lhe ter amor. Eis porque com a corda do amor, compadecido de ti, te atraí a mim. Não quer, diz Santo Agostinho, vingar-se dos pecadores aquele que procura dar o perdão aos que o confessam. E noutra parte: Eu te edificarei no ápice do apostolado. Donde dizer de São Marcos: Ide, dizei aos seus discípulos e a Pedro (Mc 16,7). Comentário de São Gregório: Pedro é chamado pelo nome, para que não desespere por causa da negação. De fato, se o anjo não nomeasse expressamente aquele que negara o Mestre, ele não ousaria vir entre os discípulos.
Em quarto lugar, apareceu aos dois discípulos que iam para Emaús. Emaús interpreta-se desejo de conselho, a saber, daquele que o Senhor aconselhou dizendo: Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens e dá-o aos pobres (Mt 19,21), etc. Os dois discípulos significam os dois preceitos da caridade, de Deus e do próximo. Ao que tem caridade, pois, e ao que deseja a pobreza de Jesus Cristo, aparece o Senhor. Por isso, diz-se no Gênesis que Isaac subiu a Bersabeia, onde lhe apareceu o Senhor (Gn 26,23.24). Bersabeia interpreta-se o poço que sacia. Representa a caridade e humildade, que saciam a alma. Quem possui estas duas virtudes não terá sede eternamente (Jo 4,13).
A quinta aparição foi aos dez discípulos reunidos, de portas fechadas. Quando, pois, os discípulos, isto é, os afetos da razão, se reúnem e estão fechadas à vaidade as janelas dos cinco sentidos, então aparece verdadeiramente ao coração a graça do Espírito Santo. Donde a afirmação em São Lucas: Tendo entrado Zacarias no templo do Senhor, apareceu-lhe um anjo de pé, à direita do altar do incenso (Lc 1,9.11.). Quando Zacarias, que se interpreta memória do Senhor, ou seja, o justo, que guardou o Senhor no tesouro da sua memória,entra no templo do Senhor, isto é, na sua consciência, em que habita o Senhor, então aparece-lhe, iluminando-o, de pé, à direita do altar do incenso, o anjo do Senhor, ou seja, a graça do Espírito Santo. O altar do incenso é o espírito compungido; à direita, a intenção pura. Portanto, a graça do Senhor está à direita do altar do incenso, porque aprova aquela compunção, louva aquele incenso ou recebe o que o justo tira da intenção pura do seu espírito.
Em sexto lugar, apareceu ao oitavo dia aos discípulos, quando Tomé estava com eles, de cujo coração tirou toda a dúvida. Quando, pois, nos encontrarmos na oitava da ressurreição geral, tirar-nos-á a ruga de toda a dúvida e a mancha de toda a mortalidade e de toda a fraqueza. Lemos em Isaías: A luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes maior, como seria a luz de sete dias juntos, no dia em que o Senhor atar a ferida do seu povo e sarar o golpe da sua chaga (Is 30,26). Nota as duas palavras: ferida e chaga; ferida relativamente à alma, chaga quanto ao corpo. Na ferida designa-se o pensamento impuro, na chaga a morte do corpo. Mas no dia da ressurreição geral, quando o sol e a lua, como diz Isidoro no Livro das Criaturas, receberem a recompensa do seu trabalho (De ordine Creaturaraum, c.5), porque o sol brilha no oriente sete vezes mais do que agora, de tal modo há de brilhar e primar na sua amabilidade que atormentará os detidos do inferno; e a lua, persistindo no ocidente, luzirá com claridade igual à do sol de agora; então verdadeiramente o Senhor atará a ferida da nossa alma, porque, na frase do Profeta, besta alguma, isto é, nenhum mau pensamento, passará por ela (Is 35,9), ou seja, pela Jerusalém celeste. Antes, no dizer de São João, será a cidade (Ap 21,18), isto é, a nossa alma, de ouro puro, semelhante a vidro límpido. Que há mais claro do que o ouro? Que há mais límpido do que o vidro? E, pergunto eu, na ressurreição geral, que haverá mais claro e mais límpido do que a alma do homem glorificado? Então o Senhor curará o golpe da nossa chaga, aberto com a desobediência do primeiro pai. O Senhor nos curará, quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, e este corpo corruptível se revestir da incorrupção (1 Cor 15,53).
Naquela ressurreição geral, o paraíso do Senhor, ou seja, a glória do nosso corpo glorioso, será regado por quatro rios: o Fisão, o Gião, o Tigre e o Eufrates, que são os quatro dotes da claridade, subtileza, agilidade e imortalidade. Fisão interpreta-se mudança de boca; Gião, peito; Tigre, seta; Eufrates, fecundo. Pelo Fisão designa-se a claridade do corpo ressuscitado. De tamanha fealdade e obscurantismo nos mudaremos para o brilho do sol. Donde a frase da Escritura: Os justos brilharão como o sol (Mt 13,43), etc. Por Gião entende-se a subtileza. Assim como o peito do homem não se separa, não se fere, não se abre nem sofre dor alguma ao saírem do coração os pensamentos, também o corpo glorificado será de tamanha subtileza que coisa alguma lhe será impenetrável, e, todavia, permanecerá inquebrável, indissolúvel, fechado e sólido, tal como se lê do corpo de Cristo já glorificado, que entrou para junto dos Apóstolos de portas fechadas. Pelo Tigre entende-se a agilidade, bem expressa na velocidade da seta. Pelo Eufrates, a imortalidade, em que seremos inebriados pela riqueza da casa de Deus. Nela plantados, qual árvore da vida no meio do paraíso, daremos frutos de eterna saciedade, com os quais saciados não teremos jamais fome.
Em sétimo lugar, apareceu a sete discípulos durante a faina da pesca. A pesca é a pregação. O Senhor aparece aos que nela trabalham. Por isso, diz-se no livro dos Números que a glória do Senhor apareceu sobre Moisés e Aarão. E o Senhor falou a Moisés dizendo: Toma a vara e junta o povo, tu e Aarão, teu irmão, e falai ao rochedo diante deles, e ele dará água. E depois que tiverdes feito sair água do rochedo, beberá toda a multidão e os seus jumentos (Nm 20,6-8). Moisés, neste lugar, significa o pregador; Aarão interpreta-se o monte forte, no qual estão simbolizadas a excelência da vida e a constância da fortaleza. Sem tal irmão nunca Moisés deve agir. Diz-lhe o Senhor: Toma a vara da palavra de Deus e junta o povo, tu e Aarão. Sem ele, o povo nunca se junta bem. Despreza-se a pregação daquele de cuja vida se diz mal. E falai ao rochedo, isto é, ao coração duro do pecador, e ele dará águas de compunção. E diz bem: falai, e não: fala. Com efeito, se o pregador fala somente sem que a sua vida também se faça ouvir, não sai água da pedra. O Senhor amaldiçoou a figueira, em que não encontrou figos, mas apenas folhas, as folhas que serviam de vestido para os êxules do paraíso. Fale, portanto, Moisés e Aarão, e sairá água e a multidão do povo e os jumentos hão de beber. Isto é, tanto os clérigos como os leigos, tanto os espirituais como os carnais serão saciados com a água da compunção. Está é aquela multidão de que fala o quarto Evangelista: Deitaram a rede, e já não a podiam tirar por causa da multidão dos peixes (Jo 21,6).
Em oitavo lugar, apareceu aos onze discípulos num monte da Galiléia. Galiléia interpreta-se transfiguração e significa a penitência, passagem do homem da margem do pecado mortal através da ponte da confissão para a margem da satisfação. No monte, pois, da Galiléia, ou seja, na excelência da penitência, aparece o Senhor aos onze discípulos, isto é, aos penitentes. Acertadamente se diz que apareceu a onze, porque onze foram as coberta de pêlo de cabra, como se diz no Êxodo, com que foi coberta a parte superior do tabernáculo (Ex 26,7).Nas cobertas de pêlo de cabra denota-se, por um lado, a aspereza da penitência e, por outro, a fealdade do pecado. Dele se confessam culpados os penitentes. Com estas cobertas se protege a parte superior do tabernáculo, isto é, da Igreja Militante, porque sustêm o ardor do sol, suportam o peso do dia e do calor, defendem as cortinas bordadas de linho fino, de jacinto e púrpura e de escarlate duas vezes cozido e tingido (Ex 26,1), isto é, defenderão os fiéis da Igreja, decorada com o linho fino da castidade, com o jacinto da contemplação, com a púrpura da paixão do Senhor e com o escarlate duas vezes tingido do duplo amor. Defendê-los-ão ainda da inundação das chuvas, isto é, da maldade dos hereges, do turbilhão, ou seja, da sugestão do diabo, e da sujidade do pó, ou seja, da vaidade do mundo. Por isso e que o Senhor apareceu aos onze discípulos. Eis porque Jacó diz no Gênesis: Deus Onipotente apareceu-me em Luza, terra de Canaã (Gn 48,3). Luza interpreta-se amêndoa e significa a penitência. Nesta, como na amêndoa, há três coisas: casca amarga, caroço rijo e núcleo doce. A casca amarga designa a amargura da penitência; o caroço rijo, a constância da perseverança; o núcleo doce, a esperança do perdão. Aparece, pois, o Senhor em Luza, que fica na terra de Canaã, que se interpreta mudança. É, pois, verdadeira penitência aquela em que o homem se muda da esquerda para a direita e transmigra com os onze discípulos para um monte da Galiléia, onde aparece o Senhor.
Em nono lugar, apareceu-lhes quando estavam à mesa (Mc 16,14), como diz São Marcos. Apareceu no próprio dia da Ascensão. Nesse dia, ao comer com eles, segundo o relato de São Lucas, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém (At 1,4). O Senhor aparece aqueles, pois, que estão sentados, isto é, que repousam da inquietação dos negócios do século no cenáculo do seu espírito e se alimentam do pão das lágrimas; ou seja, ao recordar os seus pecados, saboreiam a doçura celeste. Daí a palavra do Gênesis: Apareceu o Senhor a Isaac e disse-lhe: Não desças ao Egito, mas fica na terra que eu te disser. Habita nela como peregrino, e eu serei contigo e te abençoarei (Gn 26,2.3.). Três preceitos dá o Senhor ao justo: que não desça ao Egito, ou seja, à inquietação dos negócios seculares, onde se constroem tijolos com o lodo da luxúria, com a água da avareza e com a palha da soberba, mas fique na terra do seu entendimento; e considere-se peregrino em todos os dias da sua vida, em que agora milita. E desta forma o Senhor estará com ele e o abençoará com a sua destra.
Apareceu em décimo lugar a eles. A eles, quem? Escreve São Lucas no último capítulo: Levou-os fora até Betânia, ao monte das Oliveiras, e levantando as mãos, os abençoou; e à vista deles se elevou, e uma nuvem o ocultou dos seus olhos (Lc 24,50; At 1,9). O Senhor aparece aos que se encontram no monte das Oliveiras, isto é, da misericórdia. Lê-se no Êxodo: Apareceu o Senhor a Moisés numa chama de fogo que saía do meio duma sarça, e via que a sarça ardia sem se consumir (Ex 3,2). O Senhor aparece numa chama de fogo, ou seja, num espírito compassivo, a Moisés, isto é, ao varão de misericórdia. Mas donde sai esta chama? Do meio duma sarça, quer dizer, do pobre, do coberto de espinhos, do atribulado, do faminto, do nu, do aflito. Com os espinhos desta pobreza o justo compungido se inflama à compaixão, para que tenha piedade dele. E desta maneira poderá ver que a sarça pobre arderá com maior devoção e não se consumirá com a pobreza.
Eis-nos, portanto, irmãos caríssimos, reunidos nesta ressurreição pascal. Nós vos pedimos que, juntos às santas mulheres, compreis perfumes de virtudes com dinheiro de boa vontade, a fim de poderdes ungir os membros de Cristo com a suavidade da palavra e com o odor do bom exemplo, nos recordardes a vossa morte e entrardes no túmulo da celeste contemplação. Aqui vereis o Anjo do grande conselho, o Filho de Deus sentado à direita de Deus Pai. Ele, na ressurreição geral, quando vier julgar este século por meio do fogo, aparecer-vos-á glorioso, não só dez vezes, mas sempre, eternamente, e vê-lo-eis tal qual é por séculos de séculos. Com ele, gozareis e com ele reinareis. Isto se digne conceder-nos aquele que ressuscitou dos mortos, a quem é devida a honra e glória, império e poder no céu e na terra eternamente e pelos séculos eternos. Diga toda a alma fiel nesta alegria pascal: Assim seja. Aleluia.
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